Espelho, espelho meu

Senti vontade de continuar a “rabiscar com Winnicott”… especialmente para que o leitor se interesse pela obra do psicanalista e compreenda como é importante o “brincar livre e criativo”!

Encontrei no livro Limite e Espaço / Uma introdução à obra de Winnicott (livro maravilhoso editado no Brasil em 1982 e que você pode encontrar nas livrarias virtuais) uma citação muito bonita, que nos mostra o modo de ser e de escrever de Winnicott:

… nos momentos tranquilos podemos dizer que não há linha mas apenas uma porção de coisas que eles separam, o céu visto através das árvores, algo que tem a ver com o movimento dos olhos da mãe, passeando ao redor. Alguns carecem de qualquer integração… Isto é uma coisa extremamente valiosa de reter. Carecemos de algo sem isto. Algo a ver com estar calmo, descansado, relaxado e se sentir “em unidade” com as pessoas e as coisas quando não há excitação ao seu redor.

O estado de não integração marca o primórdio da nossa capacidade para estar só (na companhia de alguém). Sim, algo valiosíssimo especialmente nos nossos tempos tecnológicos, nos quais os jovens pais parecem ter dificuldade para estar em contato com seus filhos de modo pleno, carnal e separado da intermediação tecnológica (filmam e fotografam o tempo todo, e deixam seus filhinhos à mercê da Disneylândia compacta que habita os celulares e tablets).

Aos poucos quando o adulto cuidador “nos olha” (de fato e integralmente, quando nos cuida e nos acompanha) nos sentimos olhados por ele, e, como ainda estamos por vezes em estado fusional (como escrevi na postagem anterior) o olhar do outro me proporciona identificação: aos poucos o bebê passa a ter vida psíquica, ter um self e sentir-se real, por sua coleção de experiências de continuidade de ser – um sentimento de existência habita nosso funcionamento corporal, feito de psique-soma (um ego rudimentar, um self em desenvolvimento, um id em continuidade pulsando vida-e-morte).

Em inglês é bonito, como um verso: When I look I am seen, so I exist. (Frase de Winnicott)

Traduzo livremente: Quando percebo que sou visto, eu existo.

O ato de brincar imaginativamente passará a ser possível, nesse entre-espaço e entre-lugar que o “momento tranquilo” proporciona às crianças pequenas. Por isso é tão nociva a “animação” como atitude adulta (adultos propondo coisas e preenchendo o espaço com sua noção de infância equivocada, de não querer correr o risco de perceber silêncio ou tristeza… negativando as possiblidades de estar só e ter ideia, como se diz).

Minha sobrinha neta está na creche e sua mãe compartilhou esta foto:

ester no espelho

ainda que paradoxalmente fotografada em câmara digital e com a foto compartilhada nas redes sociais…

Percebam a bebê e seu reflexo, e como a imagem nos remete a tudo que Winnicott postula sobre ser um eu… Processos de personalização proporcionam a união entre psique e corpo, e há beleza nessa pesquisa do reflexo de si… Os próximos passos se darão pelo uso criativo do mundo, das pessoas e das coisas, e de si mesma.

Os leigos podem estranhar o uso da palavra “objeto” no jargão psicanalítico; as “relações objetais” inauguram a vida interior e íntima, a partir do momento que um outro, um não-eu, me permite a ilusão de tudo aquilo estava ali me esperando – ou ainda, que teria sido eu o criador da paisagem, da musicalidade, da voz e do suor [do adulto que me cuida e me oferece a mão e brinquedos].

Nas relações de maternagem entre adultos e crianças, pelo suporte (holding) e pelo manejo (handling), se desenha o “indivíduo total”, rumo à realização do “eu sou”. Assim, relações objetais na psicanálise significam relações humanas, cujo cerne são amor-e-ódio.

O ódio e a agressividade têm lugar especial na obra de Winnicott; por exemplo, quando falou sobre adoção para leigos, afirmou que os novos pais devem estar prontos para odiar seus filhos adotivos inicialmente. Abrir-se para o sentimento de raiva que nos faz humanos, sem sentimentalismos: isso é também perceber “a experiência total” de ser o que se é.

Minha revisita à obra de Winnicott tem feito muito sentido nesses tempos sombrios: uma fresta de sol para compreender a escuridão da noite, convite a habitar um lugar intermediário no qual brincar é saúde e completude.

Um teórico que busca ser compreendido de modo claro, preciso e poético, tudo junto misturado.

Uma fonte inesgotável de suporte, manejo e apresentação do bom objeto. Saravá!

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