13 razões para assistirmos a um seriado americano

imagesMuitas e muitas pessoas me falavam do seriado “Thirteen reasons why” (“Os treze porquês”, em português), produzido pela Netflix, neste ano de 2017. Quando “todo mundo” está falando… tenho certa preguiça de aderir (rs) – mas agora confesso que, neste caso, foi puro preconceito.

No último final de semana de julho, pude começar a assistir a tão falada série. A temática é polêmica, bem como seu modo dramatúrgico: falar sobre o suicídio, do ponto de vista da garota suicida (que grava fitas cassete, para seus colegas de high school ouvirem, sobre as (13) razões para tirar a vida, por assim dizer).

Pela minha faixa etária, profissão, geração… minha atenção – e tensão – fez foco nos modos de ser e estar da comunidade adulta. Assim minha emoção, comoção, identificação se ligou aos personagens dos pais, professores, terapeutas e gestores da escola… Ficam transparentes os conflitos de geração, e de que aquela boa e velha receita “tenhamos uma conversa sincera olhos nos olhos”, por inúmeras vezes, é impossível de ser seguida. Todo o tempo os episódios apontam para isso.

E, junto daquilo, a solidão, ou o tipo de solidão da personagem suicida: ausência de diálogo, de amizade, de copertença, de solidariedade… o que, para os americanos (na vida real e nos roteiros de seriados, literatura, auto-ajuda, psicoterapias e etc) possui o par complementar dos comportamentos de bullying. (É que não gosto de adotar esta palavra. Sempre digo para os alunos: podemos pensar, em português, sobre: maltratos; maldades; sacanagens; crueldades; relações de poder).

Nos treze episódios a tensão vai acumulando, e a tristeza, o isolamento; e seguem um rumo que, no início de alguns episódios, já haverá um “warning”/ aviso de que haverão cenas fortes – penso que muito bem elaboradas, dirigidas, atuadas. Os temas de maltratos e crueldades se expandem para violência e estupro. Há contexto; delicadeza por um lado; veracidade por outro, que, num dizer no “extra” pos-treze episódios, os atores nos explicam: o modo explícito homenageia os vivos. O realismo da dor é um modo de honrar a dor dos que ficaram vivos, quando o jovem suicida passa ao ato. A encenação verosímil, para eles, é a escolha que faz jus ao que amigos e familiares experienciaram suicídios de jovens.

*

Passei recentemente pela experiência de assistir por dias apenas a TV aberta. Estava sem internet, por ter mudado de casa. Como a programação da televisão brasileira está ruim, e ideologizada! (seja pela espetacularização, seja pela religião comercializada, seja pela ausência de “pontos de vista”). Então, ao assistir a série das treze razões do porque Hanna Baker se matou, fiquei paradoxalmente feliz – depois, igual quando acordamos de um sonho – feliz porque existe no mundo este objeto da cultura.

Uso há bastante tempo esta expressão, emprestando a definição do psicanalista Roberto Barberena Graña: “Os objetos da cultura são (…) produtos refinados do exercício da criatividade (…) que contribuem cumulativamente na sedimentação do patrimônio de realizações e experiências humanas. A experiência cultural criativa propicia uma totalização do sentimento de ser; é não só a de quem escreve como a de quem emocionalmente lê, não só a de quem pinta como a de quem emocionalmente identificdo contempla, não só a de quem compõe como a de quem se deixa inebriadamente envolver pela melodia, enfim, a de quem consegue, sem esquivar-se às exigências e responsabilidades que a vida e a realidade (…) impõem, preservar em si a possibilidade de surpresa, de encantamento e de ilusão.” (no livro Donald W. Winnicott/Estudos).

Pois então existe um objeto da cultura que tematiza o suicídio, sem estereótipos nem maniqueísmos. Existe um seriado americano inteligente, em pleno mundo de vida Trump-trash.

