Criação: parâmetros e limites, fronteiras e aberturas

Uma proposta minimalista

 Cada aluno do curso “Brincar, criar, teatralizar, viver” (Escola de Belas Artes, UFMG, prédio do Teatro nas sextas-feiras de tarde) recebeu, na aula do dia 7 de abril, um brinquedo e um brinquedo-sucata. O material é comum a todos, e tem esta cara:

material inicial

Propus prepararem um ato performativo, com duração de apenas um minuto, a partir destes dois elementos. Parto do pressuposto de que será um dizer autobiográfico – sempre é: segundo Saramago e muitos outros artistas… tudo é biográfico!

Será  um “exercício avaliativo” e causou alguma ansiedade, e diferentes tipos de dúvida. Alguns alunos sentem que não poderão ser de fato criativos… consideram que estou dirigindo demais, com um comando que posso resumir aqui em:

Crie um dizer com duração de um minuto

a partir de sua corporalidade

e desses brinquedo e brinquedo-sucata.

Chamo esse tipo de enunciado de roteiro de improviso. Tenho como fio condutor a seguinte frase do psicanalista Winnicott: Em nenhum campo cultural é possível ser original, exceto numa base de tradição. Winnicott amava paradoxos. O paradoxo desse dizer é a conexão entre tradição e inovação.

Qual tradição evoco no enunciado do exercício proposto aos alunos?

A tradição da performance. (Sim, a performance já é um campo cultural estabelecido!)

Há mistura entre brinquedo feito pelo adulto (o pequeno pato) e a hipótese de brincar com as coisas do mundo (um papel alumínio que foi tampa de iogurte).

Há mistura entre ser livre para dizer o que quiser, no entanto com uma moldura comum a todos, e dada, elaborada por mim: os materiais e o tempo de um minuto.

Uma hipótese para o estranhamento do jovem aluno estaria em uma crença de que, para criar, não precisamos – ou ainda, não podemos ter! – nenhum parâmetro, limite ou fronteira. Caso contrário (com parâmetros, limites e fronteiras) não haveria liberdade de criação.

o pato dormiuA crença da não necessidade da presença de um Outro condutor para seguir o caminho criativo é, do meu ponto de vista, ilusória: especialmente no ensino de arte. Se deixarmos tudo aberto, tudo muito à vontade, as zonas de conforto poderão nos tomar de tal modo… que dormimos no colchãozinho (rs). Fazemos o que já sabemos.

Uso o deitar como imagem para uma posição onírica e que não requer ações mais complexas, inusitadas, de risco. Presença acordada… acorda patinho!!

A chave do enigma dessa proposta comum a todos: “usar” os dois objetos para mostrar algo que surpreenda o grupo; o foco é a possibilidade de compartilhar sua ideia, criação, sentimento-pensamento, e perceber o mesmo dos outros… sob o mesmo comando, com os mesmos materiais… dezessete pessoas vão expressar sua relação com a proposta, os dois brinquedos, e com o curso até agora.

Decifrar o enigma é abrir-se para a propositiva, criada por mim. Trata-se de estabelecer uma relação de confiança. Parecido com o jogo de andar por aí vendado com alguém nos conduzindo. Entregar-se e ligar-se noutras possibilidades, que não a da racionalidade ou da liberdade não-situada. Na conexão por nós trabalhada, a liberdade não-situada é uma ilusão de liberdade. A moldura é a possível “aula de artes” – que agora nomeio “ato performativo”.O mote é procurar agir desse mesmo modo no cotidiano como professor:

Ofertar algo ao aluno.

Desafiá-lo a algo enigmático.

Trabalhar a criação com pequenos parâmetros dados por você = professor-artista condutor.

Deixar acontecer. Depois, reuniremos todos os atos performativos de 1 minuto em tempo real. Disse a todos que isso é performance. Simples assim.

Para quem quer saber mais, indico dois autores muito importantes: Allan Kaprow (artista) e Marvin Carlson (estudioso da performance). E como referência brasileira, Eleonora Fabião, sempre. Ela  dialoga com o uso desses roteiros, e os nomeia roteiros de ação – já fazem parte hoje, como disse no início do texto, da tradição performática. Os roteiros performativos são sempre bastante abertos e podem mudar a qualquer momento, por serem relacionais, e dados de fato no acontecimento – não no papel escrito. Procurem via google, gente, ta tudo lá!

Quem vem?

retrato dos alunos

 [Aviso importante: A aula que vai reunir todos os minutos será dia 5 de maio]

 

 

 

2 comments for “Criação: parâmetros e limites, fronteiras e aberturas

  1. Raiane
    18 de abril de 2017 at 00:06

    Eu vô(o)…

    • agachamento
      18 de abril de 2017 at 09:55

      sim, teremos aeroporto
      bjs

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