Eu quero ser artivista

Por vezes me sinto fora do tempo.

A vida correndo, nossas escolhas, preocupações e projetos, tudo nos toma – e de repente senti uma urgência, de entrar no tempo, não mais a temporalidade que mescla subjetividade e objetividade, mas o tempo do relógio. Isso aconteceu depois da experiência do congresso do IFTR (ver postagem anterior).

No meu caso, entrar no tempo do relógio é, agora, aqui-agora, e a partir de agora, sempre, procurar um caminho da maturidade que leve meu trabalho a um lugar político estrito senso.

Que o lugar político estrito senso de minha dedicação à infância seja, agora, aqui-agora, e a partir de agora, sempre, trabalhar na chave de um início de vida (digamos os dez primeiros anos) de alguma felicidade. De encontro. De descoberta e sedimentação.

Dez anos da possibilidade mais possível para as crianças do Brasil.

Como fazê-lo?

Vou começar agora.

Vai ser numa reunião que terei no Centro Cultural do Banco do Brasil em Belo Horizonte, no final de julho. Pretendo, na reunião, conseguir desmanchar o que se projeta em mim (Professora Doutora e etc), para construir algo junto, e para falar da criança tal qual ela se apresenta, em nós, para nós, no dia para o qual estou sendo convidada a falar.

A criança hoje tem nome e sobrenome, tem data de nascimento, tem contexto afetivo, social e político; a criança de hoje não é “a criança interior” de cada um. E a criança de hoje não é a criança das teorias do desenvolvimento humano!

Pretendo falar dessa criança na chave artivista, no meu caminho já iniciado e trilhado: partir de um brincar originário. Lembrar os presentes da felicidade de descobrir o mundo, o eu e o outro, a partir de situações relativamente organizadas pelos adultos, mas nas quais “eu me vejo o criador”. As coisas lá estariam para que eu as descobrisse. Sem estresse, sem pressa, sem “ter que”.

Em algum momento, na UFMG (onde cheguei em junho de 2012, para ensinar a ensinar teatro) eu tive a ideia, ou talvez uma epifania, que reuniu palavras da seguinte maneira:

tempos dilatados para espaços encontrados.

Gosto demais dessa expressão; dessa síntese; maneira de re-nomear algo antigo: o brincar “livre e criativo”, tal como discute o psicanalista inglês Winnicott.

Para que a criança pequena se veja livre e criativa, há que enfrentar um paradoxo: os adultos precisam estar alí, de modo a propiciar o que Winnicott chama de ambiente facilitador. Também precisamos, adultos que somos, ser capazes de holding – que, em tradução literal, significa sermos capazes de “segurar”. Na gíria isso fica mais claro: segurar a onda. Acolher. Deixar ser (e só então propor o fazer).

Alguns interpretaram esse modo winnicottiano como “deixar rolar”. Não penso ser esta a melhor expressão, pois por vezes as crianças gostam de coisas estranhas, perigosas, e perversas. Por isso os adultos precisam estar por alí.

No entanto a educação se daria como tempo de espera. Que a maturação viesse aparentemente sozinha – ou, pelo esforço da criança mesma – mas a partir de um ambiente seguro, cujos perigos são apresentados como desafios, que a maturação aconteça (andar, falar, correr, pular, imaginar, brincar!) com seu espaço e seu tempo afinados com a espacialidade (relação criança-espaço) e com a temporalidade (relação criança-tempo).

Trata-se de praticar uma espécie de arte zen. Estar alí, mas saber ausentar-se, para que a solidão surja como modo positivo de sentir-se humano.

Sentir-se humano significaria, aqui, agora, e a partir de hoje, sempre, saber da finitude.

Que nos dez anos iniciais de nossas vidas possamos experienciar uma corporalidade (relação criança-corpo) sagrada – não no sentido religioso, mas sim no sentido poético e artístico, tratando daquilo que é um sopro de vida… e seu fluxo de continuidade.

Saber da continuidade de si, do outro e do mundo, é saber também que tudo que nasce, morre. Penso ser interessante propor, como artivismo, o direito do tempo dilatado e dos espaços encontrados, durante a primeira década de vida. Dez anos de boas experiências de continuidade nos daria força para enfrentar as (inevitáveis) rupturas que a vida humana traz.

