Rolezinho na rampinha

Artivismo, agora praticado

Em uma postagem intitulada “Eu quero ser artivista”, comentei sobre uma oficina / workshop / ato performativo que iria propor para o setor Educativo do Centro Cultural do Banco do Brasil. Este trabalho aconteceu no dia 23 de agosto, última quarta-feira.

Tinha muito o desejo de “ocupar” a rampa na lateral do prédio do Centro Cultural.

Pensava, e penso ainda, que tudo de contemporâneo que o Centro Cultural está propondo, precisa sair dali: ganhar a calçada!

Expandir-se.

Conversar com transeuntes, moradores, e pessoas que não tem o hábito de ir a… museus. Mesmo com entrada gratuita, existe um fenômeno: há alguns grupos sociais que não entram em espaços assim. Assim como? Museológicos, bem cuidados, com cara-de-elite. Sim, é inevitável que o imponente prédio seja visto, lido e vivido como espaço “não para mim” (pessoa comum).

Assim dividi o tempo em três momentos.

Primeiro momento:

dinossaure-se

Eu me apresento junto com os objetos que levo em uma sacola… Sem planejar nem roteirizar, vou criando sentido entre os objetos: nomeio o jacaré de plástico meu filho; dou a ele uma enorme maçã para comer, e ovos. Ele namora uma galinha. Eu sou enciumada. Eu até já o levei a Paris! E assim por diante.

 

Segundo momento:

Cada participante ganha “um kit”. Trata-se de um móbile da fábrica de brinquedos S’ocio, que fechou. Ganhei do meu irmão, criador da fábrica, uma porção desses “kits”, para fazer o que eu quiser… Explico que o “kit” vira um móbile – e que vamos fazer

tudo menos um móbile.

o kitTerceiro momento:

Passear pelo espaço. Perceber que isso que fizemos pode ser chamado de performar a paisagem. Nesse momento eu brinco de ser “O Educativo” do lugar. Falo coisas imaginadas e ao mesmo tempo situadas (Aqui é a Savassi… Aqui é o Parque Municipal… Em Paris!… etc)

E houve um quarto momento, no qual, por cerca de vinte minutos, conversamos, em pé. Aglomerados.

Disse que quem quisesse “reproduzir” o trabalho com crianças deveria ter sua mala ou sacola de objetos. Colecionar coisas é o primeiro passo. O segundo passo é exercitar narrativas imaginativas, brincantes, humoradas – posso chamar isso de doar significações [para os objetos, para o espaço ocupado, para as relações que estão acontecendo no aqui-agora]. Essas narrativas são apenas motes iniciais para acordar as imaginações. As imaginações serão espacializadas, por meio do uso dos materiais distribuídos a seguir.

Obviamente as pessoas não terão os mesmos “kits”, mas podem colher brinquedos-sucata de modo que cada participante ganhe um mesmo inventário. É um exemplo simples: rolhas; tampinhas; galhos; folhas; pedras; brinquedos quebrados; bolas de gude; papeizinhos. E assim por diante.

O importante é perceber que, quando o adulto condutor não diz o que é pra fazer, estou livre para inventar. Mas tristemente há no mundo crianças que, quando não se diz “o que é pra fazer”, se inibem, ou se entediam, ou até mesmo se sentem ameaçadas pela liberdade.

Digo “tristemente” por ser estudiosa da obra do psicanalista inglês Winnicott, que afirma existir um tipo de mandalabrincar “livre e criativo”. Este jeito de brincar não é inato – ou seja, as crianças não nascem imaginando; as crianças aprendem essa maneira de brincar de modo relacional: com os adultos cuidadores, com os pares, com a cultura compartilhada enfim. Trata-se do tão famoso “brincar de faz de conta”. Não preciso de brinquedos ou de regras para que o faz de conta aconteça; preciso de liberdade de expressão e de liberdade de ir e vir: preciso ir ao mundo, ver o que o mundo me oferece; e preciso ter a ilusão de que eu criei o mundo, e que o mundo é meu parceiro – as coisas ali estavam para que eu as descobrisse.

