Manifesto para não votarmos em quem apoia Escola sem partido e sem discussão de gênero

Nesse dia 29 de setembro de 2018, dia de manifestações [políticas e de gênero] pelo Brasil inteiro, explicito no Agachamento como é nocivo votar em quem acredita em escola sem partido e sem discussão de gênero entre adultos, crianças e jovens. Propor esses dois silenciamentos é fazer das crianças e dos jovens pessoas fora dos seus tempos, bem como educa-las na base da imposição de assuntos tabu.

Acreditar em uma educação “sem ideologia” em pleno século XXI é acreditar em infâncias e juventudes sem tempo nem espaço. Isso é impossível e faz com que o movimento “sem partido” se mostre uma ideologia ele mesmo, ideologia autoritária e de uma nota só.

Somos feitos pelo tempo e pelo espaço que habitamos; se for negado acompanhar as mudanças dos tempos e espaços aos estudantes, ficarão todos tal qual Peter Pan, congelados em um tempo-espaço de pirlimpimpim: ignorantes e ingênuos, presos em uma noção equivocada de uma pseudo política sem política.

As mudanças mundiais nas culturas relacionais apontam para novas famílias; não poder falar sobre isso, como por exemplo a existência de duas mães ou dois pais criando uma criança, vai gerar estranhamento e segregação. Não conversar abertamente será negar aos filhos das novas famílias o direito à verdade; não conversar com as crianças das famílias tradicionais sobre casamentos entre adultos do mesmo sexo, e a criação de filhos por esses casais, é educa-las na direção da ignorância e da leitura errônea sobre a natureza humana.

A natureza humana é cultural. Política. Transformacional.

A discussão política se inicia antes mesmo de nascermos: parto normal ou cesariana? Leite de peito ou mamadeira? Uma vida banida da política é uma vida apartada.

O teatro, o cinema, a literatura, a poesia estão bem adiante das propostas pedagógicas sem partido e sem discussão de gênero. As questões polêmicas estão na boca de cena, por assim dizer, e as questões amorosas estão nos corpos artistas… Enquanto que o silenciamento e a recusa à conversa desenham, sem arte, pautas retrógradas, cheias de ódio por seus recalcamentos, atrasos e cegueiras.

A natureza humana é paradoxal e recheada de conflitos.

Os conflitos não se resolvem por meio de uma educação conteudista, asséptica e “neutra”. Os conflitos são a própria vida. Os conflitos pulsam e chamam as pessoas para o ringue: o ringue pode e deve ser o próprio fórum de discussão nas escolas.

Crianças criadas para dialogar, negociar, expressar conflitos e compreender direitos e deveres, estarão aptas à vida contemporânea. A escola conteudista, asséptica e “neutra” vai gerar crianças passivas, obedientes e crentes em uma verdade só.

A verdade sobre política e sobre os corpos não é única.

Quem for criado com base em verdade única tenderá a viver de modo único – incomodando-se com a diversidade e com (a alegria das) crianças ativas, questionadoras e criadoras de verdades situadas em suas realidades e contextos (inseridos na lei e na cidadania, sempre).

Quem for criado com base em verdade única, conteudista, asséptica e “neutra” tenderá a reproduzir os modos de vida dos adultos educadores “sem partido”: eles mesmos “neutros” e assépticos… e o mundo será desinteressante, feito de tarefas e meritocracia.

Quem for criado sem diálogo, sem política e sem diversidade de gênero habitará um mundo em branco e preto. E não saberá conversar sobre os assuntos para além da grade curricular tradicional.

As crianças e os jovens têm direito a todas as cores da maior e mais rica caixa de lápis de cor, e direito de aprender sobre seus corpos, sobre escolhas pessoais e grupais, saber conversar e a ser generoso com os outros.

As crianças e jovens eventuais frutos de um sistema educativo sem partido e sem discussão de gênero estarão menos preparados para o convívio democrático. É fácil concluir que a escola sem partido e sem discussão de gênero é antidemocrática – portanto, autoritária.

Toda verdade única é suspeita.

Toda neutralidade é suspeita.

Todo desejo de um único jeito de ser e estar no mundo está, hoje, ultrapassado; as crianças e jovens educados sem discussão política e sem discussão de diversidade sexual estarão antiguinhos. Antigos e menos inteligentes: empoeirados e enrijecidos pela crença totalitária de uma nota só.

Se você não quer um Brasil feito de crianças antiguinhas, empoeiradas e enrijecidas, vote em candidatos progressistas que não acreditam em escola sem partido, que acreditam em fomentar a discussão de gênero em todas as idades, como política pública e em nome de uma sociedade mais saudável, plural e amorosamente feliz.

 

 

 

 

2 comments for “Manifesto para não votarmos em quem apoia Escola sem partido e sem discussão de gênero

  1. Adélia Carvalho
    1 de outubro de 2018 at 11:19

    Eu acredito que o melhor é isso, as crianças poderem conviver e reconhecer as diferenças e as características desse (como você diz) tempo e espaço no qual vivem e convivem. Isso é saudável e potente, pois ensina sobre a diversidade e o respeito…talvez seja o único meio de vencermos tanto preconceito e indiferença. Que coisa boa ler esse texto!!! Abraços.

    • agachamento
      1 de outubro de 2018 at 12:34

      Fico feliz com sua leitura e comentário Adélia!
      outro abraço pra vc
      Marina

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