Postagem a convite: Arte, infância e Abordagem espiral por Priscilla Vilas Boas (parte 1)

Convidei Priscilla Vilas Boas para escrever sobre a Abordagem espiral no ensino de arte. Considerei que para o leitor do Agachamento poderia ser muito interessante ler algo escrito por uma leitora de minha obra, pessoa mais jovem e que trabalha em fluxo de continuidade com crianças. Serão três postagens com intervalos de 10 dias entre elas:

 

Pra falar de amor: um sopro de esperança no mundo e nas pessoas

PARTE 1: APRESENTO QUEM SOU

Me chamo Priscilla Vilas Boas e sou professora, artista e pesquisadora em dança, graduada e mestre em Educação pela UNICAMP. Atuo como professora de dança na EMIA (Escola Municipal de Iniciação Artística de São Paulo) desde 2007. A EMIA é uma escola pública, ligada à Secretaria de Cultura da cidade de São Paulo, em que crianças de 5 a 12 anos têm aulas de arte com dois ou mais professores nos chamados “cursos regulares” da escola. Dos cinco aos 8 anos, os grupos de crianças têm dois professores em sala, com estudos em áreas artísticas distintas. Entre 9 e 10 anos, os grupos de alunos têm quatro professores: um de artes visuais, um de dança, um de música e um de teatro. E na maioria dos grupos com alunos com idades entre 11 e 12 anos há dois professores com estudos em uma das áreas artísticas citadas. Ainda há cursos optativos, em que as crianças podem escolher ir um dia a mais à escola para praticar um instrumento musical, ou frequentar cursos com foco nas artes visuais, na dança, na música ou no teatro. O ingresso das crianças à escola é feito por sorteio público e a vaga é garantida a cada ano pela presença em aulas.

SÃO PAULO,SP,09.02.2017:EMIA-FIM-CONTRATO-PROFESSORES - Fachada da Escola Municipal de Iniciação Artística (EMIA), situada no Parque Lina e Paulo Raia, no bairro do Jabaquara, Zona Sul de São Paulo (SP), vinculada à Secretaria Municipal de Cultura, na manhã desta quinta-feira (9). A escola não renovou os contratos com os professores por conta do congelamento de verbas feita pela Prefeitura de São Paulo, atrasando o Espacialidade é tudo! (Foto: Rogerio de Santis/Futura Press/Folhapress)

Espacialidade é tudo!
(Foto: Rogerio de Santis/Futura Press/Folhapress)

Minha pesquisa própria flerta com as abordagens somáticas do movimento, que formam um campo de conhecimento interdisciplinar (saúde, arte, educação) cujos pressupostos divergem de uma visão mecanicista do corpo. Os procedimentos de pesquisa que dialogam com esse campo de conhecimento buscam conexões entre os aspectos cognitivos e sensoriais das pessoas durante seus processos de pesquisa e de vida. Dessa forma, novos padrões de movimentos podem ser investigados a todo momento, e novas formas de relação das pessoas consigo, com os outros e o espaço-tempo podem ser experimentadas.

Professora de crianças desde 2003, procuro encontrar formas de propor processos criativos de aprendizagem artística que se aproximam de seus modos de ser e de seus interesses. Além disso, nos últimos anos, eu também me dediquei a escrever livros didáticos de Arte e participei das discussões de documentos curriculares nacionais. Procuro integrar meus fazeres de modo que sejam condizentes com os pensamentos com os quais dialogo, ou seja, procuro maneiras de fazer com que minha atuação como professora e a atuação na elaboração de pensamento crítico e reflexivo, condigam com a forma como pesquiso a arte e me expresso por meio dela.

No campo da educação com crianças, está presente em meu caminho a Abordagem espiral para o ensino de arte proposta por Marina Marcondes Machado. Quando era bem jovem, trabalhei com Marina na EMIA-SP com turmas de crianças com idades entre 5 e 7 anos. Aos poucos, fui compreendendo como ela nos desafiava (a mim e a ela própria) a desenvolver formas performativas que incentivassem as crianças à investigação de maneiras expressivas e de expor seus modos de ser e estar no mundo, em diálogo conosco e com as outras crianças. Durante esse tempo, costumávamos organizar o espaço da sala com o intuito de fazer com que todos se sentissem confiantes e seguros para explorar desafios, descobrir diferentes maneiras de ser quem se é, imaginar modos de existir, descobrir muitas formas possíveis de se comunicar com os outros e com o mundo, brincar.

professoras de teatro e de dança que sabem brincar (foto: Luiz Eduardo Cotrim)

professoras de teatro e de dança que sabem brincar
(foto: Luiz Eduardo Cotrim)

Cuidávamos da iluminação da sala, dispúnhamos os móveis ali presentes de uma maneira diferente a cada novo encontro, disponibilizávamos materiais como tecidos, papéis, materiais recicláveis, objetos de uso cotidiano, entre outros, que poderiam ser ressignificados. Assim, o diálogo entre todos ocorria por meio de palavras, olhares, gestos e silêncios. A cada novo encontro, elaborávamos ações performativas – ao mesmo tempo em que convidávamos as crianças a dialogar conosco e entre elas, criando assim, suas próprias ações performativas conectadas a interesses e desejos seus. Segundo Marina, os atos performativos são ações reveladoras do modo como as pessoas são e se relacionam com o mundo compartilhado. Para os adultos professores, são ações que podem ser pensadas para potencializar as experiências estéticas das crianças. Podem ser motes para iniciar o diálogo e podem, ainda, estar presentes durante seu acontecimento.

Aquele nosso tempo juntas foi muito importante para a professora, artista e pesquisadora que sou. Hoje não me vejo obrigada a vislumbrar objetivos a serem alcançados pelas crianças em um processo de construção de conhecimentos em dança, pois, incentivando-as a vivenciarem suas próprias pesquisas sobre si mesmas e seus modos de mover e se expressar, em diálogo com outras crianças e com as professoras, elas mostram saberes conectados aos seus próprios interesses e desafios. Esse modo de atuação abre espaço para que emerjam experiências de pesquisa que não podem ser imaginadas de antemão apenas pelos professores: dependem da participação de todos os envolvidos no processo. Os professores, a partir de seus próprios saberes e com foco em seus campos de atuação e pesquisa, apresentam propostas às crianças e permanecem abertos a dialogar com seus modos de se relacionarem com tais propositivas e acontecimentos, refletindo e reavaliando cada novo passo do processo.

Há um artigo de Marina que pode ser consultado para esclarecer ainda mais alguns termos usados nesse texto. Ele se chama “Só rodapés” e pode ser encontrado no seguinte endereço eletrônico: http://www.seer.ufu.br/index.php/rascunhos/issue/view/1281

fim da parte 1

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