Mas como as crianças pequenas estão, habitualmente, sob as asas do adulto cuidador, o gesto espontâneo de descoberta do mundo precisa ser permitido, provocado, até mesmo induzido; “ir ao mundo” pode significar por exemplo, simplesmente ir ao encontro de uma torneira de água, ou ir até a terra da pracinha.

Como você, leitor do Agachamento, pensa essa situação? Deixar a criança ir e vir na pracinha, e ter contato direto com a terra e com a água?

Também tristemente muitos adultos jovens (tomo pelos meus alunos na graduação de teatro) consideram perigoso ou arriscado ficar livre na pracinha. Estou percebendo que uma porção de lugares e mídias estão tematizando a “infância confinada” entre os brasileiros. As ruas estão perigosas, é fato; mas o que vamos fazer sobre isso?

jacaré1Por isso considerei a breve e pequena ocupação da rampinha ao lado do Centro Cultural Banco do Brasil um ato político. Uma ação de uma hora e meia de artivismo.

O foco foi o uso criativo dos materiais que todos tinham em comum. Pelas imagens vocês podem notar como foi rico e instigante!

Foi uma proposta de risco. Poderia ter frio e vento, poderia ter interferência da rua ou dos transeuntes de tal modo que os participantes se sentissem inibidos, intimidados, ou abordados de um jeito intromissor. Também os participantes poderiam não aderir aos meus comandos. Ou poderiam se entediar ou se dispersar, sendo que, em meu enunciado, disse que o trabalho pressupunha introspecção e um grau de silêncio.

paisagem2Ao final algumas pessoas deram breves depoimentos sobre o que vivemos. Foi interessante e bem sucedido. Percebo que por vezes os educadores agem como se os coordenadores, diretores e o sistema educacional fosse “Pai” e “Mãe” autoritários, que mandam e nos limitam. Gosto de afirmar que nossa arma-flor (flower power) são os documentos curriculares. Muitos dos municípios brasileiros elaboraram documentos a favor da pequena infância, do brincar, do protagonismo. Se o coordenador, diretor ou supervisor de ensino se aborrece com “nossa bagunça” (soltura, brincadeira, vitalidade, barulho, troca significativa) devemos, em nome das crianças, afirmar que o que estamos propondo está previsto no documento curricular. O brincar é preponderante – não é um momento da sexta-feira no qual trazer brinquedo é permitido… O brincar é uma grande paisagem ou pano de fundo de toda a vida escolar da pequena infância. O brincar é um parangolé a ser vestido, uma chuva para nos molhar, uma bota de sete léguas que nos faz gigantes.

Grande indício de que isso tudo (soltura, brincadeira, vitalidade, barulho, troca significativa) faz parte da energia da criança, foi a visita de dois meninos à nossa ocupação:

gesto espontâneo

6 comments for “Rolezinho na rampinha

  1. CHARLES Valadares
    27 de agosto de 2017 at 23:07

    Uhuuu!

    bora ocupar tudo! bora ocupar tempos e imaginações!

    • agachamento
      28 de agosto de 2017 at 10:19

      Siiiim!! Cadê as crianças?

    • 4 de setembro de 2017 at 19:42

      quero ir também!

  2. Floriano
    28 de agosto de 2017 at 17:24

    Vendo, de passagem, que as crianças eventualmente podem querer apenas a terra (e a água) – e impedidas de fazer um móbile das peças do móbile, só nos resta entregar, afinal, um tijolo para cada criança raspar na calçada. Aí sim! Bjs

    • agachamento
      28 de agosto de 2017 at 17:48

      Sim, seria “o cúmulo” [o ápice?!] de um brincar minimalista da nossa geração…
      Obrigada pela visita ao Agachamento
      bjos!

  3. 29 de agosto de 2017 at 10:04

    Olhar o mundo e deixar o que mundo nos olhe. Caminho de mão dupla. Sensível relato de uma bela experiência. O espaço jamais será o mesmo quando essas pessoas passearem pela calçada onde tudo isso aconteceu! Maravilha!

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