Postagem a convite: Violeta Penna come, bebe e digere o livro AKASHA

Belo Horizonte, 29 de novembro de 2018

No segundo semestre de 2018 fiz o Estágio em Docência, por meio do Programa de Pós-graduação em Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, na disciplina “Princípios da fenomenologia da criança e a cena contemporânea”, ministrada pela professora Marina Marcondes Machado, minha orientadora de doutorado. A disciplina  apresentou a noção de ser humano da fenomenologia, as implicações daquele olhar para a fenomenologia da criança e, a partir de práticas de descrições densas de imagens e cenas cotidianas observadas, os alunos foram convidados à escrita de cenas teatrais em narrativa, diálogo e/ou roteiro de improviso. A partir das propostas de aulas da professora Marina aos alunos, fui também provocada: decido ensaiar possíveis textos de dramaturgias.

O primeiro texto surge na aula de 18 de outubro de 2018, quando Marina apresentou aos alunos o livro AKASHA de Duda Teixeira. Um livro-objeto cheio de fragmentos de textos poéticos, um pequeno tesouro de edição limitada. A partir de um dos textos do livro – uma carta escrita por Arnaldo Antunes ao autor – Marina listou elementos para discutir uma escrita criativa. Os alunos foram convidados a escolher um dos textos do livro e produzir pequenos textos em forma de diálogo, narrativa ou roteiro de improviso, tendo como referência a discussão da escrita criativa. Assim:

Escolho o seguinte texto/poema:

PARECE PRECE

PARECE PAREDE

PARECE PARADA

PARECE PORRADA

PARECE PERENE

PARECE PERECE

PARECE PIRADO

PARECE PARENTE

PARECE POENTE.

PARECE POEMA?

Duda Teixeira

Produzi, a partir do poema acima, dois textos. O primeiro uma narrativa e o segundo, um roteiro de improviso:

Uma mulher em prece parada em frente à parede do quarto, vê no seu rosto a porrada. Deseja que o roxo seja perene e não pereça. Será que está pirada? Ou será a luz do sol poente da tarde que fez a porrada se tornar poema?

POEMA PERENE

(De frente para a parede, duas mulheres parecidas, aparentemente parentes, no final da tarde de um sol poente, dançam)

– Explore os movimentos, gestos, ações, palavras a partir das seguintes palavras:

PRECE

PARADA

PORRADA

PERECE

PIRADA

– Repita continuadamente sem nunca terminar.

O segundo texto surgiu também no 18 de outubro, relato de uma cena vivida/observada durante aquele mesmo dia no meu encontro com uma criança:

A criança que não podia existir

No dia 18 de outubro estava em um centro cultural da cidade de Belo Horizonte, quando ouvi um barulho vindo da biblioteca. Assustei com o barulho, mas só me levantei, quando ouvi um movimento de pessoas indo para lá.

Quando cheguei, vi uma mãe de aparentemente 30 anos, o filho de aparentemente 9 anos, uma outra criança da mesma idade e dois adultos, em volta de um quadro do Sebastião Salgado. O quadro estava caído no chão e o vidro que recobre o quadro estava quebrado. No momento que cheguei, a mãe estava visivelmente transtornada e disse: -“Mas D., você nunca me deu trabalho. Não acredito. Nesses anos todos. Você nunca me deu trabalho.” Perguntei se o filho estava bem, se não havia se machucado. A criança me olhou, mas não disse nada. A mãe respondeu que não, e disse para o filho sentar na mesa e não mexer em mais nada. O menino mudo, com o braços rente ao corpo e um olhar que parecia não entender muito o que estava acontecendo, prontamente obedeceu a mãe. O menino parado ficou na cadeira, olhando para frente, junto com a outra criança, que sentou na cadeira ao seu lado, enquanto eu tentava acalmar sua mãe, que já estava com lágrimas descendo dos olhos e repetia várias vezes – “Mas Violeta, não entendo, ele nunca me deu trabalho”.

O visível transtorno “com o trabalho” que o filho lhe deu e a pouca preocupação com a integridade física do seu filho, que poderia ter sido gravemente ferido com os vidros, me deixou desconcertada. A mãe chorava e disse também que não voltaria ao centro cultural com o filho, para a aula que tinham à tarde, pois colocaria o filho de castigo, pelo trabalho que ele deu.

Conversei com a mãe (tentando explicar que foi um acidente), mas ela, ainda chorando, chamou o filho para ir embora junto com a outra criança. Sob esse chamado, o filho levanta da cadeira, mudo, sem expressão de qualquer reação e, ao lado da mãe, mas sem tocar nela, seguem a caminho de casa.

Depois que eles foram embora e durante várias vezes naquele dia, pensei porque a criança não reagiu, não chorou, não gritou de susto com o vidro quebrado, não falou com a mãe. O quadro tinha caído em cima dele e isso me parecia assustador para uma criança. Me perguntava sobre a frase repetida insistentemente pela mãe e como, para ela, era desolador aquela primeira vez que seu filho “lhe dava trabalho”, aquele filho que não agiu de acordo com o esperado, aquele filho-acidente. Pensei nas crianças que “não podiam dar trabalho”, naquela criança parada, muda, sem reação, sem brincadeira, sem riso, sem vida. A criança que não podia existir.

Talvez essa criança nunca tivesse sido desejada, tenha sido um acidente, uma violência.  E agora, o filho, criança-acidente nesta fração de segundo do vidro quebrado, torna-se criança-acidente, nasce outra vez no mundo, lembrando à mãe do seu próprio nascimento-acidente?

Nestas linhas acima escrevi pequenos ensaios de textos, construídos a partir de estímulos do Estágio em Docência. Percebi a potência da proposta das aulas ao descobrir novos modos de escrever, pensar e criar nas artes da cena. Pude me permitir ensaiar descrições e dramaturgias.

Não teria apresentação (respondendo a pergunta que Marina me fez, brincando com a palavra ensaiar que usei para criar coragem de escrever textos dramatúrgicos). Mas penso que essa postagem se tornou para mim, a apresentação de uma escrita que performa o curso em texto dramatúrgico.

Não é que teve apresentação?!

Violeta Vaz Penna

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