A fenomenologia não é uma pedagogia

O Havaí é aqui

vou ao mundo

Tenho recebido algumas mensagens, por e-mail, de educadoras – jovens mães, bem como estudantes de Pedagogia – que estão frequentando o site-blog Agachamento com alguma frequência. Fico feliz! Feliz por fazer do Agachamento um lugar trankilo e favorável (rs): um espaço para ler, discutir, refletir, e, especialmente, meditar sobre as relações adulto-criança na contemporaneidade.

Em alguns dos e-mails, percebo o desejo de fazer do pensamento aqui veiculado (a Fenomenologia a partir de Maurice Merleau-Ponty, algumas noções da Psicanálise inglesa, e meus estudos próprios) uma prerrogativa pedagógica. Daí a escrita desta postagem aqui, agora.

Como diz o título escolhido… a fenomenologia não é uma pedagogia. (Soa estranho dizer o que não é… pois é próprio da fenomenologia afirmar, positivar o fenômeno observado, vivido, estudado, relatado… Chegarei lá, ao “que é”, mais adiante no texto). Quem melhor levou princípios fenomenológicos para um lugar pedagógico foi Paulo Freire. De minha parte, procuro trabalhar com os princípios da fenomenologia no ensino do teatro, mas o teatro é feito de tradição e experimentação em um campo de conhecimento, inserido na cultura educacional e artística brasileira, em diálogo com pessoas de teatro.

A expectativa das jovens mães é grande, por um modo de fazer, de ser e de estar, que deixe suas crianças… bem, saudáveis, felizes.

A fenomenologia não é uma cenoura ralada nem um chocolate caseiro! Rs

Estar agachada, perto da criança mesma, procurando que ela seja o que ela é, não garantirá saúde psíquica nem ausência de dor e conflitos.

Desse modo, o maior e melhor conselho que tenho para as mamães: não pretendam ser perfeitas!

É o que nos ensinou Winnicott, com sua obra de uma vida – atendimento de milhares de duplas de mães-e-bebês em hospital público, atendimento de centenas de crianças e de adultos em consultório de psicanálise, e muitas contribuições para políticas públicas inglesas, incluindo um programa de rádio na BBC de Londres, cujo público ouvinte eram as mães comuns (ordinary mothers). Winnicott criou a expressão the good enough mother, cuja tradução é meio bobinha…: a mãe suficientemente boa. Mas o cerne deste conceito ou desta maneira de ser não é nada boba: significa não querer ser perfeita (atenção, a perfeição é nociva!) nem ser desastrosa ou ausente…

O que é encorajador é que, para Winnicott, a maioria das mães comuns mostram-se, ao longo do tempo de dois e? umconvivência, suficientemente boas. Ele inclusive aconselha que as mães não leiam teoria (!!) durante o primeiro ano de vida de seus filhos. Isso porque o estado de fusão inicial entre a mãe e seu filho é muito semelhante ao estado de psicose. União na qual dois é um. Ficar lendo teoria poderia atrapalhar essa maluquice toda! Que tem hora pra acabar.

Bom, apenas com fins didáticos… vou incorrer novamente no erro de discorrer sobre o que agachar-se (como noção fenomenológica) não é:

• Não é presença em excesso

• Não é deixar brincar tal qual galinhas no quintal (uma vida “natural”)

• Não é extensão da fusão e da situação de amamentação durante a primeira infância inteira ou ad infinitum

• Não é fazer tudo que a criança quer (chamo isso de “queremismo”)

• Não é relação horizontal estrito senso (o adulto é racional, tem que cuidar, tem que zelar, e o bebê precisa disso, da racionalidade adulta, para ser e ter um “eu”)

Agora seguirei o raciocínio, então, na direção de o que é, ir ao chão onde a criança está:

Trata-se de uma atitude. Uma atitude inicialmente filosófica, pois a fenomenologia é um método filosófico – ou seja, um modo de pensar. Pensar as crianças como pessoas; e como pessoas que já são. Isso quer dizer que a infância não será considerada um tempo de preparação para outra etapa, fase ou maturação…

Trata-se também de uma qualidade para a atitude, que aproximo ao que Winnicott resumiu por “estar presente mo?bilee ausente” (daí ser nocivo estar presente acudindo a tudo e a todo momento). A saúde psíquica na infância estaria pautada em uma espécie de ilusão – ilusão de que sou eu que crio o mundo! (A isso a psicanálise clássica chama de onipotência). Daí a não horizontalidade: pois o adulto sabe que não, que o mundo já pré-existia… e o adulto faz intervenções nesse mundo; coloca o móbile no teto do quarto, faz a caixinha de música tocar, canta e murmura palavras de amor… Mas é importante que o bebê descubra a seu modo o móbile e tudo o mais; a seu modo e em seu tempo. E também é preciso deixa-lo não se interessar pelo móbile, pois isso pode acontecer.

