Winnicott: referência suficientemente boa ontem, hoje e amanhã

Winnicott ontem, hoje, sempre

winnicott em quadrinhos

Por esses acasos do destino – algo que Carl Jung nomearia de sincronicidade – voltei a estudar os escritos de Winnicott. Um grupo chamado MrACO / Movimento Rumo ao Agachamento Coletivo interessou-se pela obra de Winnicott porque uma das participantes encontrou um livro dos mais instigantes: Você é minha mãe? (Um drama em quadrinhos), editado pela Companhia das Letras e escrito-desenhado por Alison Bechdel. Uma obra de quadrinhos para adultos na qual a autora comenta biograficamente seu encontro com a teoria de Winnicott e narra como foi elaborando, a partir de duas análises pessoais, sua relação com a mãe. Muito legal!

Também voltei a ler Winnicott para propor discussões sobre as relações professor-aluno no grupo de professores do curso de teatro da UFMG.

E para completar essa gestalt, ou seja, essa forma-conteúdo que já me habitava (o interesse e a adesão às ideias de Winnicott é antigo), a Revista Cult de agosto traz um dossiê Winnicott. (Vejam lá, nas bancas de revista ou no site deles, ta bem legal).

dossiê winnicott

Winnicott faleceu em 1971. Foi um psicanalista importantíssimo no debate sobre a criança, a infância, e os “processos primários” de todos nós. Por meio de sua prática clínica, observou milhares de crianças – e, especialmente, bebês e suas mães, e assim criou uma obra original sobre nossos primórdios… Fatos, narrativas, dramaturgias inconscientes que retornam, ou ainda, que plasticamente colorem ou embrutecem nossa psique.

Seu modo de dizer, sua capacidade poética e ao mesmo tempo em sintonia com uma simplicidade cotidiana, elucida uma porção de mistérios advindos, por exemplo, da pesquisa da psicanalista de crianças Melanie Klein. Sua obra assusta os leigos com as hipóteses que chama de “posição esquizo-paranoide” e  “posição depressiva”… na mente inicial de todos, ou seja, na formação da psique dos bebês. Winnicott, que foi inicialmente seu discípulo por assim dizer, cria outros termos e faz os conceitos serem acessíveis a todos, especialmente a toda “mãe comum”.

O bebê não se sabe um “eu”. Nasce em um estado tal, que os psicanalistas denominam de fusão: o bebê é a mãe, e a mãe é ele. Nos termos de Winnicott a mãe também vive uma espécie de regressão, de modo que acolhe com certa naturalidade e lida com esse modo de funcionar, especialmente nas primeiras semanas de vida. Quem já teve um bebê sabe, quem já conviveu com mulheres nesse período também imagina com facilidade que é por aí mesmo o que acontece, dia após dia, nos cuidados do recém-nascido: um é o outro, o outro é um. Um momento muito peculiar, cujo estado, no bebê, Winnicott chama de não integração.

Só haverá integração a partir do fluxo e continuidade de tempo para viver os primórdios de sentir-se um “eu”, separado da mãe. É um delicado processo, esse de sentir-se um eu. Quando tudo vai bem, o bebê experiencia momentos de sentimento de ser, sentimento do real (tradução ruim a meu ver para a expressão existencial feeling of real) o que gera a integração (poder ter uma experiência total) e habitar um tipo de capacidade psíquica (para brincar e para estar só, na companhia da mãe).

Quando algo interrompe esse fluxo (morte de um cuidador, depressão da mãe, separação da mãe e do bebê por motivo abrupto, guerra, sequestro, hospitalização e etc) poderá surgir a sensação (terrível) de desintegração – origem, segundo Winnicott, dos transtornos psiquiátricos, das psicoses, e de marcas insconscientes muito profundas, que levam, mais tarde, a criança e o jovem, por exemplo, à tendência anti-social. Não é um diagnóstico: roubar, mentir, machucar-se por querer, agredir, são possíveis condutas anti-sociais.

Quando isso acontece, segundo Winnicott, a criança e o jovem estão em sofrimento e reivindicam, atuando (agindo: acting out é a expressão inglesa) na direção de algo que lhes pertencia… em tese, a boa relação com a mãe (e/ou figuras maternas), com a qual teve um bom começo, interrompido por aquela ruptura vivida como insuportável.

Aliás, “suportar” bem a lida com o bebê e suas fases existenciais é central na obra de Winnicott; ele usa a palavra holding, que foi traduzida por segurar. O colo não deve ser nem frouxo nem muito apertado… O colo é o lugar próprio do holding – é o modo de segurar do adulto cuidador.

No desenvolvimento harmônico, existe um momento importante no qual o bebê se apega a um brinquedo, uma fralda, um belisquinho na orelha da mãe quando mama… é o que Winnicott denomina “fenômeno transicional”. É o começo da capacidade para brincar, de fazer uso de símbolos, e de separar-se de fato da mãe (leia-se “figura materna”, ou seja, qualquer cuidador afetivo e presente em fluxo de continuidade). Um passo para a saúde integral contida na expressão ser um EU.

Há outra beleza na obra de Winnicott: ele inventou a noção de “mãe suficientemente boa”; nem perfeita, nem falha; segundo ele, as mães de quase todos nós (caso contrário não estaríamos aqui, vivendo nossas vidas com certo grau de sentido e significatividade).

Infelizmente as novas gerações de pais tendem a ler tudo isso com certa ansiedade e querem muito receitas ideais. Por exemplo: ninguém deve forçar o uso do ursinho de pelúcia, advogando algo como “isso faz bem pro bebê”… Tudo o que é forçado, pode ser sentido pelo bebê como uma demanda de adequação, o que, na teoria winnicottiana, constrói o que ele nomeia por “falso self”. Bebês muito bonzinhos podem estar nesse caminho, por meio de uma suscetibilidade maior ao que o adulto quer e deseja; molda-se precocemente uma espécie de máscara social, retraindo o gesto espontâneo. Todos precisaremos de máscaras sociais, é claro – e para Winnicott todos temos nossos falsos selves – mas a pressa e a ansiedade dos adultos podem nos levar a esconder, de modo cruel e difícil de acessar, nosso verdadeiro self.

Assim, adoecer psiquicamente, para Winnicott, é um sinal de esperança. (Mais um pressuposto bonito e interessante). As pessoas regridem para um estágio anterior, muito inicial e primário, momento que antecedeu a ruptura – uma espécie de jornada para recuperar algo que ia bem…: “redescobrir o objeto bom e o bom ambiente humano controlador que, por existir originalmente, tornou-a capaz de experimentar impulsos, mesmo os destrutivos”.

A depressão é vista como uma capacidade: conquista de amadurecimento. Preocupar-se com o outro – to concern – é parte do desenvolvimento rumo à independência. Essa possibilidade de perceber-se em não fusão com a mãe é parte da saúde, e carrega uma tristeza, talvez uma saudade… me parece que é o momento para o qual Freud inventou a expressão sentimento oceânico: momento cósmico no qual não diferenciamos “eu” e “outro”.

Cuidado, não se afogue.

 

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