Charles se agacha

Seguindo com a ideia de fazer publicações de postagens escritas por outras pessoas… vejam aqui como o ator e pesquisador Charles Valadares viveu a experiência do teatro de apartamento “Evandro e Dimas / Os nomes escolhidos”. Charles era Dimas. Charles é agora um filho meu…

Para entrar com o “pé esquerdo” no quintal

Fui convidado pela Marina para escrever um texto para o Agachamento.  Muito antes desse convite veio outro: mergulhar em um processo criativo-afetivo a partir da experiência de perda gestacional dos seus filhos gêmeos, ocorrida há 33 anos. Assim, ao longo de 9 meses do ano de 2017, de janeiro a setembro, “gestamos” (Marina, Raysner e eu) nosso Teatro de Apartamento. De outubro a dezembro compartilhamos, com pessoas queridas, os frutos do processo. E, após um ano frequentando o seu apartamento (espaço que abrigou conversas, reuniões, improvisações e público), sou convidado a entrar e brincar de escrever em seu “quintal”.

Para mim, menino-homem crescido na pequena Raposos, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte, que tem ares de interior, o quintal é uma das melhores e mais importantes partes de uma casa. 

Para Manoel de Barros, poeta pelo qual nutro um grande afeto, quintal é lugar “maior do que o mundo”. Sendo assim, para entrar com o “pé esquerdo” no quintal do Agachamento e iniciar uma prosa-brincadeira (que talvez dure mais que uma postagem) vou falar um pouco de mim.

Para começo de conversa: me chamo Charles Valadares. Minha cidade de origem já contei. Foi lá que vivi até os 18 anos, quando mudei para Belo Horizonte para cursar a graduação em Teatro na UFMG (onde, mais tarde, fiz a opção pela habilitação em Licenciatura). A escolha pela graduação foi resultado de uma experiência de curso livre de teatro feito em Belo Horizonte, somada ao desejo de ser ator, nutrido na minha infância, alimentado por certo fascínio pela produção televisiva, primeira referência da arte de representar que me chegava, já que em Raposos não existia a oferta de experiências ligadas ao teatro (cursos livres, apresentações de espetáculos, nada).

Ao longo da graduação, convivendo no mundo e com o “mundo dentro do mundo” que é o espaço da Universidade, veio o amadurecimento acerca da profissão. Mudei meu modo de pensar, de ver a vida. Aquilo, que na meninice era um fascínio, desejo em ser “ator de TV”, na mocidade começou a não fazer mais sentido. No processo de crescer os sonhos também amadurecem, e, assim, o teatro ganhou outros contornos e novos sentidos em minha vida.

Os sonhos-crescidos também costumam vir acompanhados de pessoas, e assim os meus trouxeram Raysner, Helaine, Vânia e Fabrício, com quem formei o “Mamãe tá na plateia grupo de teatro”, lugar onde comecei a rabiscar meus desejos artísticos. Foi “teatrando” de forma independente, com eles, que pude compreender aos poucos o teatro como espaço potente de elaboração inventiva da vida, lugar de criação coletiva, de compartilhamento ideias, práticas, gostos, afetos e anseios. Nossa união brotou da afinidade.

Paralelo a esse encontro conheci a Marina: primeiro como autora de referência para pensar as relações entre o teatro e infância, a partir de um projeto de extensão que participei (2011-2012), coordenado pelo professor Ricardo Carvalho de Figueiredo; depois, como professora da graduação em Teatro na UFMG (2013-2014) e orientadora do meu Trabalho de Conclusão de Curso; em seguida como orientadora de mestrado (2017-2018) – e, a partir da experiência criativa-afetiva de “Evandro e Dimas: os nomes escolhidos”, o convívio ganhou fronteiras mais pessoais e artísticas.

Essa união também brotou da afinidade, do meu desejo, somado ao do Raysner, de empreender uma criação artística junto à Marina, e também da brincadeira iniciada por ela ao nos apelidar de “gêmeos”.

Assim, durante o ano de 2017, vivenciei outro modo de pensar e fazer teatro, diferente das noções experimentadas até então. O projeto artístico imaginado pela Marina era uma via que eu ainda não havia percorrido: teatro sem marcações fechadas, nem direção ou ensaios longos e exaustivos; sem compromisso com “acertar” ou cumprir as “expectativas da direção” (apesar da carga pessoal e biográfica dela, havia uma busca pela horizontalidade no processo). 

Diria que foi um “teatro sem expectativas de dar certo”, mais próximo do coração. Trilhamos um caminho existencial, pessoal e conectado com a vida (nossa e da Marina). Ah, ela diria: conectado com a vida e com a morte.

Sobre isso escrevi em meu diário de bordo da apresentação feita no dia 11 de dezembro de 2017: “um teatro que não termina quando acaba. Resvala para além do espaço de cena e tromba na vida. Nosso “teatro de apartamento” não tem só 20 minutos. Vai para além da estrutura que decidimos compartilhar. Dura até sairmos pela porta do apartamento. Aliás, vai além. Aqui não tem patrocínio, não temos obrigações, só desejo. Para mim esse é o dom do trabalho”.

