Polimorfismo da maçã ou Convite à leitura do dossiê Performance e Escola

Saiu o dossiê Performance e Escola por esses dias, nos Cadernos Cedes da Unicamp. Uma coletânea de artigos desenhada por Gilberto Icle, que tomou a iniciativa, junto com Mônica Bonatto e Marcelo Pereira, de convidar algumas pessoas que estão estudando/praticando algo relacionado ao tema. Foi um longo processo, que durou quase dois anos: decidiram organizar o dossiê e em seguida procurar por onde publicá-lo (a mensagem de convite para participação chegou via email no dia 5 de maio de 2015).

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Para mim o interessante do “longo processo” foi ter a oportunidade de escrever um texto por camadas; sem pressa; acompanhando a vida mesma, pois, em novembro de 2015, o fenômeno das ocupações das escolas explodiu. Esse acontecimento modificou radicalmente o rumo da escrita e da possível conclusão do texto Guerra de maçãs, que penso ter resultado, em sua forma final, em um ensaio. Curiosamente, por meio deste texto obtive o parecer mais positivo e elogioso ‘desde sempre’ na minha vida acadêmica.

Aconteceu um verdadeiro work-in-process / trabalho em processo na minha escrita. Tenho registros importantes nos meus diários de trabalho, que mantenho como rotina. O ponto de partida foi o pedido para que minha irmã Mônica escrevesse para mim um parágrafo descrevendo uma situação difícil pela qual ela passou como professora do Ensino Fundamental em uma escola paulista de período integral: uma guerra de maçãs na hora do almoço.

No mês de março tive a chance de comunicá-lo parcialmente em São João Del Rei, para os pós-graduandos do Programa de Pós-graduação em Educação, em uma aula inaugural. Percebi como era importante a hermenêutica, isto é, a rede de remetimentos acerca da maçã, e levei dez maçãs para que, em certos momentos demarcados previamente por mim, eu doasse uma maçã por vez a alguém na plateia. Também decidi dar as pausas no texto por meio do instrumento de meditação “Pin”, uma espécie de sino. Isso criou, em ondas, uma atmosfera incrível de silêncio significativo.

E no final, dois comentários/elogios muito bonitos me deixaram feliz. Um rapaz perguntou: Como você consegue escrever tão leve?

E o outro disse: Achei do caralho…(rs), e seguiu dizendo que, para ele, era inédito alguém que de fato bancasse a experiência da corporalidade concomitante à comunicação acadêmica. Ao menos foi como entendi seus dizeres.

Ao primeiro, agradeci, mas disse que consegui porque “ralei”. Sim, como disse tenho registros de todas as etapas da criação do texto Guerra de maçãs. Foi um processo longo, intenso, e cheio de altos e baixos. O texto final não “me veio” simplesmente; ele foi trabalhado como “escrita falante”, ao longo de meses e por meio de diferentes versões.

Ao segundo, expliquei que sim, um dos braços da minha pesquisa acadêmica é comunicar textos performando.

Agora, neste caso especificamente, penso que, por meio da temporalidade dilatada para a escrita, acontece que o próprio texto Guerra de maçãs performa.

Gosto especialmente de dois momentos. Vou citá-los para dar curiosidade no leitor desta postagem em acessar o dossiê.

Num momento, digo o que penso ser o ensino da arte:

Proporei pensar a partir do meu campo de trabalho, o território artístico; inicio com o risco de um caminho existencial e relacional traçado de tal maneira que arte não poderá ser sinônimo de “projeto social”, benevolência ou adestramento. Arte é território potente de habitarmos o espaço corpo próprio e cohabitarmos o espaço mundo compartilhado; arte é uma possibilidade relacional que espacializa imaginações; arte é criação de muitos e muitos mundos: possíveis e incompossíveis. Arte não é maneira de “tirar o menino da rua”, “tirar o menino das drogas”: arte é algo que pode estar na intensa experiência da rua e que dialoga, indubitavelmente, com o recorrente desejo humano de drogar-se, anestesiar-se, jogar fora o alimento…

Outro momento, já no final, quando advogo pelo direito à salada de frutas:

Entretecemos tempos, espaços, materiais e interações de modo espiral e brincante no tear de páginas deste texto; por fim reivindicamos como direito de todas as crianças e jovens no Brasil: comer salada de frutas e brincar de frutaria de barro e papel maché; arrumadas em prateleiras ou caídas no chão, lá estarão as maçãs de argila à espera de serem (des)arrumadas por brincadeiras imaginativas. E, do lado de cá, as maçãs para serem comidas; que crianças e jovens – tendo comido bem – cantem expressivamente, corram, saltem, agachem-se, brinquem de estátua (sem nunca perder seu dinamismo e movimento); que envolvam-se nos mais diferentes tipos de dança, escrevam prosa e poesia, ampliem seus referenciais em arte, ciência e humanidade, rumo aos mais diferentes tipos de ocupação: desdobramentos da morada de si, com o outro, no mundo compartilhado.

Por tantos anos estudando o modo de pensar do filósofo Maurice Merleau-Ponty, que nos convida a um tipo de escrita e fala falante – contraposta à fala falada, simplória, objetivista – posso dizer que, por meio da construção de um texto por dois anos, atingi algo inédito no meu processo criativo com a palavra. Agradeço aos organizadores do dossiê pelo convite que se tornou um desfio!

Quero muito que os leitores do Agachamento confiram. E comentem.

Para acessar o dossiê Performance e Escola como um todo, procurem pela edição atual dos Cadernos Cedes.

 

 

 

 

 

5 comments for “Polimorfismo da maçã ou Convite à leitura do dossiê Performance e Escola

  1. Mayron Engel Rosa Santos
    8 de junho de 2017 at 22:29

    Sensacional! Fascinado com sua escrita, percepção teórica sem perder a sonhada base para uma experiência existencial relacional frutífera… Obrigado!

  2. Mayron Engel
    9 de junho de 2017 at 17:19

    Essa notícia me lembrou a suas palavras Marina: escritas são sementes que plantadas após lermos virão flores!!

    http://www.hypeness.com.br/2016/09/jornal-ecologico-vira-planta-depois-de-ser-lido/

    • agachamento
      9 de junho de 2017 at 19:45

      Sim, interessante Mayron! Parece ser algo também relacionado com… “histórias comestíveis” (rs rs)
      Fico feliz com sua disponibilidade para o Agachamento!
      Obrigada
      Marina

  3. Nani
    13 de junho de 2017 at 13:16

    Inspirada por poder saborear e me nutrir dessas ideias agridoces.
    obrigada, Marina!!

    ps: por aqui, (h)a fome (que) lembrou um alimento poético:
    http://suciologicus.blogspot.com.br/2010/05/o-pao-do-povo-b.html

    beijo!

  4. Mônica
    23 de julho de 2017 at 19:23

    Eeeehhhhh!

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