Pegue um grupo de crianças de zero a cinco anos… OU Eu vou pra Florianópolis

Vou falar em Florianópolis / CEART – UDESC

No dia 6 de junho, terça-feira, vou falar sobre “arte e infância” no CEART da Universidade Estadual de Santa Catarina. Quando convidada, criei um título e uma sinopse:

 Arte, fenomenologia e infância:

uma via menos percorrida

Sinopse:

Esta conversa introduz os interessados na leitura fenomenológica da infância às noções de “criança performer” e de “abordagem espiral” no ensino de arte, tal como pensadas e propostas por Marina Marcondes Machado. A compreensão da criança como performer nos leva a uma atitude adulta que remete àquilo que a Sociologia nomeia “atores sociais protagonistas” – não se trata da adesão ao conceito de performance nas artes cênicas, o que implicaria em pensar crianças como mini-adultos ou mini-artistas, mas antes, a filiação à performance como modo de ser e estar no mundo. Nesta chave, adultos e crianças são protagonistas em seus mundos de vida; para que isso efetivamente aconteça, o campo da educação pode ser repensado, reproposto, redesenhado, especialmente em seus âmbitos criativos. São eles, na infância: os campos da brincadeira e das artes, da palavra falada e do gesto espontâneo. Nosso ponto de vista terá como lente a abordagem espiral para a re-escritura daquele campo de conhecimento, na qual teatro, artes visuais, música e dança não serão consideradas “linguagens” – e sim “âmbitos artístico-existenciais”.

Penso que os grandes temas de minha fala serão, então: uma noção de infância (contida na expressão “criança performer”); uma noção de arte (contida na expressão “âmbitos artístico-existenciais”); uma noção de arte e educação (contida na expressão “abordagem espiral”). As três noções misturadas, mixadas, hibridizadas, dão caldo para uma ciranda, para uma brincadeira de roda, para uma teatralidade rica em imaginação e faz de conta.

Por “via menos percorrida” quero dizer a Fenomenologia, que pode ser lida e apreciada na obra, por exemplo, de Paulo Freire. Trabalhar arte com crianças muito pequenas é trabalhar a autonomia. Autonomia para ser o que se é. Aprender a falar a fala falante, aquela recheada de expressividade e transformação.

Não gosto de ser considerada “especialista”, mas estou feliz pelo convite para falar das relações entre adultos e crianças, acontecidas pela arte na pequena infância. Também me atrai a possibilidade de falar em público e provocar a audiência no sentido de desnaturalizar a arte definida como “linguagem”. Todos dizem isso tal qual se fala sobre uma obviedade! Como e quando isso aconteceu? Qual o conforto que essa definição traz, para estar assim tão arraigada entre nós?

Não vou desmentir, vou afirmar que arte como linguagem é um dos modos de definir arte.

E proporei outro: imaginem que é próprio da existência dos entes humanos o fazer artístico. E nessa imaginação localizem âmbitos: lugares, modos de habitar. Teatralizar. Espacializar. Corporeificar. Musicalizar. Os verbos desenhados como mapas: lugar das teatralidades; lugar das espacialidades; lugar das corporalidades; lugar das musicalidades. Agora misture os lugares, como se fossem serpentinas que se espiralam. Pronto: você concretizou, por meio das minhas “instruções de jogo”, a abordagem espiral no ensino das artes, concebidas como âmbitos artístico-existenciais.

Agora te proponho que as “instruções de jogo” se tornem “roteiro de improviso”:

Pegue um grupo de crianças entre zero e cinco anos. Peça ajuda a outros adultos… para levarem o grupo ao jardim; ao quintal; ao pátio; a um lugar com céu aberto e visível. Com sol da manhã.

No quentinho do sol converse com eles devagarinho. Solicite que fechem seus olhos, para sentir o amarelo.

Diga que quando menos esperarem podem ficar vermelhos!

De vergonha? De raiva? De amor? De sol forte?

Ao abrirem os olhos vejam o verde! Procurem por ele. Debaixo da árvore. Na blusa do Lucas. No balde da dona Antonia. Na ervilha torta, verdura no prato do almoço?

Em seguida sugira o roxo.

O roxo tem uma irmã gêmea, a lilás. Vamos brincar de esconde-esconde com eles?

No pique estava o azul. Desceu do céu por um instante. Está procurando pelo Branquinho, apelido do filho do músico Egberto Gismonti quando era nenê.

Nessa hora volte em câmara lenta para a sala, e ouça com todos eles o disco Branquinho, de Egberto Gismonti.

Pare de falar. Deixe que a música fale, e toque, e ela própria proponha o imaginar.

No final, na hora de ir embora, peça que cada criança diga em casa como foi que conheceu o branquinho.

Na próxima semana, traga um roteiro de improviso que os introduza a Luiz Melodia: o Negro Gato.

Depois disso, construa um projeto de escuta, fruição e rodas de conversa com o som de artistas brasileiros negros: Itamar Assumpção gravou uma maravilhosa trilogia “Pretobrás”. (Quer algo mais atual que isso?)

Que acha disso tudo?

Quais foram os “conteúdos” trabalhados até aqui?

Você pode dizer que esteve, neste dia, pelos caminhos da educação em favor da mistura étnico-racial própria do Brasil?

Se sim, como e por que?

Se não… comece tudo de novo.

Pegue um grupo de crianças de zero a cinco anos…

Por que eu não pensei nisso antes? Postar no Agachamento Itamar Assumpção!

O CEART fica na Av. Madre Benvenuta 2007, o encontro será a partir das

14:00 hs do dia 06/06/2017 no Espaço 1 do Bloco de Artes Cênicas / UDESC

6 comments for “Pegue um grupo de crianças de zero a cinco anos… OU Eu vou pra Florianópolis

  1. Mayron Engel Rosa Santos
    2 de junho de 2017 at 09:03

    Que maravilha Marina! Obrigado!! Adorei as resignificações: “âmbitos artitisco-existenciais” e “abordagem esperial” gostaria de ler mais sobre o assunto, tem algum artigo ou outros textos!?
    Aguardo! Obrigado

  2. Heloise Baurich Vidor
    2 de junho de 2017 at 09:48

    M U I T O B O M!!
    Ansiosa por te ver/ouvir ao vivo e em cores.
    Abração.

  3. Lucas Fabrício
    3 de junho de 2017 at 12:57

    Que texto maravilhoso, Marina! Enquanto lia por aqui, fui imaginando, me vi no parque, brincando com as cores… ouvindo os sons…
    Muito sucesso em Santa Catarina!
    Aproveitando, que belo encontra na sexta!
    Seguimos!

    Beijo!

  4. Nado garcia
    15 de junho de 2017 at 20:27

    Bravo Marina, tenho certeza que foi muito bacana,um beijo. N.

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