Por onde andei esses dias

Entre os dias 10 e 14 de julho participei do congresso da IFTR que aconteceu no campus da USP, em São Paulo, majoritariamente nas salas e auditórios da ECA. IFTR é a sigla para International Federation of Theater Research, ou, em português, Federação Internacional de Pesquisa em Teatro. Este evento é mundial e anual, com organização e origem anglo-saxã. Isso significa que a “língua oficial” do evento, no Brasil, seria o inglês.

Desse modo, desde que me inscrevi, em janeiro deste ano, estive pre-ocupada: era necessário escrever um paper em inglês e preparar-me para comunicar, expressar, me virar… em inglês: paradoxalmente, na minha cidade de origem…

processo 1

Foi bastante intensa a preparação – e por vezes tensa.

Quando chegou o momento, deu uma certa preguiça, obviamente associada a alguma ansiedade… mas junto com a parceira Luciana Hartmann, lá fomos nós, enfrentar o moinho anglo-saxão. Eu e ela estávamos no mesmo working group (grupo de trabalho), intitulado “Performance as Research” (Performance como Pesquisa).

Primeiro dia

Em mensagem por email, teria sabido que o encontro seria no

tbc

estranho!

Como e por que um evento co-organizado pela ECA-USP escolheria o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia)??

Tento confirmar, a organizadora do grupo de trabalho diz: yes, tbc.

Já tinha visto no Google Maps. O TBC é hoje um lugar fechado, abandonado.

Penso: podem estar querendo trabalhar em ruínas…

Vou pra lá.

Pego um ônibus e depois ando ando ando.

Ao chegar, mistério. Tudo mesmo fechado, estranhamente desabitado.

Vou na lojinha em frente. Pergunto. A moça me diz que se eu bater na porta, um vigia virá me atender.

Atravesso.

Bato na porta.

Vem o vigia.

Pergunto se ali está tendo algum evento ligado à USP…

Ele diz, aqui não tem nada. Ta abandonado.

Ainda me preocupo com “os estrangeiros”, que chegariam ali e encontrariam o abandono e o nada. Falo isso para ele.

Ando ando ando. Páro e envio, pelo celular, email para a organizadora do grupo de trabalho, alertando que não há nada no TBC.

Resolvo almoçar, bater perna, para depois ir para a cerimônia de abertura do Congresso na USP.

Ao chegar ainda reclamo com alguns meninos voluntários…

E o mistério só é desvendado quando encontro de fato a organizadora do WG (GT):

tbc = to be confirmed

Fico muuuuito sem graça. Constrangida. Me sinto infantilmente enganada. Em poucos minutos aquilo tudo se torna piada, folclore, ou ainda, para ficar chique: uma prova da existência das epistemologias do sul.

Segundo dia

Agora já sei, cresci, e me concentro para chegar na hora e no lugar certos.

Chego.

Surpresa: os encontros são de práticas. Se tira o sapato. Quando o pé esquenta, se tira a meia… e se tira também o peso do academicismo (ainda mais se falado em inglês por brasileiros! Rs).

Realmente as propostas foram simples, leves, bem legais. A proposta tematizou o “dentro” e o “fora”, de uma maneira fisicalizada e performativa.

Neste segundo dia, em um momento de Auditório, Ileana Diéguez fez uma comunicação muito forte sobre performance e política no México.  É uma felicidade ouvi-la.

Terceiro dia

Em um movimento crescendo, o espaço do congresso se torna espaço de convivialidade. Isso foi incrível. O passo mais importante nesta direção foi a permissão para falar português do Brasil! Algumas pesquisadoras falavam tanto inglês como português fluente; assim, o sub-grupo ao qual pertenciam criou um jeito de dar os comandos do workshop de maneira bilíngue. O tema deste momento foram memórias, que contávamos uns para os outros ao mesmo tempo em que construíamos teias de fios pelo espaço… Antes disso experimentamos alguns jogos de Augusto Boal; no último momento, alguém performava uma das nossas memórias, sem o uso da palavra. Foi muito emocionante para mim pois uma pesquisadora fez no corpo aquilo que tinha contado a ela: ser posta para esquiar na neve, sem ter nenhuma experiência (aconteceu comigo ao chegar nos Estados Unidos em 1977, no ano em que fiz intercâmbio).

