Sobre a solidão compartilhada

Por um acaso, navegando na internet, descobri que no dia 17 de janeiro deste ano foi criado, na Inglaterra, o “Minister for Loneliness”— o Ministério da Solidão. (E não é ficção ou fake news!)

Pesquisas apontaram que 14% da população britânica é sozinha e que, durante o ano de 2017, a partir de uma grande amostragem, 200 mil pessoas declararam não ter conversado com ninguém no último mês [da data da pesquisa]. Uma já ministra acumulará o cargo… ela tem 42 anos de idade e sua nomeação foi bastante ironizada nas redes sociais, por ser pessoa engajada nas políticas neoliberais. A acusação contra ela giraria em torno de como o ministério já nasceu sofrendo de “psicologismo” – minimizando o fator social da solidão, em termos de políticas públicas para os mais pobres.

Uma pesquisadora americana, chamada Amelia Worsley, estuda o conceito de solidão. Disse, em entrevista, que a noção de solidão foi de “sentimento” a “estado mental”. Seria uma palavra do século XVII em diante, e, inicialmente, significava estar em algum lugar perigoso, longe de sua aldeia e povo. Hoje a solidão é vista como um sintoma – do estilo de vida, do modo de ser e estar no século XXI.

Não falaria de solidão no Agachamento sem visitar, mais uma vez (e sempre!) o psicanalista inglês Donald Woods Winnicott (Aliás, sempre penso quando vejo, e leio, notícias da Inglaterra: e se Winnicott estivesse vivo??). Em 1958 Winnicott publicou o ensaio The capacity of being alone (A capacidade de estar só). No texto afirma que estar só é um aspecto saudável de nossa vida psíquica, é algo que revela maturidade do self. Ao afirmar isso, Winnicott positiva o fenômeno de separação da mãe: aprendemos a estar só a partir de nos afastarmos da mãe (ou adulto cuidador). Inicialmente, estou só na presença de alguém que me cuida. (É uma imagem bem bonita, à qual podemos associar a cena contemporânea, quero dizer, ao espaço do “entre-lugar” que a performance habita, preenche, esvazia…) (Bonito também porque Winnicott, em inglês, fala algo sobre “ser olhado” – e em português nós usamos mesmo essa expressão para o cuidar de crianças, não?).

No entanto, cotidianamente, na cidade de Belo Horizonte, observo um fenômeno que negativa o estar só… é o uso do celular e do tablet que os pais fazem, especialmente em almoços de domingo (vejo em um restaurante por quilo que frequento): para conseguirem almoçar (sic), deixam o bebê, e/ou a criança pequena, se entreterem com desenhos animados (e mais tarde, crianças um pouco maiores, jogam games)… Agir assim é não compartilhar o momento presente, da refeição no quilo. É como se a criança não devesse estar alí… e, diante do tablet, ela fica invisível para o jovem casal, mesmo quando a cadeirinha está pousada em cima da mesa do restaurante (é frequente, inclusive, esse gestus). Ou seja, não há situação ou contexto para que a criança esteja só-na-presença-de-alguém, nesses almoços de domingo que observo. E é provável que noutros momentos das mesmas famílias isso se repita: a invisibilidade da criança pequena e seu mergulho no que o celular e o tablet lhe oferecem.

Para Winnicott é a convivência, em sua concretude e em doses constantes, que nos leva à “experiência total”, cujo desdobramento é o “sentir-se real”. São noções muito profundas, que nos humanizam e dão sentido a nossa existência.

Quando as crianças não vivem, ao longo da pequena infância, um tipo de presença-na-ausência — estar só na companhia de alguém — que constitui a solidão como um valor e um modo de ser e estar no mundo, o que frequentemente acontece é ficarem tomados por ansiedade, pelo isolamento, e por uma espécie de imobilidade… E ansiedades e o sentimento de um vazio não compartilhado podem nos levar a uma “necessidade de preenchimento” – a qualquer custo! Obviamente são exemplos de “preenchimentos contemporâneos” o uso de celulares e tablets como “companhia”; comidas e bebidas; compras; brincadeiras mais ou menos compulsivas, etc.

Assim, o modo das relações adulto-criança mediadas por cadeirinhas – muito práticas e seguras, é verdade – mas uma tecnologia desenvolvida para não haver contato físico direto – e mediadas por equipamentos eletrônicos – que possuem grande eficácia de “entretenimento”, sim – mas é  tecnologia por meio da qual não há conversa, contação de histórias, cantigas ou trava-línguas, enfim: falta um adulto que fala comigo, em seu tom de voz próprio e humano. Assim a criança pode acabar se acostumando a isolar-se, sem viver situações de solidão compartilhada.

