Dez horas da noite do dia 15 de abril de 2018

Guerra e infância não combinam

Recebi neste domingo de manhã (15 de abril de 2018) uma convocação pelo whatsapp. Vai acontecer um “cobertor de orações” para as pessoas da Síria… Uma mensagem religiosa, bonita e poética, algo que na minha língua pode se chamar

um ato performativo.

Como meu deus é fraco, na hora da convocação (22:00 hs hoje no Brasil) vou postar este texto no site-blog Agachamento.

Sou de uma geração cuja infância aconteceu durante o início do golpe militar de 1964 no Brasil. Então, mais tarde, adulta jovem, percebi que ditadura e igreja combinam… talvez daí meu deus ser fraco.

Depois aconteceu a possibilidade da Teologia da Libertação, e me tornei leitora também de Paulo Freire, mas, meu deus do céu, o que faremos agora?

Minha arma é flower-power; o que percebo poder fazer, no momento, é uma espécie de oração: escrever a favor da infância, no lugar que venho construindo como possível ação política e artivista (este site-blog).

Também sou de uma infância que escutou o grupo “Secos & Molhados”, e em um L.P. super alegre no todo há lá o poema de Vinícus de Moraes musicado — e apenas Ney Matogrosso canta, em uma parte do disco, com muita muita tristeza:

Pensem nas crianças / mudas telepáticas / Mas oh não se esqueçam da rosa, da rosa / da Rosa de Hiroshima / a anti-rosa atômica…

Sou de uma geração que estudou, em um curso de Psicologia um pouco mais à esquerda na época, que a Psicanálise e a arte moderna e contemporânea trazem coisas em comum… seja a noção de inconsciente, seja a possibilidade de pensar sem agir reativamente (acting out): por meio da conversa e da criação, se pensaria a maldade, a perversidade, e se poderia construir/propor um mundo melhor, depois das duas guerras mundiais. Assim falou Freud e muitos dos psicanalistas posteriores a ele; assim agiram uma porção de artistas “burgueses”.

Pois é assim que o deus se mostra fraco.

Já fizeram muitos longa-metragens sobre as novas guerras, pós-segunda guerra mundial. Bósnia é um grande terrível exemplo; fizeram um filme que misturava ficção e dados documentais sobre os filhos nascidos das mulheres estupradas. E foram muitas mulheres que tiveram muitos filhos nessa condição.

É próprio dos humanos que as crianças sejam filhotes dependentes, por um período muito longo. É próprio dos humanos terem no mínimo duas faces, frente a suas crianças…

Talvez esse o mais forte ensinamento da Psicanálise: as tais pulsões. Somos deus e o diabo. Somos as forças do bem e do mal, e do mau. (Dois a um?)

Sim, o deus enfraquece a cada maldade que se vê e sente…

É algo que penso quando vejo pela televisão as imagens da guerra mais divulgada agora: a guerra na Síria. É provavelmente um pensamento um pouco infantil, porque a guerra fragiliza também minha própria ação profissional: ensinar teatro, ensinar jovens a serem professores de teatro. Fragiliza porque o que as crianças sírias durante a guerra precisam é abrigo, comida e adultos saudáveis – fazer teatro fica tão “supérfluo”!

Eu também tenho um pensamento romântico, quando vejo guerras na televisão, que é “entrar para o Médicos sem Fronteiras” (sou psicóloga). Um dia fui de fato na página deles na internet, ver como é. Não é nada romântico, e seria impossível eu fazer teatro de sombras ou teatro de bonecos: a necessidade é extremamente técnica, de fato comportamental – sobre-viver! Não tenho as competências necessárias, foi o que concluí rapidamente (nem idade, nem inglês fluente, não a ponto de poder fazer sobreviver).

Escrevo então.

O pensamento permanece: o que eu posso fazer sobre isso?

A criança em mim pergunta:

— O que eu faço com isso?

A adulta replica:

— Como tornar meu cotidiano e especialmente minha profissão um ato político? (Eu teria que brincar menos?)

