Base Nacional Curricular Comum: entre o simplismo e a complexidade

Neste começo de maio, tive tempo para prestar atenção e me debruçar sobre o documento BNCC / Base Nacional Curricular Comum, da Educação Infantil e do Ensino Fundamental (a Base para o Ensino Médio entendo que ainda não foi publicada). Obviamente meu debruçamento (ler, pensar, comentar, criticar) é a partir do meu campo de atuação, estudo e conhecimento: as artes. Em especial o ensino do teatro.

O documento da Educação Infantil escolheu o caminho desenvolvimentista tradicional, e isso me parece um grande problema. Observem lá: é como se a criança até um ano e meio ou dois não imaginasse, não criasse, não fosse “performer de si” ainda… Quase tudo ficou inicialmente na base da imitação – e da dependência dos cuidados do adulto.

No campo do conhecimento das Artes, tal como posto no documento, a coisa toda se desenha a partir dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Impressão inicial: o texto circula entre um certo simplismo (de uma “neutralidade suspeita”) e alguma complexidade, o que parece dificultar e muito a percepção do professor jovem (e em formação) para chegar ao famigerado… “como eu faço?”. Digo isso pois acabo de ler, junto com alunos de uma das disciplinas da Licenciatura em teatro da UFMG, o quadro intitulado “Competências específicas de arte para o ensino fundamental” (p.156 do Documento). São nove itens e ali percebemos o desejo de “ir além” da já tão divulgada e trabalhada Abordagem Triangular para o ensino de arte, cujos verbos, grosso modo, se situariam na tríade fazer (arte), apreciar (arte), compreender historicamente (arte). Vemos grande destaque para as tecnologias, bem como a tentativa de inferir ou emplacar a importância das “artes integradas” (termo polêmico pois os mais experientes consideram que há risco da volta a uma prerrogativa generalista, tal como se viu nos cursos de formação em Educação Artística; as Licenciaturas nas áreas específicas de dança, teatro, artes visuais e música foram um avanço histórico durante o século XX).

Não quero, aqui, agir de modo maniqueísta afirmando que o documento não presta porque foi homologado durante o governo Temer – vejo muita gente fazendo isso. Sei que as coisas estavam já em andamento no governo Dilma. Sei também que o governo Dilma encontrava-se em um caminho já adiantado de construir “parecerias público-privadas” no âmbito da educação, inclusive na discussão sobre currículo (para saber mais acesse o excelente artigo intitulado Base Nacional Curricular Comum: Novas formas de sociabilidade produzindo sentidos para educação, da pesquisadora Elizabeth Macedo / Revista E-curriculum, out/dez 2014).

Quero escrever de modo justo, sincero e coerente com meu pensamento sobre o ensino de arte – lugar que habito desde 1982, quando comecei de modo amador e ingênuo a dar aulas de arte na Casa do Ventoforte. Depois disso trabalhei 16 anos na EMIA-SP (Escola Municipal de Iniciação Artística de São Paulo) e venho publicando textos acadêmicos e postagens por aqui sobre o que penso e como penso os temas relevantes do brincar, do criar, do fazer arte, do ensinar teatro, etc.

Feita a introdução acima… vamos “ao que interessa”!

O que é próprio de uma neutralidade suspeita:

Na intenção de deixar as coisas abertas para as “culturas locais”, ou seja, admitindo que o Brasil é grande e múltiplo, a discursividade tendeu a ser técnica e impessoal. E como falar das possíveis experiências com arte de crianças e jovens na chave da impessoalidade? Por isso, tem vezes que o texto parece fazer parte de um “folder de papel couché” de alguma escola, Ong ou clube!…

O que é interessante e remete a um grau de complexidade:

Gosto especialmente de dizeres introdutórios, nos quais a proposta mostra e constrói “dimensões do conhecimento” em arte (a partir da página 152). São as dimensões propostas: criação / crítica / estesia / expressão / fruição / reflexão. Cada dimensão está lá definida… são filosóficas, por vezes profundas… mas, como um jovem educador as lê?

Teria o estudante das Licenciaturas pelo Brasil afora incorporado em si mesmo essas dimensões?

E como que esse discurso sofisticado transforma-se em aulas, eventos, atos performativos, acontecimentos e instalações? (Um detalhe lá que gosto: a expressão “movimento dançado”!)

Agora qual, por exemplo, a possiblidade concreta de crítica da criança recém-saída da Educação Infantil, ou do seio familiar (se não frequentou a escola até a chegada do Ensino Fundamental)?

