Ações de não-adoecimento

Namorinho de portão, bem sucedido

Durante o primeiro semestre de 2018, pratiquei o “namorinho de portão” com o professor da FaE Vinícius Lírio. Para os mais novos (que não sabem do que se trata): namorar no portão era uma prática bem comportada e bem vigiada, de relacionamentos entre pessoas jovens nos anos de 1960…

… começamos bem comportados ao criar um elo, pelo desejo de ensinar e experimentar uma disciplina comum a nós dois e a nossos cursos de origem; no entanto, já vivemos logo de cara empecilhos para nosso “caso de amor”: burocracias e dificuldades para lançar, em duas unidades de ensino, a mesma disciplina com dez vagas para cada — e incompreensão acerca do nosso ímpeto interdisciplinar. Teimamos um pouco e geramos um entre-lugar, que consistiu em encontros não semanais nas terças-feiras de tarde.

O nome do curso já não era mais tão bem comportado:

PERFORMAR NA CIDADE

Temos nossos quatro pés na Licenciatura em teatro, e, justamente por isso, quisemos fazer algo bem diferente – tudo junto e misturado.

Dei ideia da ementa ser não apenas aberta mas ser entregue no primeiro dia de aula [quase] como folha de papel em branco.

Também a forma de avaliar se centraria “apenas” na escrita de diários, das semanas e dos encontros, incluindo a descrição densa de por onde andavam os alunos na semana em que não havia encontros….

Sem textos obrigatórios!

Mas com comentários, em roda, sobre

O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?

Todas essas características da disciplina optativa convidavam, fica claro, a uma certa indisciplina dos discentes – e também evocavam o aluno performer, pesquisador “de si”

Do que eu gosto? Qual teatro quero fazer, mediar, inventar, ensinar? E coisas do gênero.

Ao longo das semanas fomos compreendendo como esse jeito, que podemos nomear por antiestrutura (diante do que vivemos na “grade obrigatória”), tinha seus problemas… a ponto de eu chamar o curso, a partir de um momento, de

O CURSO MAIS VAGABUNDO QUE DEI

Mas que rapidamente Vinícius me alertou para a categoria “vagabundo”, e sobre como a academia com seus academicismos está precisando aprender algo sobre

O CACHORRO VIRALATA

e sua fidelidade, e seu modo de abanar o rabo, de procurar por qualquer comida e brincar, com saúde mais forte que os cães de raça e suas botas e petshops.

No último encontro, de antemão anunciado para o comecinho de julho e fora da UFMG, fomos por duas horas passar a tarde de uma terça-feira de julho no Parque Municipal Renné Giannetti.

Foi no último encontro que percebemos quem de fato era o grupo – seis de dez alunos sobreviveram. A percepção da configuração do grupo no último encontro foi também uma característica antiestrutural vagabunda, diga-se de passagem.

Os chamados trabalhos finais surpreenderam. Afinal os seis alunos que toparam passar por toda a experiência tinham sim algo a dizer. E disseram.

Começando por Gefter, que no primeiro encontro anunciou algo como

ODEIO A PERFORMANCE!

Referindo-se, foi ficando claro, a uma modinha entre jovens, de sair dizendo

“eu performo!”

“adoro performance, odeio o teatrão!”

e outras pérolas…

Vejam que interessante seu texto lido ao vivo e a cores naquela tarde de inverno:

gefterBreve relato (de um ator performativo)

Considero a experiência boa, importante para meu crescimento como ator, pensador e pesquisador.

Enfrentei a dificuldade de me despir das influências teatrais, que levam sempre para o lado de uma dramaturgia (historinha) e que resulta nos aplausos.

A performance para mim hoje é igual àquele quiabão que tua mãe diz que você precisa comer primeiro para saber se gosta ou não. Então eu comi o quiabão e confesso que não gostei, mas eu não o odeio mais.

Eu conheço a performance e ela me conheceu, não somos amigos nem inimigos, somos conhecidos, mas ela no canto dela e eu no meu.

Penso que, do ponto de vista de um curso com ementa aberta e rotina bagunçada, essa conclusão é mais que justa, o aluno-pesquisador reviu sua posição de ódio, ou de bipolarização das estéticas, e isso é sempre muito bom.

