Pequena visita ao filósofo Benedito Nunes (1929-2011)

Ainda sobre os elos arte-e-vida

Fui a uma banca de mestrado e, para arguir, retomei a leitura de um livro simples e importante, de Benedito Nunes: Introdução à filosofia da arte. Infelizmente, ao escrever esta postagem, descubro que o livro está esgotado. Ele publicou a primeira edição em 1967; tenho uma edição revista de 1989 (Editora Ática, SP).

bene? na sua casaBenedito Nunes é um filósofo brasileiro nascido no Pará e que estudou Heidegger como ninguém. Foi também um grande estudioso de poesia, escritor e crítico literário. Morreu no ano de 2011. Tive o prazer de conhece-lo pessoalmente, na década de 1980, pois era praticamente padrinho [intelectual] de meu ex-marido Valdir Sarubbi, também paraense.

Seu livro é extremamente didático sem perder o rigor e a inteligência. Destaco aqui, nesta postagem, citações do texto final – nomeado “Epílogo” – no qual o Bené, como era carinhosamente chamado, procura anunciar o que acontecerá no campo de conhecimento (e vida!) da arte.

Lá ele escreve, conversando com o leitor sobre “abstração”:

Saturado de coisas fabricadas, de mercadorias, de materiais novos, fechado na outras memo?riasarmação das grandes cidades, e aí em contato com a segunda natureza que a técnica em expansão contínua acrescentou ao mundo físico ou natural, submetido à ação de forças anônimas desencadeadas pela produção industrial, o artista necessitou domar as circunstâncias, alargar e ordenar sua experiência, inventar as formas claras que se sobrepusessem à confusão. Demiurgicamente ele delineou a figura do cosmos latente na massa caótica com que se defrontou. A abstração na pintura, na escultura, e até na literatura, não é tanto uma renúncia, como a afirmação do impulso artístico que, em luta contra potências estranhas, objetivas, impessoais, da sociedade moderna, contribui efetivamente para humaniza-las. A arte sempre dispõe daquela força regeneradora, ideal num certo sentido, cujo efeito foi apontado por Schiller nas cartas Sobre a educação estética: o estabelecimento das primeiras relações liberais entre o homem e o universo. (pg 122)

Penso ser um texto extremamente lúcido e elegante que deixa explicitada a posição do autor de que arte é sim um caminho político de mudança e de apreensão de mundo:

o dorso do tigreSe, como exige Herbert Read, o artista deve criar imagens de um novo mundo possível nessa era de transformação científica, a liberdade de criar, que ele conquistou, impõe-lhe uma tremenda responsabilidade, à qual não pode fugir. (pg 123)

E, como estudioso de Heidegger que é, Benedito Nunes associa a arte a um jogo com as possibilidades da existência e do ser. Assim ele nos anuncia a direta relação arte e vida no modo contemporâneo – novamente com lucidez e elegância:

(…) a criação se associa à experiência metafísica do desnudamento, através da linguagem, da situação do homem no mundo.

Trata-se, segundo o filósofo, da procura de uma nova linguagem:

É muito significativo que, atualmente, a poesia, nas suas expressões de vanguarda, mesmo correndo o risco de ficar detida no “grau zero da escrita” – para o qual, segundo Roland Barthes, a literatura tende, em consequência da substancialização das palavras, utilizadas como objetos, com o sacrifício do seu valor transitivo de comunicação – ande à procura de uma nova linguagem.

E segue anunciando que a procura da novidade vai abrir um campo de possibilidades para os “homens do século XX” (expressão do filósofo) cuja pergunta seria:

Esta perspectiva utópica, da arte realizada na vida, não é uma das grandes aspirações do artista contemporâneo? (p.124)

Gosto muito do caminho que o professor vai tomando! O “Epílogo” é um texto pequeno mas denso, cheio de giros hermenêuticos:

Mas, dir-se-á, a arte realizada na vida anula-se como arte. Não haveria mais memoriae (cristais de luz)diferença entre ser e criar, existir e produzir. O trabalho criador não seria mais privilégio dos artistas, mas a condição universal do trabalho humano. O homem encontraria beleza nas coisas úteis que produzisse para satisfazer as suas necessidades primárias, e fruiria da utilidade imediata das coisas belas. Mas isso só poderia ocorrer extinguindo-se a dualidade da práxis, ora produtiva, ora expressiva, para que o homem pudesse expressar-se em tudo quanto produzisse, e nada pudesse produzir que não fosse expressivo.

Benedito Nunes escreveu este “Epílogo” (para seu primeiro livro) no final da década de 1980, como apontado no início desta postagem. É muito interessante ler sua “utopia” para o futuro da arte e do artista. Muito tempo antes do jargão “arte relacional”, por exemplo, ele vai nos levar lá – a um lugar sem fronteira, híbrido, e cujo significado é “transcender a realidade” (suas palavras):

O artista contemporâneo, inquieto, estimulado por tantas modalidades de experiência, do presente e do passado, tendo à sua disposição, para contemplar e aproveitar, as formas artísticas que herdou, continua sendo impulsionado por essa tendência, que sempre conduziu a atividade criadora em todos os tempos. (pgs. 124-25).

Assim chegamos ao ápice de seu texto, ou seja, à sua conclusão própria do que estaria por vir:

Mas, hoje, dada a consciência crítica que conquistou, e que nele se tornou uma práxis lúcida e reflexiva – gerando obras que participam da inteligência racional e que exigem do contemplador, além da simples receptividade emotiva, um esforço de penetração intelectual –, o artista contemporâneo não se contenta apenas com ser o agente da aparência estética que se sobrepõe à realidade. Quer, também, criar uma nova realidade, transformar o possível em real. O Adrian Leverkühn, de O doutor Faustus, de Thomas Mann, traduziu essa aspiração, que define o destino da atividade artística de nossa época:

A arte quer deixar de ser uma aparência e um jogo, quer tornar-se um conhecimento lúcido.

*

Achei das mais interessantes a virada, no texto, do lúdico ao lúcido. Eu penso inúmeras vezes desse modo também, diante de uma espécie de banalização do que é a palavra, e a concretude, e os simbolismos, para “o lúdico”. Especialmente os pedagogos gastaram a potência deste termo. O brincar é também, agora, e já disse isso outras vezes no Agachamento, bandeira para a indústria do sabão em pó (!). Sugiro então que os que tiverem a mesma impressão e estão por aqui agachando que pensem outros modos de dizer… Prefiro a palavra brincante, e também, a criação lúcida. Significaria com luz; com possibilidade de clareza; nos termos heideggerianos, clareira.

Habitar o próprio corpo é brincar, é ser brincante – iluminar e ocupar, de modo lúcido, a espacialidade do mundo circundante. Do “ao redor”. Luz ao redor. Velas, sol, lanterna, fósforos, razão imaginante. Talvez isso mudaria a chave do caminho intelectualista que muitas vezes o artista educador de crianças e jovens tomou… Ou não?

antigos duen?os de las flechas

As imagens desta postagem são todas registros da obra do artista e educador

Valdir Sarubbi (1939-2000)

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