Tudo isso certamente desembocará na necessidade da [super famigerada] formação continuada. Ainda assim causa estranheza a discursividade por vezes genérica, daí simplista, versus momentos sofisticados, por vezes complexos e recheados de abstrações, de modo que o artista educador precisará (como sempre foi!) “tirar a bunda da cadeira” para corporeificar a atitude de professor pesquisador. Aí, na concretude da vida, no cotidiano escolar, tudo desembocará não ainda na formação continuada, mas antes no contrato trabalhista: na necessidade de horas dos dias para preparar aula e pesquisar; ficar mais culto; adquirir gosto e estesias!

Assim surgiu em mim, lendo o documento, a imagem da torneira espanada… ou do dilema do ovo-e-da-galinha… Quem pelo Brasil afora está escolhendo cursar as Licenciaturas em arte? Como chegam? As escolhas são interessadas ou interesseiras? (Escolha interessada = querer ensinar arte e conviver nesse meio; escolha interesseira = o curso que minha nota no Sisu deu pra pegar).

Na televisão a propaganda sobre a Base Nacional Curricular Comum quer nos convencer que o mote é o direito de todos à mesma formação, do Oiapoque ao Chuí. (Viram a campanha?) E nas imagens todos invariavelmente vão para a escola felizes e contentes, bem uniformizados e com seus materiais reluzentes.

(Passado o auge das ocupações das escolas secundaristas pelo Brasil afora, o que restou da experiência de autonomia, alteridade e protagonismo vivida pelos estudantes mesmos?)

Que distância entre o documento BNCC, a propaganda da TV, o tempo das ocupações e a realidade mesma das escolas brasileiras!

Por isso que o discurso técnico, eficiente, evolutivo, limpinho, super revisado, não parece fazer parte da paisagem performativa dos mundos de vida da criança e do jovem brasileiros.

Em um momento pequenininho se escreveu, na página 157: “Dessa maneira, é importante que nas quatro linguagens da Arte – integradas pelas seis dimensões do conhecimento artístico – as experiências e vivências artísticas estejam centradas nos interesses das crianças e nas culturas infantis”.

Putz!

Como chegar lá?

O que é para um jovem de seus 20 ou 23 anos, estudante de Licenciatura em teatro, dança, música ou artes visuais, fazer foco nas culturas infantis? Onde residem as concretudes? E como faço para captar os mundos de vida sem ser prescritivo ou pre-conceituoso?

Os dilemas vão se adensando.

Mostro mais um — a definição de o que é teatro (na página 154):

“O Teatro instaura a experiência artística multissensorial de encontro com o outro em performance. Nessa experiência, o corpo é o lócus de criação ficcional de tempos, espaços e sujeitos distintos de si próprios, por meio do verbal, não verbal e da ação física. Os processos de criação teatral passam por situações de criação coletiva e colaborativa, por intermédio de jogos, improvisações, atuações e encenações, caracterizados pela interação entre atuantes e espectadores”.

Putz putz putz!

Como e por que escolher o uso da tão diversa e polêmica palavra anglo saxônica “performance” no parágrafo que irá definir o teatro?

E foi foi foi… e acabou na situação palco-plateia, atuantes-e-espectadores…!

Estaria mesmo nesse modo de dizer o caminho da diversidade, do fim da pecinha bem feita como ícone da aula de teatro, do fim da habilidade corporal e vocal nas primeiras filas (e os “outros” no fundão!?), do fim da máscara de coelho feita de cartolina, do fim do lobo mau agora bonzinho nas versões politicamente corretas das fábulas e das canções tolamente amenizadas?

A tarefa de criar um documento nacional, então, se mostrou inglória.

Quanto mais consultores, revisores e especialistas mexem no tacho, mais abstrações e discursos do não-dito! A saber: qual noção de educação se está veiculando? E de infância e juventude? E o que é a especificidade do ato de ensinar arte para crianças e jovens brasileiros?

Não sei se todos sabem que o empresário e bispo Edir Macedo está levando, nesse exato momento, primeiro semestre do ano de 2018, o longa-metragem sobre sua vida para as pessoas em privação de liberdade (em presídios) de todo o Brasil. Passa o filme e serve pipoca. Também em tribos indígenas no Amazonas, em comunidades ribeirinhas, em estádios de futebol; é o projeto “Cinema Solidário” (sic). Também estão dando ingressos de graça na frente de shopping em Belo Horizonte… Um mega-projeto de formação de espectadores em massa, gratuito e com viés evangélico — em parceria público-privada.

É isso que está acontecendo enquanto se discute, em gabinete, qual a melhor formação para crianças e jovens naquele mesmo país.

1 - #macaco1

 

 

 

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