Arte e vazio

 Aproximação arte-e-vida, em todas as idades, com todos os seres viventes

cantoSe o Agachamento tem uma bandeira, ela é a recusa da divisão da vida humana por etapas, idades, especialidades…

Por vezes chamei essa recusa de “não-desenvolvimentismo”.

Depois percebi como não era interessante negativar o “outro modo”, e passei a usar palavras mais potentes. Uma delas é liminaridade. A vida é liminal. As relações acontecem sem fronteiras definidas, e a maturidade da criança, por exemplo, por vezes é surpreendente – bem como a criança se manifesta, toda a vida, no adulto, por meio da ingenuidade ou pouca experiência em diferentes situações.

Por “liminaridade” os sociólogos que pensaram a performance definiam um lugar entre; uma fenda; uma brecha; um risco de fronteira… uma intersecção entre fronteiras… É interessante pensar assim pois é uma noção análoga ao espaço potencial de Winnicott (lugar virtual e relacional entre a mãe e seu bebê), e é algo que conversa com um conceito japonês de espaço, [MA]: vazio; espaço intervalar; algo – não uma substância nem uma concretude – a ser preenchido e ocupado por pessoas; silêncio entre as palavras; distância entre objetos, e entre tempos.

Estou estudando a espacialidade [MA] que se tornará uma espécie de véu, nuvem ou subtexto para uma encenação que estou preparando com dois ex-alunos. O tema desta encenação é a morte de bebês durante suas vidas intra-uterinas. Um tema dificílimo; um tema tabu; um tema ele mesmo liminar: imagine, para a gestante que carregava vida, passar a carregar morte – e pari-la. Eu vivi isso em meu corpo, trinta anos atrás. Essa experiência me fez uma boa espectadora da arte butoh: um caminho de criação que certamente pode ser designado por liminal.

Também a liminaridade é uma palavra dita, escrita para as fronteiras entre viver e fazer arte. Haveria um interstício, um tempo-espaço feito de lacuna e silêncio, no qual a existência (feita de nascimento, vida e morte) é/coincide com a experiência estética.

Gosto muito do seguinte escrito de Kazuo Ohno:

De maneira nenhuma pode-se dizer que não haja nada em um palco vazio, num palco que se pise de improviso. Pelo contrário, existe ali um mundo transbordante de coisas. Ou melhor, é como se do nada surgisse uma infinidade de coisas e de acontecimentos, sem que se saiba como e quando.

Tenho pensado muito no vazio e nos intervalos. (Isso é maturidade?)

Senti, ao longo de anos de trabalho em formações para professores, que quase todo educador da primeira infância tem medo de espaços vazios. Consideram que o espaço vazio convida ao caos e a um tipo de corporalidade de briga e conflito… Eles acreditam que “as coisas” no espaço são suas intencionalidades (uma palavra filosófica bastante deturpada no discurso pedagógico corrente), e que o adulto tem que ter propostas eficazes e objetivas… No âmbito da arte, pensar assim mata a liminaridade, o risco, o imprevisto. Nega a potência improvisacional da relação da criança com espaços vazios, a serem preenchidos pelos corpos próprios em movimento, vividos: caminhadas pelo espaço; instalações; pequenas cenas de encontros e trombadas; etc. Trombadas! (É o que as professoras temem…rs)

Tenho pensado em fazer um projeto voltado à pequena infância e às professoras… tematizando o vazio. Escrever sobre possibilidades de criação, quando há brechas, incompletude, fazer convites à criança para que ela “ligue os pontos”… no vazio!, que é a cheiura de possiblidades que o espaço vazio pode conter. Isso significará, no meu ponto de vista, um grande, bonito e denso trabalho corporal e imaginativo, ao mesmo tempo: imaginação performada; invenção / intervenções sutis no espaço feitas pelo adulto, para o “achado” da criança. Espacializar imaginações. Imaginar espacialidades. Criar um livro (anti) didático que remeta à vida mesma, como convite a atos performativos entre adultos e crianças. Um livro que converse com os adultos na direção da sustentabilidade e da possibilidade contida no vazio; low profile, slow profile… lentidão propositiva.