De tarde foi a vez do meu subgrupo conduzir uma proposta.

Gostei pois pude usar o material de uma parte daquilo que teria preparado individualmente para comunicar, caso acontecesse um momento desse tipo: imagens do Parque Municipal de Belo Horizonte, dos burrinhos, da dramaturgia do espaço.

Preparação

Pusemos, em envelopes, duas figurinhas e um papel dobrado (página do bloquinho do evento).

Por vezes escolhíamos figurinhas repetidas. Fizemos isso de modo rápido e aleatório. Eu tinha preparado em Belo Horizonte as figurinhas e o evelope.

Eu e a parceira Chloé criamos uma sequência de três momentos:

path / frame / perfoming the landscape

caminho / moldura / performando a paisagem

Eram comandos simples e aos poucos levamos os participantes a um alto grau de silêncio.

Path / Caminho

Em quatro grupos compartilhar as figurinhas e criar com elas um caminho

veja que construção interessante de um dos grupos!

veja que construção interessante de um dos grupos!

Frame / Moldura

Escolher, dentro da sala ou fora, uma moldura – um recorte de algo, tal como uma janela, uma grade, um desenho no chão… que pudessem servir como uma moldura para o olhar – olhar simplesmente, imaginar, deixar-se levar: e fazer apontamentos na folha de papel que estava no envelope

Performing the landscape / Performar a paisagem

Ir para fora e escolher um lugar, de modo a especializar o que se imaginou; podendo usar as figurinhas ou não, devendo usar o envelope

Luciana Hartmann criando sua espacialidade imaginada

Luciana Hartmann criando sua espacialidade imaginada

Cada momento teve seus vinte minutos de duração e muito mais tempo ‘subjetivo’… revelado pelo grau de envolvimento e presença dos participantes.

O “fechamento” foi coletivamente visitar alguns dos espaços imaginados materializados no pátio do CAC – Centro de Artes Cênicas da ECA-USP.

A parte em Auditório deste dia foi uma fala do pesquisador Sérgio Carvalho.

Quarto dia

Um dia livre para o Grupo de Trabalho, dentro da agenda dos cinco dias – algumas coisas acontecendo, como comunicações temáticas.

Quinto dia

Três membros do Working Group foram selecionados de antemão e tiveram tempo para comunicações de suas pesquisas estrito senso. Foi interessante e fez sentido esse modo de organização. Entre eles a pesquisadora Ciane Fernandes, que fez, em auditório, uma proposta performativa com todos que quisessem participar, e de um modo centrado no evento, e não nela nem na pesquisa autoral de modo literal.

Em seguida tivemos o último workshop, este mais polêmico, pois a proposta partia de recortes de citações de todos os papers do grupo… Me diverti bastante, por ter entendido que seria uma possibilidade de brincar de (anti)academicismo. No entanto não era para ser nem cômico nem paródia – mas foi. Interessante pensar isso: uma certa recusa à tradição da citação – algo que eu estava valorizando, mas as proponentes estavam pensando noutro sentido completamente diverso…

Os sentidos completamente diversos surgiram novamente!

TBC ou tbc?

Eis a questão.

De tarde haveria o fechamento, com uma última roda de conversa do GT e uma fala da Eleonora Fabião, que provavelmente foi bem interessante (não fiquei).

Valeu muito a pena o desafio. É extremamente cansativo operar noutra língua por horas seguidas – mas a possiblidade criativa nos workshops nos levavam para um lugar de jogo, partilha, convivialidade. Posso dizer que foi um dos “eventos acadêmicos” de minha vida que mais conversou comigo, com minha pesquisa, e com meus desejos de futuro.

quando temos desapego e nos esvaziamos de expectativa, é mais fácil deixar que o outro transforme nossa proposta

quando temos desapego e nos esvaziamos de expectativa, é mais fácil deixar que o outro transforme nossa proposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


seis × = 42