Ser canhoto e começar pelo meio

O artivismo é uma construção coletiva

carnaval zenChegou o ano novo!

E estou de férias.

Ao olhar para a agenda nova (sim, ainda tenho agenda de papel!), e para o calendário do ano da universidade, me pego imaginando projetos para ter… uma “vida fora da universidade”. Desde que cheguei na UFMG, é bem evidente um tipo de dinâmica dos que mais ou menos “se casam” com a Universidade… ah, uma esposa bem complicada! Rs, esposa-entidade que traz com ela – e nela – co-dependência e, por vezes, cargas pesadas de tristeza e tensão (nunca esqueçam o suicídio do reitor em Santa Catarina, e outros tantos exemplos terríveis de adoecimento). Por essa e por outras não aceitei o pedido de casamento, algumas poucas vezes formulado a mim, por meio de convites e abordagens… implicando mais e mais horas de trabalho.

Não é preguiça – é busca por saúde psíquica.

“Vida fora da universidade” significa também, assim como é para mim a docência, engajamento e artisticidade. Foi assim que nesses primeiros dias do ano criei uma sigla:

MRACO

MOVIMENTO RUMO AO AGACHAMENTO COLETIVO

(Passo zero: convidei quatro pessoas para dançar)

Tenho tentado estudar a noção de “coletivo”— e rapidamente percebo minhas próprias contradições… Os coletivos são típicos de movimentos das periferias… sou funcionária federal e vivo em Belo Horizonte num bairro no centro, concentração de classe média alta; branca; 56 anos; doutora em Psicologia da Educação com pós-doutorado em Pedagogia Teatral.

Ah, mas sempre que me apresentam com pompa, vou tirando acessórios (brincos, um colar, os sapatos…) de modo a me despojar e “ir ao chão, onde a criança está”. Tirar acessórios e buscar essencialidades.

O encontro com a criança no chão, na contemporaneidade, pode ser considerado mais uma das minhas contradições: pois quem disse que ela está lá?

Em meus estudos sobre a infância, e sobre as relações entre infância e cena contemporânea, penso que ela deveria sim estar lá… e aí surge mais uma contradição: como e por que sou eu que digo onde ela deve estar?

É bem interessante trabalhar o pensamento, e o sentimento, por meio da percepção das nossas contradições. É um modo de fazer – uma metodologia. Fica mais rico, mais transparente, mais desafiador. Mas também é algo muitas vezes difícil, e tende a ser frustrante – então, precisamos paciência e compreensão, acerca de nós mesmos,  dos mundos de vida que nos cercam, e busca pela abertura ao Outro. Sempre.

Na gestão da criação do trabalho teatral que fiz com Charles e Raysner no ano passado procurei horizontalidade. Muitas vezes percebia neles uma certa dúvida, e até mesmo angústia: “que raios ela quer?”, algo próximo a esse dizer se mostrava em suas corporalidades… Trabalhamos por um ano: de janeiro a dezembro de 2017; atingimos algo. É esse “algo” que quero cultivar, fazer crescer, para que permaneça em nós como raiz de árvore… agora sintonizando, a partir de 2018, em alguns dos direitos da criança.

Direito a ser o que se é; direito ao brincar (especialmente sem brinquedos); direito aos cuidados e à escuta pela comunidade adulta. E proporei a eles que nossa sintonia seja humorada e teatral: direito a um teatro inteligente, talvez um teatro para todas as idades, como aprendi nos anos 1980 com Ilo Krugli, e direito a aulas de teatro inteligentes, que não possuam o objetivo majoritário de “dar visibilidade” à escola ou à instituição a qual está veiculado, bem como proporei não fazer coro com a espetacularização da “criança no palco”. Protagonismo não é bem isso, nos termos da sociologia(s) da infância(s).

E, na minha cartilha, fazer teatro na infância precisa ter como objetivo principal: ser feliz.

A pesquisa para a qual convidei quatro jovens para estar junto em 2018 será, inicialmente, de modos de dizer coisas para os adultos sobre práticas “naturalizadas” por eles – “é assim”; “eles gostam”; “socializa”; “aprende a ter disciplina”, são dizeres dos mais comuns para falar sobre teatro feito por crianças para plateias de adultos… e faz muito, muito tempo que “é assim”! “Eles gostam”! Não viu como “socializa”? “Aprendem a disciplina” (do ensaio, da personagem, do canto afinado, etc)…

Como e por que eu seria “contra” essas quatro expressões-chave do teatro e educação?