A proximidade arte-e-vida já acontece, quando os adultos são ‘suficientemente bons’, e deixam seus filhos nuvemexplorarem a praça, o ponto de ônibus, o corredor do quintal do vovô. Usar os cantinhos! O que não é sinônimo (por favor!) para a pedagogia dos cantos (arrumados pelo adulto, com bases e estruturas cognitivas tão sólidas que se desmancham no ar… E ai se uma criança quiser ir de um canto ao outro com coisas na mão e “misturar”—já vi esse filme!, as educadoras piram e consideram bagunça improdutiva). Bagunça há que ser uma enorme palavra-chave para experimentar arte. Não há criação nem ato performativo sem desorganização: ir de um certo caos para outra forma, (des)arrumar o faz de conta, misturar tintas na medida… o que certamente antes passa pelo exagero daquele grande marrom ou roxo que as crianças pequenas atingem, quando deixadas livres para a mistura. (Alguém ta deixando?)

Bagunça pode sim combinar com intencionalidade – não no sentido banal, que é similar a intento e objetivo – mas no sentido filosófico, que implica numa consciência que se lança. Lançar-se a um projeto; projetar-se.

A intencionalidade é relacional. Sempre. Quero propor a bebês modos de perceber que o corpo engatinha. Nunca conseguiria obriga-los a sair engatinhando! Eu proponho… eu infiro… eu brinco… eu mostro sendo eu mesma leopardo e tatu. Eu evito o gatinho e o miau (diminutivos e simplificações): eu amplio e encarno no corpo uma mesinha e suas quatro pernas palito. Intencionalidade criativa é isso: fluxo. Fruição. Jogo. Riso.

Excesso de pranto ri, excesso de riso chora (tradução de um verso de William Blake).

E para que haja “um clima de engatinho” eu penso em objetos e rolinhos de tecido; eu pesquiso o que outros educadores fizeram nessa direção; eu tenho paciência – e espero.

Ter paciência e esperar parecem ser as qualidades do espaço [MA].

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Estou no início deste estudo; parti da importância de perceber a riqueza do vazio… debaixo da ponte, no buraco, dentro do túnel; duas cadeiras viradas uma para a outra. Espacialidades propõem um modo de relação. Sempre. No mundo da educação o vazio não será sinônimo de falta ou pobreza.

 

 

O vazio seria lacunar, para que se achem coisas inusitadas e invisíveis: adultos e crianças.

O vazio é menos plasticoso e mais buraco na areia. (Mesmo que [provavelmente] feito com pá de plástico).

O vazio constata a solidão compartilhada. Expressividade em gesto e palavra. E silêncio.

Estar. Ser. Para depois fazer. Fazer algo com os achados. Dar um perdido. Deitar na rede. Olhar as nuvens. Cantar…

Se os adultos não agirem nesse sentido, não conectarem, a criança não adere, não imita, não procura mimesis. Não tem como ter ideia, sem um ambiente rico, propício, generoso para o uso criativo dele mesmo… Mais um ensinamento do Winnicott: proporcionar às crianças um ambiente facilitador.

O que não é sinônimo de facilitação.

Muitas das premissas de Winnicott eu enxergo como orientalistas. Ele sempre valorizou processos e dizia que vamos da dependência  total rumo à independência. Caminhos. Trilhas. Maneiras de tocar, andar ao lado, dar as mãos e continuar. No entanto sabemos que nunca chegaremos lá – nem deveríamos (a independência total não existe).

A continuidade das relações para Winnicott são essenciais. O adulto sobreviver, permanecer no mundo, mesmo depois do mais terrível ataque de ira da criança pequena. Isso gera confiança. Isso provoca o concern: capacidade de compreender o outro; comoção; comiseração.

O cinema tem tematizado isso, recentemente. Viram Eu, Daniel Blake? Viram A garota desconhecida? São filmes distintos mas que possuem um elo: retomada de uma simplicidade, de escuta e de acolhimento ao outro. E da possibilidade de consertar as coisas.

outonoO verão vai acabar; o outono sempre me deixou otimista.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 comments for “Arte e vazio

  1. 10 de março de 2017 at 23:30

    Marina querida,
    este seu MA pleno de possibilidades promete!
    abre-se um novo olhar e novas percepções virão neste seu espaço intervalar.
    beijos

    • agachamento
      11 de março de 2017 at 10:01

      Bom dia Emilie! Fico feliz, e honrada, com seu comentário… pois com você e por meio do seu trabalho que me “iniciei” como espectadora do butoh.
      Com carinho, sempre
      da Marina

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