Um teatro que derrama da leiteira a realidade que narra

O ano em que voltei a fazer teatro

Neste ano de 2017, tão difícil para o Brasil e para o mundo, vivi, surpreendentemente, diversas experiências intensas, boas, gratificantes. Aprendi a nadar. Mudei de casa. Deitei, pela terceira temporada, no divã da psicanalista… Mas talvez tenha sido a experiência mais importante de todas: voltar a fazer teatro.

Não que me sentisse distante de “fazer teatro” na docência – por dezesseis anos com as crianças da EMIA-SP, e agora, por cinco anos e meio na Licenciatura em Teatro da UFMG. Mas criar, roteirizar, dirigir-sem-direcionar e mostrar, presencialmente… era, para mim, inédito!

Na minha pesquisa de Mestrado eu não atuei, apenas roteirizei e dirigi. Nas experiências de juventude, nunca roteirizei nem dirigi (adultos): fiz inúmeras pequenas encenações com meus alunos, origem do que hoje nomeio “roteiros de improviso”.

O mais especial deste momento são os companheiros de cena – os jovens atores Raysner e Charles – e a temática biográfica e existencial: a perda gestacional dos meus filhos gêmeos, Evandro e Dimas. Imaginava que seria transformador. E foi.

como contar uma história triste e ficar feliz

como contar uma história triste e ficar feliz

Percebo como expressão potentemente antiestrutural: não termos captado recursos financeiros (os ingressos foram convites, pessoais e delicados; o espaço cênico, meu apartamento…); não existir dramaturgia de diálogos; o tempo de duração ser muito curto, [intensos] vinte minutos; e as roupas que eles vestem são minhas! Uma mágica de tamanhos, no melhor estilo “Alice no país das maravilhas”. O trabalho feito nos uniu de tal modo que agora tenho mesmo filhos gêmeos (rs) vivos e saudáveis. (A foto: meus três filhos).

O teatro teatra (quem disse isso foi um amigo de Jorge Dubatti)  – compreendo essa frase como o teatro ser algo que permite inventar, reviver, ficcionalizar, contar de novo, e também… enfeitar, mentir, fazer de conta, embelezar a verdade mais doída, mais doida.

Por isso mesmo uma das minhas grandes bandeiras na Licenciatura em Teatro é a liberdade para imaginar. Ser imaginativo até mesmo, ou seria melhor dizer inclusive, no campo (auto)biográfico. E percebo como está forte e presente, no caminho de pesquisas contemporâneas, as misturas entre ser-e-não-ser. Teria mudado a pergunta de Hamlet?

Embora os textos permaneçam, as leituras possíveis mudam, os tempos e espaços mudam… Lembro de como fiquei surpresa e instigada por um dizer do professor Guto Pompéia, em aulas, na década de 1990 na PUC-SP, cuja temática eram Fenomenologia e Daseinsanálise (palavra brasileira para a psicoterapia cujo fundo filosófico é heideggeriano); em uma das aulas o professor discutiu o enigma “Conhece a ti mesmo” do texto dramatúrgico Édipo Rei. Ele nos alertava sobre a não existência do “eu psicológico” na temporalidade da Grécia Antiga. Pensar assim muda totalmente a perspectiva da peça!, e se bem corporeificado o conceito, mudariam (ou precisariam mudar) as encenações contemporâneas do texto também…

A única “peça verdadeira” que fiz como atriz foi Luzes e Sombras. Um trabalho pioneiro em teatro para todas as idades roteirizado por Ilo Krugli, mestre do Teatro Ventoforte, que depois foi infinitamente copiado pelo Brasil afora: cantávamos e brincávamos canções e folguedos populares, entremeando depoimentos sobre nossas infâncias – um trabalho provocado por Ilo nas aulas de teatro para atores na sua estética. Não tinha a menor ideia que isso viria a chamar “teatro documentário” (talvez, na Alemanha, já chamasse); tinha dezenove anos e tinha fugido da escola (fiz um ano de graduação em teatro na ECA-USP). O espetáculo ficou em cartaz por dois anos seguidos (1981-1982).

Fiz várias “peças falsas” em trabalhos artísticos criados com pessoas da EMIA-SP: contrapondo, de modo irônico e brincante, o teatro verdadeiro, no sentido do senso comum, definido como aquele que ensaia, cobra ingressos, ocupa um teatro por uma, duas ou três temporadas, e o teatro falso como aquele no qual algumas pessoas se agrupam para inventar um trabalho efêmero para algum evento (talvez, durante os anos 1990, o início do pensamento e da “estética” dos Editais).

Mas todos os teatros dos quais participei foram verdadeiramente significativos.

E o fazer de agora mostra-se o mais… verdadeiro-e-falso; verdadeiro por tratar-se de uma narrativa de um tempo da minha vida, não há máscara nem personagem; falso por ser teatro fora do teatro, sem bilheteria ou programa ou patrocínio. Verdadeiro-e-falso pois teatra. Derrama da leiteira a realidade que narra.

Roteirizei “Quinze momentos para Evandro e Dimas”, primeiro nome que dei ao trabalho (em seguida criei o título que ficou: “Evandro e Dimas, os nomes escolhidos”), a partir de pequenas propostas que rabisquei – e que eu, Raysner e Charles experimentamos, nas segundas-feiras de noite, desde o dia 24 de janeiro deste ano.

Na sala da minha casa.

Neste ínterim mudei de casa e a espacialidade da casa nova foi determinante – um quarto como coxia; a sala como espaço privilegiado do modo de ser e estar em repouso, com diferentes possibilidades de luz; o rico e misterioso espaço de debaixo da mesa redonda – brincar de útero?; a varanda como um entre-lugar (Encubadeira? Limbo onde estão os meninos? Pequeno caixão?); e os chuveiros, local de purificação.

Servimos vodca gelada ao final – ou suco, ou água de coco.

E sempre, invariavelmente, terminamos leves e felizes.

Ah, servimos conversa e silêncio também.

3 comments for “Um teatro que derrama da leiteira a realidade que narra

  1. Denise
    3 de dezembro de 2017 at 10:23

    Lindo trabalho, Marina! Fiquei muito feliz de ter assistido e compartilhado muitos silêncios com vocês!

  2. 9 de dezembro de 2017 at 13:17

    Experiência única! Ainda tocado com isso tudo: teatro falso, teatro íntimo, teatro público, teatro de apartamento, teatro autobiográfico, teatro à boca pequena, teatro tão pequeno e tão grande, teatro possível, teatro Encontro, teatro brincadeira, teatro cura…. São muitos teatros que teatram nessa proposta!!! mas algo acontece de verdade.

    • agachamento
      9 de dezembro de 2017 at 13:49

      oi Clóvis!
      fico feliz com sua co-respondência! Rs
      bjos!!
      da Marina

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