Quero falar de uma coisa

Todos temos nossos Arquivos X

Nos meses de outubro e novembro de 2017, acontecerá, na espacialidade de um apartamento em Belo Horizonte, Minas Gerais, um evento teatral. Um rito. Uma pequena obra documental posta em ação.

Em janeiro, comecei a me encontrar com Charles Valadares e Raysner de Paula. Eu os convidei para um trabalho cujos modos de fazer se assemelham ao que está sendo nomeado “teatro documentário”. Eu os chamei para que fossem “meus filhos gêmeos”. (Não para que representassem: para serem).

No ano de 1984 fiquei grávida de gêmeos. Foi uma experiência inicial de muita felicidade e júbilo. No entanto, aos cinco meses e meio de gestação, os meninos (eram dois meninos) morreram.

Dependendo do tempo gestacional, os bebês que morrem na barriga da mãe e nascem são denominados – e registrados em suas certidões de óbito – “natimortos”. Este é um dos (imensos) detalhes desta história, que vamos contar por seis vezes, algumas segundas-feiras de outubro e novembro de 2017: trinta e três anos depois do ocorrido.  Um detalhe imenso e que me fez deixar os originais dos atestados de óbito no fundo de uma pasta de documentos, muito no fundo, durante todos esses anos.

Por meio deste trabalho, eu percebi, ou confirmei, a potência do teatro para a cura.

“Cura” no seu sentido etimológico: cuidado.

Estou cuidando de um luto atemporal, ou antes, longuíssimo, que meus vinte e dois para vinte e três anos (minha idade naquele momento) não deram conta de “elaborar”. Por trinta e três anos seguidos, os meses de julho me deixaram melancólica. Há um certo cheiro, luz e atmosfera do inverno que me levavam, mais uma vez, em trinta e três julhos, à tristeza da ação de parir bebês já mortos — a mais cruel síntese do que é um paradoxo.

No momento vivido, enfermeiras inábeis me chamavam por “mãe”, ou “mamãe”.

Tudo muito errado. Todos os profissionais envolvidos muito incapazes de conversar uma conversa aberta e franca, olhos nos olhos.

De início, o médico do ultrassom, que detectou, no exame, o falecimento dos bebês, fez com que minha mãe, que me acompanhava junto com meu marido, fosse a portadora da notícia do óbito.

Na minha memória quem acertou foi o jovem médico que conduziu o trabalho de parto. Ele percebeu que eu chorava. Me perguntou se sentia dor… Eu disse que era tristeza, não dor exatamente. Ele me respondeu, com simplicidade: “Você ainda vai poder ter muitos outros filhos”.

Outros médicos mais velhos e mais experientes só sabiam afirmar, com secura e objetividade: “A natureza é sábia”. No geral eles acham que quem ouve a frase a compreende “cientificamente” tal como eles, quando enunciam: que perder bebês doentes é melhor do que tê-los.

Quem viveu algo parecido sabe que nada substitui aquelas crianças, na sua existência, nas suas pessoalidades e especificidades.

É sobre isso o meu “teatro de apartamento”: sobre poder falar do assunto, um tipo de “tema tabú”, de modo livre, artístico e poético, e nomear os natimortos das certidões de óbito por Evandro e Dimas – seus nomes escolhidos.

Desde janeiro construimos quinze momentos dramatúrgicos de modo a expurgar isso de mim; em mim. Concluir, e dizer para o céu que enxergo da varanda do meu apartamento recém alugado: eles viveram cinco meses e meio de uma existência feliz. Em determinado momento eu canto, e depois os meninos cantam, um trecho de uma canção de Rita Lee:

Num apartamento / perdido na cidade / alguém está tentando acreditar /

que as coisas vão melhorar / ultimamente…

(Teriam mesmo eles vivido cinco meses e meio de uma existência feliz? A pergunta é, agora, filosófica, e não é para ser respondida).

De início pensei mesmo sobre uma abordagem realista, estudo da neurologia dos fetos, e coisas correlatas. (Eles sentiram dor, quando morreram na barriga?)

A pergunta vai ser performada. Ou, em palavras mais transparentes: a resposta (mais possível, trinta e três anos depois) é a criação, ao lado de Raysner e Charles, junto; dois atores jovens que toparam o desafio, que acolheram meu projeto, em troca do convívio e da aprendizagem deste tipo de teatro e seus procedimentos. Tenho muito a agradecer a eles. Encarnaram Evandro e Dimas, ao longo do ano de 2017, e, ao ver os gêmeos crescidos e saudáveis, por meio da ilusão do teatro, eu pude dizer adeus.

Com este trabalho vou expurgar a dor, a recordação, o cheiro do inverno que mistura também a mancha de sangue vermelho na calcinha durante a recuperação do “aborto espontâneo” (que expressão terrível!) e a nitidez do cheiro, nas narinas, de um tipo de spray cicatrizante que se usava nesses casos, à época.

