Viva o desmame!

Sobre a amamentação tardia (nas culturas urbanas)

Tenho percebido, na nova geração de mães, uma das tendências ser a amamentação “até sempre”… ou seja, até o menino ou a menina “quiserem”…

Todos sabem que meus pés que se agacham caminham e dançam e pulam entre a Fenomenologia e a Psicanálise. Para pensar a amamentação prolongada, não dou conta de um pé só — escrever com o pé apenas na Fenomenologia: porque a descrição do que vejo não dá conta, preciso de alguma teoria, para amaciar a discursividade das mães… sim, a teoria pode amaciar!

Nem sempre falar de Psicanálise e das descobertas freudianas (em diante) é endurecimento, sabiam?

Pois o que é importante saber, pensar, e refletir é sobre a “oralidade”. Ou o que se denomina “a fase oral” dos bebês… a ela se seguirão outras, e, para que a inserção no mundo cultural seja suficientemente forte e atraente, os adultos precisam fazer algo em nome de “outra coisa” que não seja o prazer oral.

Prazer oral máster: mamar-na-mamãe!

Prazeres orais maravilhosos também: saber falar! Comer! Chupar sorvete! Morder com força o amigo da creche… (depois levo bronca, e percebo que ser canibal não é comum nas culturas urbanas contemporâneas – mas eu mordi por amor!)

Para as mães que estão amando amamentar tardiamente, falta um pouco de “outros interesses” para elas e nelas também: o prazer mais proibitivo, que é separar-se do filho. Ter seu corpo de volta. Viver sua sexualidade adulta, de todas as maneiras possíveis que sua cultura e modo de ser e estar abarcam. Saber falar! Comer com amigas, amigos, maridos, maridas! Tomar um sorvete tesudo. Morder seu amante.

Pois então, é nessa chave que a Psicanálise é uma flower power (um poder de flor). O que parece ser uma escuta do filho (estar ali para ele, sempre, e deixa-lo mamar no peito) esconde uma escuta da mãe apenas: amo tanto meu filhinho!, que queria para provar isso dar uma parte do meu corpo para ele, a melhor delas, meus seios.

Dos seios jorram um líquido sagrado.

Sim, é fato, mas a sacralidade da dupla mãe-bebê precisa ser dessacralizada, profanada, até mesmo corrompida, para que o bebê se realize como criança humana. Para que fale com os outros, para que coma a comida do mundo, para que descubra a riqueza dos sorvetes, picolés, casquinhas, eskibons, chupe-chupes… Ui! Por que não me disseram isso antes?, vai pensar e sentir o bebê tardio…

Sim, a amamentação prolongada faz da criança humana um bebê tardio.

E os bebês são dependentes e exigentes: sugam, incorporam, mordem e dominam o líquido sagrado e sua fonte.

Assim chego ao cerne de fato desta postagem: as relações de poder. (Algo mais além da Fenomenologia e da Psicanálise! Leiam Foucault)

Trata-se de uma relação de poder inicial, entre mãe e bebê.

Como e por que a mãe não quereria inserir seu filho na cultura compartilhada, onde não há dois seios fartos e amorosos para ele acessar quando encontrar impasses, tristezas e frustrações?

arco e flexaPenso ser este o verdadeiro dilema. O prazer de doar o líquido sagrado deve cessar. Um dever da mãe adulta e urbana (não estou tematizando a cultura indígena ou ancestral!). Aliás nas culturas ancestrais aos cinco anos o menino pesca pequenos peixes com sua pequena lança, a menina faz pequenos potes de cerâmica e cestos!

“Entregar” seu filho pequeno para a cuidadora, para a professora da creche, para o pai, para o tio ou padrinho…! Para as avós! “Entregar” precisaria ser um verbo irmão do “Amamentar”! Seria uma ação correlata.

O apaixonamento pela criança que geramos é complicado. Por vezes dificulta um novo apaixonamento pelo companheiro ou companheira, e mais, por “nós mesmas”(olhar-se no espelho e contentar-se com a retomada do corpo de mulher, versus o corpo de mãe que amamenta).

E agora José?

E agora Maria?

E agora Jesus?

(Qual o nome do seu bebê?)

Pois então o des-mame (tchau mammie!) é um exercício de des-poder da mãe que amou amamentar seu filhinho. Que ele se torne José, Maria e Jesus de si mesmo (rs, me desculpem os católicos pelas imagens, mas há que profanar o leite sagrado). É essa a nova habilidade que a mãe que amou amamentar precisa desenvolver – ela mesma crescer, e dar um passo muito importante, que é perceber que seu filho não é “seu” filho…

Como fazê-lo?

O negócio é reinventar a rotina, a tal ponto que aqueles “outros prazeres” nos façam esquecer de como era bom sugar, incorporar, morder e dominar (parte da) mamãe… E não será pelo domínio do outro ou do mundo: será pelo domínio de si. Pelo cuidar de si.

Pelo desenho, pela construção com massinha, argila, madeira! Pela capacidade de fazer-e-comer brigadeiros. Pela possiblidade de ver um filme no cinema (que delícia!).

Com tudo isso quis dizer: a fórmula para des-mamar é o encantamento pelo mundo, tal qual ele se apresenta. No entanto, quando quem me apresenta ao mundo é basicamente minha mãe… ela tem a força! Por isso as crianças precisam de um leque de possibilidades de outros cuidadores, e por isso a creche é tão importante – não apenas para a mãe trabalhadora, mas para todas as crianças: do ponto de vista delas é libertador ter vida social fora do pequeno núcleo inicial. Assim, a mãe que estava cem por cento disponível poderá ser sim mãe trabalhadora: criadora de cultura adulta, ganhadora de seu dinheiro, e quiçá um modelo de saúde frente aos filhos, nas culturas urbanas.

Que venha o desmame!

 

4 comments for “Viva o desmame!

  1. 19 de abril de 2018 at 08:13

    Prezada Marina,

    Parabéns pelo belo e fundamentado texto. Posso publica-lo no nosso portal http://www.aleitamento.com ?

    Gostei muito do texto e apesar de apoiar a amamentação até 2 anos ou mais, reconheço que o DESMAME TOTAL é um momento de desenvolvimento imprescindível para a criança, para a mulher e seu companheiro(a). Tento pensar sobre isso em http://www.aleitamento.com/amamentacao/conteudo.asp?cod=817

    • agachamento
      19 de abril de 2018 at 11:51

      Olá Marcus
      Fico feliz com esse “espelhamento” — portanto, sim!, tem autorização minha para publicar o texto no portal
      Continuemos em contato!!
      um abraço
      Marina

  2. Taís
    10 de maio de 2018 at 09:20

    eu como mãe-in-process adorei ler!

    • agachamento
      10 de maio de 2018 at 10:53

      Que bom Taís! Fico contente com seu “agacho” por aqui! bjs e saudade
      da Marina

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


3 + oito =