Não era pra ser mas tornou-se um pequeno roteiro de improviso ou programa performativo o uso de uma cadeirinha amarela que levei de casa:

cadeirinha

Karol trouxe para mostrar um interessante “terço laico” de pano cujas partes eram pequenos retalhos karolde pano com palavras-chave… fez um depoimento que lembrou muito o que se vem denominando “desmontagem”, e assim uniu seu passado na graduação com o futuro almejado na pós-graduação, dizendo algo do “meio”: estar já em disciplina na pós, acabando de cumprir seus créditos na graduação da Licenciatura em teatro, em busca de escrever seu projeto.

tamirisTamiris usou um interessante retrato mais ou menos psicodélico que uma garota fez dela, para também dizer de si – de sua identidade, de como quer ser, de como percebe ser vista, e de como tudo isso pode ser por vezes simples e por outras, complicado. Chamou atenção seu (potente) uso do silêncio.

Kamilla foi contando sobre sua facilidade com a arte espetacular e sua dificuldade com o ato performativo; foi marcante seu dizer

kamilla

 

 

EU NÃO TÔ BEM NESSE LUGAR DE RISCO (mas quero fazer)

No mesmo semestre teve uma experiência de ocupação na Funarte, e os percursos conversaram e se misturaram.

 

 

Janaína retomou o “fazer mapas” e seu mapa-depoimento foi me deixando mais enamorada no portão jana(no portão entre eu e Vinícius Lírio) pois ela comentava cada encontro e eu percebia como sim, havia um curso sendo “dado” e “usufruído”!

Por último Raiane nos leu um poema, que transcrevo aqui:

What’s “happening”?

Ou

(O q tá pegando?)

O que está acontecendo na sala de aula?

Terça-feira quinzenalmente silenciosa…

Alunos passíveis balbuciantes

Proferem achismos, questões e temores

Sobre a arte da performance

Com a palavra, Senhores Doutores

 

Pode ser assim, pode ser assadonani

Sonho todos os dias com o estudante engajado

De volta à realidade

O mais importante é ser atravessado

Por dizeres internos, da rua ou cidade

Leia, experimente, cite, crie subjetividades

 

O que acontece na sala?

O artista está presente?

No espaço-tempo da sala?

Por que a gente se cala?

 

“Eu não sei dizer / nada por dizer / então eu escuto”

 

Fez-se assim o silêncio

Perigoso escudo

 

O que está acontecendo na cidade?

 

Ritos de individualidade coletiva

Com uma porção de E.V.A., vá ver e ser vista

No horizonte-belo da cidade-corpo

É cada um por si, deus contra todos

 

Caminhar, parar

Tocar a matéria relacional viva

Narrativas da rua, de mim

Mapas, desvios, deriva

Paisagem poética urbana

Um coro dissonante possível

“Caminhante, não há caminho”

Res(piro)

O que acontece comigo?

 

Fico feliz, muito feliz com esse poema, e com todos os depoimentos, porque vi e vejo a possibilidade de cursos vagabundos, bem brasileirinhos, rompendo barreiras caminhando contra o vento, sem lenço sem documento, propondo modos de ser e estar que não adoecem os jovens acadêmicos.

Obrigada por compartilharem! E obrigada Vinícius, meu ex-namoradinho de portão agora noivo (engajados em outros projetos!): bora ser feliz, todo mundo junto e misturado, salve Minas, Bahia e São Paulo!

2 comments for “Ações de não-adoecimento

  1. Vinicius Lirio
    6 de julho de 2018 at 21:09

    Eis a amarração de uma relação de portão rs
    Ler e rememorar todo esse processo e voltar ao que foi compartilhado no último encontro só reforça, como você bem disse, Marina, outras possibilidades potentes e menos rígidas, que (nos) adoecem. Fico feliz com a descoberta e de ter feito isso junto, misturado e noivos. Obrigado demais! Oxe e bora ser muito feliz, né pouco não!

  2. Priscylla
    7 de setembro de 2018 at 12:07

    Que este Res(piro) siga ventilando cada vez mais namoricos de portão, porque não se deve separar a educação de um corpo livre e muito menos de um corpo apaixonado, né!?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


oito × = 48