Um teatro movido pelo desejo me enche o peito de alegria.

Em conversas constantes com Raysner falávamos sobre a leveza, o prazer desse encontro, a importância de ser assim, principalmente no sombrio ano de 2017, que politicamente mexeu muito com nossas vidas, mentes e corações.

Só assimilei ao longo do compartilhamento com o público, o convite, feito pela Marina, de “atuar sem atuar”, uma busca não por representar os gêmeos, mas sim se-los de modo encarnado, simbólico e afetivo. 

 Hoje, refletindo sobre o processo vivido, Identifico duas noções-chave do nosso experimento: convívio e corporalidade.

Gosto do pensamento de Jorge Dubatti, estudioso da filosofia do teatro, acerca da noção de convívio: encontro entre pessoas, de corpos presentes, delimitado num tempo-espaço em comum, podendo acontecer nos mais distintos lugares (sala, rua, casa, bar, etc).  Elaborar artisticamente a experiência de júbilo e dor vividas pela Marina, a partir da espacialidade de sua casa, lugar que abriga intimidade, objetos de valor afetivo, conectados a sua biografia, foi valioso.

 A experiência convivial não pode ser capturada, sua existência está conectada ao momento em que ocorre, é efêmera e singular.  E foi assim que a vivemos. Optamos por não realizar registros fotográficos ou fílmicos, apenas escrever em nossos diários de bordo. A cada apresentação realizada (foram 10) vivemos distintos encontros, enriquecidos pela percepção, sensibilidade e biografia de cada convidado, revelando a potência do teatro enquanto acontecimento.

Dubatti pensa o teatro como acontecimento em uma noção que compreende a experiência teatral para além artifícios técnicos bem executados, ou meio de comunicar algo a alguém.  Amplia nossa compreensão do teatro para o âmbito existencial, lugar de afetar e ser afetado, espaço de provocar os sentidos, pensamentos, memórias e a subjetividade – do ator/pesquisador e dos outros, espectadores/testemunhas.  

Outra dimensão do convívio que atravessou a criação, mais pessoal do que teatral, diz respeito aos laços afetivos que estreitamos ao longo de 2017, a princípio, a partir dos nossos encontros quinzenais (que em meados do segundo semestre viraram semanais), no qual íamos, Raysner e eu, nos aproximando aos poucos dos detalhes da experiência vivida pela Marina, por meio de sua narrativa e exposição de documentos (diário com cartas para seu filho Jonas, os atestados de óbitos, receitas médicas, fotografias, etc). Alguns encontros acabavam em pizza e cerveja! Ou melhor, numa deliciosa pizzaria próxima ao apartamento.  Lá compartilhávamos, além dó desejo de estar juntos criativamente, pensamentos, sentimentos e visões de mundo.

O que vivemos em nossa corporalidade e presença conversa com princípios que Marina discute em seu livro Merleau-Ponty e a Educação (2010) ao falar do espaço corpo próprio – noção da filosofia fenomenológica de Merleau-Ponty . Para exemplificar, escolho um aspecto do nosso experimento: a busca não por mimetizar ou representar algo que não somos (fetos em período gestacional ou crianças). 

Durante o processo de criação trabalhamos a partir de estímulos imagéticos (corpo meleca, corpo sem ossos, ambiente aquoso, por exemplo); verbos para ações (brincar, contorcer, aglutinar, expandir, diluir e formar) e sonoridades (batidas de coração, sons uterinos e silêncio). Ao experienciarmos tais elementos colocávamos nossos corpos de adulto em situação para viver (não representar!) climas e atmosferas e sermos afetados pelos estímulos, entremeados por nossa capacidade inventiva, imaginativa e memória. Compreendi nosso corpo como espaço de fala, rico em carga existencial e autobiográfica: narrador de si.

Tais compreensões só processei posteriormente ao vivido.  

 E assim, sigo, em 2018 e ainda elaborando o que vivi, refletindo sobre como continuar: como alinhar aquilo que eu era antes com aquilo que sou agora? Como afinar (ou seria desafinar?) as noções de teatro vividas?

Penso que não vou jogar fora tudo o que vivi antes do Teatro de Apartamento, pois somos o que está inscrito em nosso corpo, memórias, em nossos modos de ser e estar no mundo. Desejo na verdade assimilar caminhos, novas possibilidades e desvios, para criar de forma autoral trajetos… rumo ao risco da (re) invenção.

Como continuar pesquisando “aquilo que ainda não sei?” Assim, curioso e instigado, sigo brincando!

Vamos também?

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2 comments for “Charles se agacha

  1. Vânia Silvério
    24 de março de 2018 at 18:18

    Vamos sim, Charles. Que não nos falte curiosidade e estímulo para continuar. Sigamos!

    • CHARLES Valadares
      12 de abril de 2018 at 23:18

      Sim, Vânia! Instigados e brincantes como uma criança!

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