Eu tomei vacina “anti RH” pois não se pensou sobre isso, durante a internação hospitalar, e não foram verificados os tipos sanguíneos de Evandro e Dimas – eu, sua mãe, era 0 negativo.

No ano de 2012, ao fazer exames para entrar na UFMG, descubro que meu sangue se tornou “0 positivo fraco”. (Aparentemente isso aconteceu por ter tomado a vacina nas duas gravidezes vividas… nos anos de 1984 e 1985).

…Ter mudado de tipo sanguíneo talvez possa, agora, ter sua potência poética, na medida em que decido que vou deixar que Evandro e Dimas, enfim, sejam por mim consideradas vidas de cinco meses e meio (dentro da barriga) bem vividas; dois bebês queridos e desejados, que, posso teatralizar agora, inspirada em palavras de Janusz Korczak: crianças que tiveram o direito de morrer.

Deixo registrado, aqui no Agachamento, a criação deste ato performativo que acontecerá de modo aberto muito em breve, e explicito os “resultados” que pretendo “obter”: a assunção de que tive três filhos, um deles vivo.

É para Jonas, meu filho saudável e vivinho da silva, que dedicarei este expurgo, à sua liberdade de vida e expressão, para que sua mãe deixe estar os irmãos, com quem não brincou e não conheceu:

como disseram os Beatles: let it be

como disseram os Beatles: let it be

que seus primos possam ter tido este papel — e tiveram — e que a sua vida seja homenageada, com sinceridade e sem escrúpulos para saber de seu caminho biográfico; e que você se sinta livre para, sempre que quiser, e puder, acessar esses Arquivos X da sua mãe. De seu pai. E de seus irmãos.

 

 

 

12 comments for “Quero falar de uma coisa

  1. Soler
    20 de setembro de 2017 at 23:25

    Que texto lindo! E nem se fala do projeto! Vou tentar ir na estréia !

  2. Nani
    21 de setembro de 2017 at 11:57

    ai, Marina…!

  3. Mayron Engel
    22 de setembro de 2017 at 17:22

    Bons ares, inspirações e movimentos!!

  4. Raquel Dornfeld
    22 de setembro de 2017 at 17:55

    Sou enfermeira e seu texto me absorveu de uma maneira que só posso traduzir como…poética. Que lindo projeto. Em nome de todos os profissionais de saúde que te causaram dores ainda piores que a da maternidade interdita, te peço perdão. Somos humanos, demasiadamente (bença, Nietzsche! ) e nossos erros podem ser catastróficos. Trinta e três anos é tempo demais pra “pensar” uma ferida assim… Que Agora a cura seja linda. Evoé!

    • agachamento
      22 de setembro de 2017 at 19:18

      Olá Raquel!
      Agradeço sua mensagem. Aceito o pedido de desculpas. Mas afirmo que é necessário… ativismo! Nas situações que envolvem os “temas-tabu”.
      Um abraço
      da Marina

      • Raquel Dornfeld
        22 de setembro de 2017 at 22:01

        Justamente, Marina… Também sou uma contadora de histórias. Te conto que seu texto me chegou às mãos de maneira tão bonita… Lembraram de mim e da inegável paixão com que falo sobre cuidados à pessoa e à família que sofrem processos de adoecimento, finitude e luto… Eis que as palavras têm asas e estão agora mesmo emocionando centenas de pessoas que, como eu, só querem fazer o melhor possível… Bora fazendo, ativismo sempre, protagonismo é tudo!!!

        • agachamento
          23 de setembro de 2017 at 08:24

          Que bom, Raquel! De fato todos temos “nossos Arquivos X” e abrir o meu no site-blog parece estar também fazendo parte do meu movimento psíquico de procurar conversa e cura. Mas não se preocupe, eu fiz várias terapias, escrevi livros, criei meu filho, e tudo o mais. Falta plantar uma árvore! Rs
          Um abraço forte
          da Marina

  5. Elisangela Christiane de Pinheiro Leite Munaretto
    4 de outubro de 2017 at 15:35

    Marina que profundo tudo isso…a experiência de viver e a arte de reviver a experiência…

  6. Alice Vieira
    9 de outubro de 2017 at 10:33

    Fiquei emocionada aqui! Quero demais ir, Marina!

    • agachamento
      15 de outubro de 2017 at 16:08

      Que bom Alice, vamos combinar!
      bjs
      Marina

  7. Lucas Emanuel S Araujo
    16 de outubro de 2017 at 00:03

    Que o teatro nos cuide e que cuidemos dele.
    Bons experimentos para os três!!!

  8. Melina
    5 de novembro de 2017 at 21:29

    Processo e auto cura lindo! Viva a arte!!

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