Tenhamos uma conversa franca e sincera, olho no olho

Nascimento, vida e morte

Com o término do semestre faremos um ato performativo final da disciplina – agora rebatizada por mim – “Brincar, criar, (des)teatralizar, viver”.

Consternada com casos de suicídio entre jovens na comunidade UFMG, pensei sobre a necessidade de conversa, debate, elaboração do momento brasileiro atual e sobre como ele é desanimador para os jovens, cujo horizonte está de fato sombrio, sem perspectivas. Ou com perspectivas ainda piores que as atuais.

Proponho falar sobre isso: tristeza; luto; desejo de morte; e também, no entanto, e sempre, há possiblidade de renascimento e inventividade dos modos de viver… algo difícil mas com o que precisamos sonhar, pois desistir é muitas vezes um impulso muito forte, poderoso, extremo.

Convidei meu orientando Charles Valadares a trabalhar comigo, retomando algo que fiz em pequena escala nos anos da graduação em Psicologia na PUC-SP: a construção, com caixinhas de fósforo e palitos, de pequenos túmulos.

cemitério blue jeansA morte permanece um tema tabu na contemporaneidade. Mesmo entre artistas, há quem se recuse veementemente a pensar sobre o tema (simples assim).

Pensar, criar algo relacionado a morrer, fazer a criação acerca da morte circular, penso ser curativo.

Curativo no sentido etimológico: curar é cuidar.

Poder conversar, silenciar, perceber que tudo que nasce morre; pensar, sentir e elaborar a morte, a desistência, o luto, por meio das possibilidades artísticas é algo que proponho desde os “Cacos de infância”, meu mestrado (que aconteceu entre 1999-2001).

Aliar um tema tão sério e temeroso (na nossa maneira ocidental de viver) ao brincar penso ser uma brecha, uma proposta liminal, o rabisco de uma antiestrutura.

Também falei sobre brincar em cemitérios em um artigo publicado em 2016, cujo título é paradoxal propositalmente: Um cemitério vivo.

Certamente querer tocar na morte é também o que me aproximou da estética da arte butoh. Eu me lembro de minhas primeiras experiências como espectadora de minha amiga Emilie Sugai; ao final eu a procurava no camarim, e por muitas vezes chorava… mas era um choro de gratidão, pela grandeza de sua dança e do que aquilo me proporcionava. Nem sei até hoje ao certo como colocar em palavras o que é que isso me proporciona. Tem a ver com o silêncio e a solidão; tem a ver com o vazio e com o vazio cheio que a dança pode carregar.

O subtítulo do livro Cacos de infância é “teatro da solidão compartilhada”.

De certo modo quero proporcionar algo na mesma chave para/com meus alunos também. Quero tocar na morte para que possamos voltar, permanecer, e sonhar a vida. Nas suas possiblidades mais possíveis hoje, o que revela saúde mental e psíquica, mas nas possibilidades mais impossíveis, pois faz parte também – como campo do fazer artístico (outra saúde… a saúde profissional, fazer arte como invenção de si, com o outro e no mundo; fazer arte para criar novos mundos; fazer arte para protestar e contestar o velho mundo).

Estes tumulinhos foram um sucesso junto à professora pesquisadora Maria Helena Pereira Franco Bromberg, que dirigia (e entendo que ainda dirige) o LELU – Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto – na década de 1990 na PUC-SP. Ela disse que era muito difícil achar materiais que propusessem o brincar acerca da morte.

Realmente qual fabricante de brinquedos brasileiro o faria?

a mulher que matouExceto nas culturas onde há festas e ritos que comemoram a morte como passagem, meu amigo o pintorou ainda, nas culturas onde há espaço para um tipo de humor, não vemos objetos da cultura produzida por adultos construídos de tal modo que conversem com as crianças. Destaco duas exceções de peso, na literatura: Clarice Lispector e Lígia Bojunga Nunes, que escreveram, respectivamente: A Mulher que Matou os Peixes e O Meu Amigo Pintor.

São referências importantíssimas. Quando as leio tenho (ainda e sempre) vontade de chorar – mas é um choro de gratidão e pertença, por elas se disporem a falar sobre a morte com crianças e jovens leitores, a seu modo. A Mulher que Matou os Peixes tinha ficado responsável por cuidar do aquário de outra pessoa e não deu conta… O Meu Amigo Pintor é um artista que fez amizade com um menino do mesmo prédio onde morava e mantinha seu ateliê, e se suicida. O livro é construído tal como um diário dos sentimentos e pensamentos do menino, que na história tem cerca de onze anos. No diário ele vai relatando que ninguém quer conversar com ele sobre o que de fato aconteceu. O livro é brilhante por encarnar uma forma-conteúdo: uso da metalinguagem sobre como a morte – e especialmente o suicídio – são temas tabu, principalmente diante das crianças.

Gosto muito do dizer da Françoise Dolto de que as crianças tem direito à verdade.

Que acham disso tudo?

pequeno túmulo

6 comments for “Tenhamos uma conversa franca e sincera, olho no olho

  1. Denise
    19 de junho de 2017 at 18:34

    Marina,

    muito legal a iniciativa! Precisamos encarar abertamente os fatos e conversar mesmo sobre o tema!

    Um abraço!

  2. 20 de junho de 2017 at 21:51

    Alunos sortudos!!!

    • Raiane
      27 de junho de 2017 at 21:57

      Somos! Muito mesmo.

  3. Morgana
    21 de junho de 2017 at 01:22

    As crianças ao meu redor encaram a morte de forma natural, estava lá já não está, os adultos ao meu redor temem até a palavra m o r t e; eu penso em vive-la toda vez que meu orgulho eh ferido, e que preciso de muita força, humildade, medo e vergonha pra aceitar meu erro, levantar a cabeça e seguir… o bom e o mal do mundo por que sempre segue e nunca para com sua dor, mas nós precisamos para aceitar, viver e seguir.

  4. Maira Lima Públio
    10 de julho de 2017 at 20:43

    Ei, Marina

    Estou aqui ainda um pouco provocada pelas aulas e hoje quando li a respeito desse trabalho do Ricardo Basbaum, lembrei do incômodo relatado pelos alunos com a presença do tumulinho (e também do pato). Ainda não li o texto todo, mas achei interessante a semelhança com a proposta de ter uma experiência artística, ainda que o NBP não transmita nenhum afeto a princípio, a força de ambos está no experenciar. Bonita a parte que ele diz:

    “Entretanto, ele escolhe um nome e um processo que não deixa de fazer uma aposta na vida e na produção subjetiva como um operação estética e ética. Há nesse sentido uma inadequação entre a arte, tão incerta, falha e ambígua e a idéia de criar novas bases para a personalidade através de uma experiência sem garantias”

    http://www.revistacinetica.com.br/nbpbasbaum.htm

    • agachamento
      11 de julho de 2017 at 06:05

      Oi Maíra!
      fico feliz que tudo que vivemos continue ressoando… em vc (com o outro, no mundo)
      muito legal mesmo a matéria que vc trouxe e a repercussão do “experimento” — como arte, na vida
      bjos
      da Marina

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