Minha “tese” aqui não demoniza a tecnologia; o argumento maior está nas relações sem mediações de equipamentos.

Relações encarnadas, com calor, bafo, suor, timbre, luz do olho no olho; e a palavra emitida com significatividade, o que equivale a dizer: ter vontade de conversar, de dizer algo a alguém. Meu argumento leva ao brincar relacional: ter companhia, ter com quem rir e chorar, e muito especialmente, habitar o corpo próprio. Textos meus falam bastante sobre isso.

Mas quero voltar ao fato de uma sociedade europeia e contemporânea ter precisado criar um “Ministério da Solidão”. Uma notícia bem triste, não acham? Penso ser algo conectado ao que estudiosos preconizaram, anunciaram desde os estudos sociais da Escola de Frankfurt, a partir da descoberta do inconsciente, desde a (im)possibilidade de diálogo nas guerras mundiais, e a existência do fenômeno do nazismo em pleno século XX… algo complexo e surpreendentemente perverso. Sim, retorno à psicanálise, de novo e de novo, para poder pensar em como lidar, eu mesma, com os jovens alunos da UFMG que estão se formando para serem professores de teatro.

Outro dia me foi perguntado, assim na lata: Faz quanto tempo que você não dá uma aula de teatro para crianças?

Foi um ataque pontiagudo, mas concordo que a pergunta tem sua razão de ser.

bandeira do loboEu falo de uma infância possível, que acontece no quintal (Quem habita o quintal hoje?). Eu advogo um trabalho no qual fazer teatro é sinônimo de “ser feliz” (Quem quer ver de fato as crianças livres, leves e soltas, sem necessariamente ir ao palco dar visibilidade à escola, ao projeto social, à ong?). Eu acredito em um jeito de ser e estar no mundo no qual os adultos se agacham para conversar com crianças (Quem de fato acha que desde bebê a criança compreende a palavra, a fala falante?).

Sim, estou em crise. Como todos, me parece. Mas minha crise implica em repensar modos e meios de trabalhar na direção de uma infância mais significativa, do ponto de vista da criança mesma.

Por vezes desanimo. Mas depois lembro de minha mãe (ausente porque já morreu, presente porque construímos isso, juntas, o sentimento de “sentir-me real”), e reanimo.

Bora ser feliz, gente! Bora perceber, e suportar, que a criança tenha tristezas também. Mas sempre amparada, pelo adulto, de modo presente-e-ausente – o que equivale a dizer: estaremos lá, se chamados; nos ausentaremos, quando percebermos que a criança já é capaz de estar só.

Mas para que tenhamos agudeza da percepção do modo de ser e estar da criança no mundo… será preciso desligar nossos próprios celulares e tablets, conectando na relação com a criança mesma. Ligação direta, sem intermediários. Simples assim.

2 comments for “Sobre a solidão compartilhada

  1. Charles Valadares
    11 de junho de 2018 at 12:46

    Ei, Marina

    Quantos atravessamentos esse texto me traz! Compartilho um deles, o que tem sido mais latente em minha vida, atualmente: o valor positivo da solidão. Como é difícil habitar o próprio corpo, conviver com nossos pensamentos, cuidar para não preencher os vazios a qualquer custo, saber lidar com a falta ecom o silêncio (do outro e o nosso). Um dia desses observei, no escola que faço natação, uma menina de 4 anos brincando na piscina, enquanto seu pai a olhava de longe.Em sua brincadeira solitária a menina me parecia tão feliz. Penso que essa imagem se conecta com seus dizeres e com as noções de Winnicott. Essa imagem me provocou, mexeu com minha solidão. Quis buscar em mim essa alegria para lidar com meus vazios. Manoel de Barros abre seu livro “Menino do Mato”com um dizer do filósofo Soren Kierkegaard que também mexe muito comigo: ” o homem seria metafisicamente grande se a criança fosse seu mestre”.
    E que assim seja!

    • agachamento
      13 de junho de 2018 at 09:23

      Sim, Charles, temos muito a aprender com as crianças, mas somos os adultos “da vez”, precisamos criar modos de recebê-las bem no mundo…
      E nunca esquecer de agir e conviver! Não “apenas” escrevendo postagens e belas mensagens — digo isso é pra mim mesma! rs
      um abraço
      da Marina

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