Não é que eu seja “contra”. O que é ruim é o “senso comum” dos dizeres… Para quem é leitor de Foucault, o ruim está na discursividade do “eu sei o que é bom pra você”. Modo de ser, e de dizer, clássico dos adultos frente às crianças. Equivale a mandar a criança “ir brincar”… querer que a criança “seja livre e criativa”… coisas que não vão acontecer por mandos ou por simples quereres dos adultos!

Na arte que acredito e pratico, o caminho da criação e da liberdade (sempre situada, dizem os fenomenólogos, e eu gosto da expressão – liberdade situada) é relacional. Não é técnico, nem ensaiado. É convívio. É feito de um tempo dilatado, e acontece em espaços encontrados.

O tempo da apresentação final e o espaço estabelecido por palco-e-plateia são “marcações”. Posso arriscar um jogo de palavras e dizer: o professor de teatro que se ancora nos ensaios e nas apresentações bem feitas está “marcando bobeira”!

Pois!

Está fazendo marcações bobas enquanto as crianças mesmas teriam um potencial impressionante para o improviso, para a experimentação, para brincar com pequenos roteiros que lembrem o faz de conta, para concretizar ações que corporeifiquem a dor e a delícia de ser criança e não ter compromissos tal como o  adulto…

Mas atenção: o potencial para o improviso na infância não é “natural”, “espontâneo” ou “chega chegando”.

É preciso ambiência. Proporcionar um espaço de tal modo que a criança, inicialmente, acredite que aquilo estava ali para que ela encontrasse – assim é a teoria da criatividade do psicanalista Winnicott. Daí ele usar a expressão “espaço de ilusão”. Não a ilusão da crença em papai noel!! Mas a ilusão filosófica: de criar e recriar o mundo e a si mesmo. Só acontecerá se o adulto tiver a crença também: de que, em relação, algo novo acontecerá, e que o novo e a atmosfera criativa serão significativas – e demasiadamente humanas.

Não quero ter uma fala e escrita cheia de certezas.

Quero ter uma escrita que convide o leitor do Agachamento ao “espaço de ilusão”. Entre adultos, significaria estabelecer algum elo para o artivismo, junto. Ensaiar crianças e fazer teatro bem feito pode ser artivismo também: mas mais ao centro ou à direita.

Sejamos canhotos! Vamos escapar pela diagonal para a plateia e para o saguão e para a rua! Sejamos responsáveis pela apresentação do Mundo, vasto mundo, às crianças para quem ensinamos teatro. Isso sim é “cena contemporânea”. E para chegar lá, o artista formado como artista precisa abrir mão de alguns de seus pressupostos também: sair de si, deixar a vaidade de lado, não querer brilhar…

Percebo com clareza como a formação em uma nota só, ou seja, a formação baseada na arte espetacular, estraga o improviso. Gera o “improvisador profissional”, ou o “improvisador de carteirinha” (como vemos em festivais e competições de comediantes/improvisadores “stand up”). Ah, eles tem a técnica! Eficácia! Rigor!

No campo improvisacional,  o rigor estraga o vigor. Gera vícios e gagues, pois termina por se querer “dar certo”, “fazer rir”, “vencer”. (Que chato!)

Sou mais por uma pedagogia do sonho e por um teatro que lide com o fracasso, de modo intimista.

Assim, nas reuniões do “coletivo”, pretendo propor a todos oficinas para desenvolver a timidez. O silêncio. O gosto pelo risco, pelo experimento, pelo “começar pelo meio”, sem necessidade de início ou fim.

 

 

 

2 comments for “Ser canhoto e começar pelo meio

  1. fafi
    9 de março de 2018 at 12:22

    veja q MRACO tem “miraculo” oculto…

    te amo, irmã! que saudade! bjs

    • agachamento
      9 de março de 2018 at 22:04

      Ah será mesmo? Rs rs
      Veremos!
      bjs e obrigada pela agachada
      Marina

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