A solidão compartilhada é uma das noções mais bonitas e interessantes da obra de Winnicott, que faleceu em 1971. Penso que o “auge” do seu pensamento é muito conectado com os movimentos inovadores da década de 1960. Paz e amor. Arte e vida. Criatividade e presença (e ausência, concomitantes).

Vou propor, na reunião que terei no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte, não ser conferencista. Não usar microfone. Não falar em situação palco/plateia, em auditório.

Eu quero ser artivista.

Vou propor uma bagunça em uma área externa do (imponente) CCBB-BH. Por bagunça entendo vida, movimento, surpresa. Por bagunça quero dizer busca de antiestruturas, no sentido sociológico.

Eu quero uma casa no campo (…) / a esperança de óculos / meu filho de cuca legal.

Todos os educadores da pequena infância querem crianças de cuca legal – quase todos reclamam de crianças problemáticas, inquietas ou não psiquicamente saudáveis… mas, o que estão fazendo sobre isso?

Penso que é necessária uma reviralvolta no discurso, e na ação, dos adultos.

Essa reviravolta pode ser proposta pelos artistas que trabalham com educação e infância.

Brincar!

A oficialização do brincar, vivida por muitos na educativa e organizada Brinquedoteca (nada contra, mas vejo coisas de arrepiar os cabelos em algumas dessas maneiras organizacionais), abafou algumas das possibilidades existentes para semear a saúde mental, existente no brincar “livre e criativo”.

Vejo entre intelectuais que muitos debocham dessa expressão.

Eu homenageio essa expressão, a cada convite que me é feito para falar sobre arte e infância. Os que debocham dizem que liberdade e criatividade são ilusões, ou “conceitos datados”. Mas outra coisa bonita e especial que a obra de Winnicott propõe é o modo como nos relacionarmos com a ilusão:

A ilusão encontra-se em um espaço próprio, que é o entre: entre a mãe e o bebê, entre o adulto e a criança, entre natureza e cultura… A ilusão é positiva, necessária, amorosa. A ilusão move montanhas. O espaço de ilusão nos humaniza – é onde eu acredito que criei o mundo! Apesar de muitas vezes desconfiar que tudo aquilo alí já estava… A ilusão acolhe a fantasia, o devaneio, o desejo.

A ilusão é fundante.

A ilusão nos leva, na vida adulta, à arte, à ciência, à filosofia e poesia, ao prazer de gostar do nosso campo profissional. Nessa chave, a ilusão é o que nos move, rumo à independência.

O espaço de ilusão também é chamado, por Winnicott, de área do consolo.

Do que você acha que a criança se consola, por meio do brincar?

Para Winnicott, seria da constatação do “self”; e concomitante àquela constatação, outra: a separação da mãe (ou figura materna, quem nos cuidou).

Como e por que eu precisaria ser consolado disso?

É porque eu acreditava ser um oceano.

Mas sou uma pessoa humana.

E como pessoa humana, eu te proponho: plante amigos e livros, e nada mais.

A ilusão da casa no campo, tão intensa na voz de Elis Regina… que tinha suas angústias e questões, que morreu precocemente…

A dura realidade da morte da artista desfez a ilusão da canção?

Zé Rodrix, compositor da música, muito tempo depois, em 2014, disse que escreveu a letra de modo despretensioso… pensa ser retrato de uma geração… e que a música é perigosa. (Entendo que pelo desejo de fuga).

Falar sobre perigo é muito importante para conseguir mudança nos modos de educar crianças. Muitos não querem as crianças na rua, e preferem que fiquem vendo televisão ou jogando no tablet. Muitos não percebem como é fundante a corporalidade em movimento – o desafio, e o enfrentamento do perigo. Muitos consideram crianças gordinhas e paradas na frente da televisão, ou sentadas com seus tablets, sinônimo de segurança.

Sei dos tiros na rua, sei da maldade humana, sei da existência de tráfico de órgãos e rapto de crianças – e sei que tudo isso não é contos de fada ou literatura!

Mas o que vou fazer sobre isso?

Artivismo.

colher

1 comment for “Eu quero ser artivista

  1. Mônica
    19 de agosto de 2017 at 17:38

    Artivismo sim!

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