Sou um adulto que brinca. Brinco também porque considero que meus alunos na graduação de teatro hoje brincaram muito pouco. Ser brincante seria “bom modelo”… Percebo a imaginação em baixa.

No jogo do “”Dois a Um para o mau”, imaginar foi associado a diabruras, por muitas e muitas famílias… Como desfazer essa maldição?

Agora me sinto um pouco melhor (ou me iludi?) ao ver que, ao brincar aos 56 anos de idade, estou dizendo algo político sim:

humor/amor.

Ter bom humor com as crianças que nascem. Acolhimento. Pertença. Fluxo de continuidade: ser um adulto que percebe a dependência absoluta da criança pequena… Ser um adulto que suporta o desejo de independência da criança maior.

Muitas dessas “palavras de ordem” aprendi lendo os escritos do psicanalista Winnicott. Ele trabalhou na evacuação das crianças em Londres: as crianças, na segunda guerra mundial, eram levadas para longe dos pais e da sua cidade de origem: as crianças foram protegidas. Era uma política pública, e Winnicott estava ali, fazendo o holding (um conceito dele, traduzido por segurar). Segurando a onda.

Um pensamento mais adulto que me vem: inaugurar um projeto de extensão com refugiados. Depois, ou logo em seguida, penso na burocracia que precisaria enfrentar, o desânimo começa com a visão de um terminal de computador e o preenchimento de formulários; penso na responsabilidade, e também na existência de “haters”. Sim, os “haters”: aqueles que odeiam e combatem algo.

É o mundo que está absolutamente infantilizado e maniqueizado, cindido em duas posições (mesquinhas).

Gostaria de fazer algo pelas crianças venezuelanas em Roraima. É um outro pensamento ou plano que acontece pelo apelo midiático: reportagens para “dar ibope” – nunca vi em canal nenhum uma cobertura completa mesmo, que nos dissesse como estão as pessoas?, quem são as pessoas?, e como percebem os brasileiros dalí a tragédia dos refugiados. Fecham a praça com tapumes (viram isso?) e a praça ganha um muro ou fronteira, e ali fica a Venezuela miniaturizada (mas não vemos por dentro, de fato).

Varíola.

Sou de uma geração que tomou vacina contra varíola e ganhou uma grande ferida no lugar da vacina, e depois uma cicatriz. Sou de uma geração que ouviu, em seguida, no banco escolar: “a varíola foi erradicada”. Isso podia até ser tema de redação de vestibular para nós.

Relendo o que escrevi até agora, positivo o fato de meu deus ser fraco, porque se fosse forte, eu acreditaria no Apocalipse. (Na minha descrença eu penso – crentes devem ser assim: se o mundo vai mesmo acabar, o que eu poderia fazer? Sento na poltrona e assisto a novela da TV Record de mesmo nome).

Aliás o Apocalipse Now é outro filme que valeria muito a pena rever e re-pensar sobre ele, a partir dele. Um Marlon Brando nada bonitão nem glamouroso (obeso), e o cinema gastando o dinheiro da indústria cultural para, de novo e sempre, tentar retratar algo como só o cinema faz,  e de novo se tenta compreender o que é o humano. É um filme paradoxalmente interessante, trash e contundente.

Vou acabar por aqui.

Pensem nas meninas cegas inexatas.

Minha prece, minha contribuição ao “cobertor de orações” está, mora e habita o lugar da arte. Um espaço, um território, que se inicia no recém-nascido. Não é querer a habilidade ou competência para aprender cantar afinado, mas sim a possibilidade de gritar!, como sinônimo de estar vivo, de sentir prazer e de sentir dor.

Gritar para ser ouvido.

Ouçam os recém-nascidos, adultos!,

mas oh não se esqueçam da Rosa da Rosa…

… da Maria, do Antonio, do Heitor e do Ênio, todas as crianças do mundo.

Elas merecem um mundo melhor.

Amém

(dedico esta postagem ao recém-nascido brasileiro Enzo de Jesus Pessoa)

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