Para ler na volta às aulas

Compartilho aqui com os leitores do Agachamento um texto meu que achei em arquivos do laptop antigo, para a seleção de emprego em uma importante editora em São Paulo, escrito em 2010.

Vejam se não é próprio para a volta às aulas no Brasil de 2018:

Tristeza não tem fim, felicidade sim

Uma escola que apresente às crianças alegria e exercícios férteis para seu crescimento e desenvolvimento não significa uma escola literalmente colorida e preenchida por figuras e personagens em suas paredes… Uma escola que apresenta alegria e fertilidade é a escola que admite, congrega, elabora a dor e a angústia de crescer; tristeza de separar-se dos pais, temor de enfrentar desafios e embates… entre ser grande e ser pequeno. Essa escola conversaria com a tristeza e a melancolia advinda dos climas e atmosferas vividas por seus alunos, dentro e fora de casa. Como estar feliz e repleto de energia vital se meu avô está no Chile, onde aconteceu um terrível terremoto? Como ser destemido diante de todo o alarde mediante a gripe H1-N1? Como ser criativo em uma cidade como São Paulo, no início do período escolar, se as ruas alagam e meus pais temem, a cada dia, que a perua escolar não consiga chegar em casa?

A escola que acolhe os temores das crianças é uma escola que faz pensar; é uma instituição que lê os jornais para as crianças, com as crianças, e, mais tarde, as torna capaz de escrever seu próprio jornal-mural. A escola que conversa com a melancolia e a tristeza de quem perdeu o avô, de quem tem medo de enchente, de quem fica com insônia por medo da “gripe suína”, é a mesma escola que mediatiza essas experiências de tal maneira que todos crescem e se transformam, por meio da capacidade de pensar e de agir, em direção à aquisição de um tipo de saúde. Saúde mental, física, psíquica, social, cultural; saúde que compreende a doença como um dos momentos da vida, e que surge dos campos educacionais de intersecção: entre a criança e ela mesma, entre as diversas crianças, entre a criança e a comunidade adulta, entre a criança e o mundo.

A escola que lida com “retratos em branco em preto” ouve Elis Regina junto com seus alunos e trabalha cada momento histórico na chave compreensiva. A escola que força a alegria colorida do animador cultural é um equívoco – gera crianças ansiosas e artificialmente contentes. A escola que lida com “retratos em branco e preto” mostra a seus alunos que existem diferentes possibilidades: inúmeros jeitos de fotografar. A escola que conversa com o difícil momento que vivemos, integra melancolia e tristeza como uma das formas de uma criança se expressar. Permitindo esta integração, admite as dificuldades, veicula novas referências, deixa a criança “ser o que ela é”, ensina tolerância e superação. 

A escola que ouve as canções de Vinícius também sabe que “fazer samba não é contar piada”, e que “sem tristeza não se faz um samba não”. E se essa escola também trabalhar com seus alunos a cultura do jazz e do rock’n roll, fazendo noutro momento música de câmera e depois ouvindo sinfonias, sem nunca esquecer do enorme valor do silêncio, será uma escola propositiva que ouve, faz e cria com seus alunos todos os tipos de música, em busca da experiência multicultural, que enriquecerá a vida e o imaginário das crianças, tornando-as cidadãs capazes de pensar, expressar, sentir e transformar as condições de vida de sua pessoa, família, cidade e país. Penso ser essa a comunhão a qual Paulo Freire se referia quando escreveu que “aprendemos em comunhão, mediatizados pelo mundo”; disse Vinícius de Moraes: “fazer samba é uma forma de oração”.

(Passei na seleção mas não aceitei o trabalho, pois percebi como teríamos de nos moldar, cruelmente, ao mercado editorial da publicação de livros didáticos)

 

 

4 comments for “Para ler na volta às aulas

  1. Maria
    21 de fevereiro de 2018 at 19:35

    Ótimo para começar o ano! Fiquei pensando nas tristezas que nós, educadores, carregamos também, às vezes escondemos tanto que as crianças nem imaginam que a gente também se sente incapaz, sente raiva, sente dor… Que nesse ano esteja esse acolhimento mútuo e musical!

    • agachamento
      21 de fevereiro de 2018 at 22:36

      Mesmo escondendo… as crianças costumam saber
      E se pudermos conversar com elas, vamos nos surpreender com a capacidade delas de escuta
      um abraço
      Marina

  2. Mayron Engel
    24 de fevereiro de 2018 at 20:35

    Marina eu aproveito o ensejo e indico a Revista Cult desse mês de fevereiro é sobre o Benedito Nunes.
    Como sei que gosta, pois li um texto seu que se apoia nos estudos dele.
    Um abraço!

    • agachamento
      24 de fevereiro de 2018 at 21:14

      Olá Mayron! “Feliz ano novo”! Rs
      Sim, gosto demais dele, vou comprar um exemplar — obrigada
      Marina

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