A criança que fui não chora na estrada

“A criança que fui chora na estrada” é um poema maravilhoso de Fernando Pessoa, escrito em 1933.

No início deste ano de 2018, propus que o grupo de estudos MRACO lesse e pensasse sobre o poema… que cada um de nós percebesse se [ainda] chora na estrada…!?

… Mas quando eu vi minha foto – tirada em setembro deste ano pelo meu irmão Floriano – associei de imediato a imagem a outra foto (de 1968) e percebi, com clareza:

Foto Antes e Depois a criança que eu fui não chora na estrada

Ela me acompanha, diariamente. Não “a criança interior”: mas a criança mesma.

Meus primeiros dez anos de vida, do meu ponto de vista foram felizes – talvez e provavelmente ingenuamente felizes (fui criança nos anos iniciais da ditadura militar)…

O bairro de Pinheiros mora em mim, me habita.

Cada pedacinho da Rua Capote Valente; o bar do Zé na esquina da Cardeal (demoliram, virou estacionamento, agora parece que vai subir um prédio); a avenida Sumaré (“avenida do Papa”, rs, nos dizeres das crianças) que não existia… era um “buracão” de terra! E depois a vimos ser construída, desbravada.

O percurso do ônibus que passava na Rua Teodoro Sampaio e descia a Rua Cardoso de Almeida mora em mim. O percurso do ônibus que ia da Rua Teodoro Sampaio e descia a Rua da Consolação: mora em mim. O percurso…

Ah, acabou a infância.

Falo dos primeiros dez anos de vida.

Primeira e segunda infâncias.

Mas (não só) pelas imagens vejo: sou fiel à criança que fui.

Não fui tatibitate. Não fui princesinha (nem do papai, nem da mamãe). Vesti saia jeans “Calhambeque” – acho que era a “marca” da Jovem Guarda. Estudei o curso primário (primeira metade do ensino fundamental) numa das primeiras escolas “alternativas” de São Paulo. Andava com autonomia: ia andando para a casa da prima; voltava andando da escola, na mesma rua Capote Valente…

A criança que fui me acompanha; do mesmo modo, a idosa que serei. Temporalidade: tempo cronológico e tempo vivido, presente, passado, futuro, tudo junto misturado.

A idosa que serei faz planos para o ano que se inicia:

Abrir os braços na direção do novo (ah, não-jamais o partido!).

A existência cotidiana marcada pelos ciclos de alegria e luto.

so bad

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