Existe a possibilidade de criar algo de modo a levar a discussão do tema tabu do suicídio, bem como dos maltratos e crueldades, incluindo o crime de estupro, por meio da linguagem já instaurada das séries de TV.

Existe a possiblidade de fazer televisão e cultura de massa de modo cuidadoso, sensível, e respeitoso com uma obra (a série é transcriação de um livro); com os atores jovens; com o público.

Enfim, penso que todos aqueles que tiverem a oportunidade de assistir, devem fazê-lo. Especialmente educadores que, como eu, enfrentam os temas nos subtextos das criações dos jovens alunos universitários que estudam teatro; e se não enfrentam os subtextos em seu cotidiano de trabalho, podem enfrentar em outras formas: no silêncio e na dor do jovem que se sente mal, não pertencente, por vezes alvo de crueldades…

Também vejo na construção dramatúrgica algo que vale a pena, próprio do texto contemporâneo – os episódios tem seu sentido próprio, mas a trama se faz em fragmentos e por camadas; o roteiro é trabalhado por meio de “pontos de vista”, mesclando o ponto de vista da narradora (já morta), e os tempos passado e presente. No tempo presente ficcional, ouvimos versões das personagens. No tempo presente do que é editado no final dos treze momentos, ouvimos os produtores, os atores, a diretora…

No modo de roteirizar, há busca por não terminar em relativismos: ao final, haverá o compartilhamento de dor, segredos, solidão, e possibilidade de denúncia e, talvez, reparação.

A morte de um filho nunca é reparada.

Vemos muitos pais trabalharem sua dor politizando a vida cotidiana, como fez por exemplo a mãe do cantor Cazuza. (Talvez algo assim possa acontecer na segunda temporada da série, que estão preparando).

Eu mesma estou nesse caminho: criando uma encenação para comunicar meu luto, que hoje percebo como foi extremamente estendido, pela perda de filhos gêmeos, no quinto mês de gestação.

Percebo que a adaptação do roteiro em “13 reasons why”, e a atuação, direção, etc quer nos conduzir pelo caminho da autorreflexão: e por isso termino falando de mim. Eu estou ali.

Minha juventude também está ali, de algum modo, pois fui estudante de intercâmbio em uma pequena cidade do estado de Michigan, em 1977.

Ao voltar para o Brasil, de 1978 em diante, descobri o teatro.

A morte pode não ser reparada, mas poderá ser retratada, tornada “objeto da cultura”.

Tornada “objeto da cultura”, está pronta para ser compartilhada, discutida, antropofagizada que seja.

“13 reasons why”, para mim, é uma obra de artivismo. (Ver postagem anterior)

Talvez por isso fez tanto sentido assisti-la neste momento.

*

Não “sou” do Facebook, portanto, não estou acompanhando os comentários e a polêmica sobre esta série…… mas, para aqueles que pensam que estão “convidando jovens ao suicídio”, só tenho a dizer, citando Bachelard: “todo realista é avarento”.

Encarar esse trabalho de maneira realista estrito senso é simplesmente avaro, estreito e simplório. Seria igonorar a capacidade humana para a ficcionalidade — e o lugar terapêutico, ou curativo (curar no sentido do “cuidado”) que a ficção pode ter.

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Te dou então treze razões para assistir ao seriado: encarar de frente um tema tabu; perceber a riqueza do roteiro em fragmentos; abrir portas e janelas para o diálogo sobre o suicídio, a solidão, os maltratos e crueldades sofridas por jovens; acompanhar jovens atores e seus personagens desenvolvendo-se; compreender o que é próprio da cultura americana; aprender o valor da ficcionalidade na vida humana; entender como até mesmo a cultura de massa pode ter traços de artivismo; abrir mão do realismo estrito senso, deixando de ser avarento; desenvolver empatia; perceber as relações de poder da vida humana; espelhar-se nas situações e crescer como pessoa; pensar em formas de solidariedade e companherismo na vida cotidiana; compreender a complexidade do início da vida sexual ativa dos seres humanos.

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