A pressa e a vontade de “fazer acontecer” do adulto cuidador é ansiógena. Os bebês precisam de quietude e solidão. E do direito a ser lento. E a ser e não-ser também, por vezes.

Trata-se de uma solidão compartilhada. Estar no berço acordado, ouvindo os ruídos da casa: e não necessariamente ser pego no colo no primeiro minuto em que se acorda.

Estar brincando ao lado da mãe que lê um livro.

Ser e estar brincante. E ir se afastando – com o fio de Ariadne nas mãos (fio da mitologia, dado ao herói para que não se perca no labirinto…). Aliás, fios e cordinhas são brinquedos-sucata que atraem e agradam os bebês; Winnicott diz que o cordão tem um papel protetor e imaginativo: lembrança (ao mesmo tempo, concreta e imaginativa) da existência da mãe.

Agachar-se é atitude que favorece a solidão compartilhada.

É algo relacional.

É cultivar uma espacialidade que não invade a criança com o “ter que” – pois muitos acham que “tem que brincar”, e que “não tem que chorar”.

Chorar, para Winnicott, é vida! É exercício de pulmões! É exercício vital e expressivo.

(Muitos “xingam” Winnicott de otimista – rs).

me preparoO adulto que se agacha sabe sair. Ir embora, para deixar acontecer. Mas ele faz isso sem (muita) culpa e sem (tanta) tristeza – embora o bebê por vezes chore um choro triste, melancólico, e de luto. Luto pela separação, pelo fim daquele estado que significou “dois é um”. Lentamente o bebê percebe seu contorno; surge um envelope para o corpo; engatinhar e andar é muito significativo nesse processo: afastar-se. Ir para longe… e voltar. Repetidas vezes. Jogar brinquedos e coisas longe (para o adulto catar!) é também parte do mesmo caminho. Para Merleau-Ponty é uma pesquisa entre “espaço corpo próprio” e “espaço mundo compartilhado”.

O adulto que se agacha não tem escrúpulos em ser Tradicional. Antigo. Autoridade. Isso aprendemos com Hannah Arendt – que a educação é algo velho, e a criança é o novo, em um mundo velho, antigo, já dado. Transformá-lo, rejuvenesce-lo, é obra de jovens. Estaremos ultrapassados, em breve. Muito em breve. Agachar-se é saber sair e envelhecer. Morrer um pouco, para que o outro viva sem nós. Uma espécie de sabedoria zen. E atenção: agachar-se não é permanecer criança, nem “chamar sua criança interior”.

Agachar-se é ser suficientemente adulto para saber que a vida escolar é parte da cultura humana, especialmente da cultura humana urbana. Percebo que algumas mães desavisadas consideram a escola nociva ou “castradora”. Do ponto de vista deste site-blog, educar é castrar! Não no sentido veterinário! No sentido psicanalítico. O que significa que a educação de crianças não é simplesmente feita de “sim”. Agachar-se é saber dizer “não” – um dizer amoroso, contextualizado, e adulto. Não se pode subir numa janela sem rede de proteção no oitavo andar. Simples assim!

Mas “ele quer”!

Pois é!

Que bom que ele quer conhecer o mundo pela janela, e que bom que alguém está por perto para impedir o impulso de saltar pela janela – pois ele existe: o impulso é real, como é também devaneio; é por vezes desejo de voar, ser super-herói, ou ainda, para alguns, pesquisa sobre o Doutor Morte.

Agachar-se é permitir que Doutor Morte apareça, também nas brincadeiras de faz de conta. Muitos querem crianças docinhas e coloridinhas que brincam com flores e frutas, que não tenham contato com espadas de plástico nem arminhas de brinquedo. Falei sobre isso em meu texto anterior (ao comentar sobre brincar de violência).

Poder brincar de morrer, brincar de guerra, brincar de terrorismo, não é morrer, guerrear ou praticar terrorismo. É este um outro ensinamento muito precioso de Winnicott: valorar positivamente a capacidade de fantasiar.

Agachar-se é propor espacialidades ricas em imaginações. Para além do móbile de brinquedo em cima do me contam o mundoberço. Agachar-se é saber contar histórias, é ser o narrador para os bebês que ainda não falam. Narrar o mundo! Mas sempre e invariavelmente deixando lacunas. Espaços vazios. Intervalos. Para que nesses espaços haja solidão compartilhada. (In)completude. O copo vazio cheio de ar. O bebê e seu pouco tempo de vida, visto como uma pessoa com um tipo de sabedoria. Sabedoria sensório-motora para os piagetianos. Sabedoria polimorfa, não representacional e onírica, para os que, como eu, estudam a noção de infância proposta pelo fenomenólogo Merleau-Ponty.

Mas permanecer na corporalidade polimorfa, não representacional e onírica, na nossa cultura, é ser considerado idiota ou louco. Amadurecer é adquirir pontos de vista. Escolher formas: a forma mais possível nos momentos vividos. O onirismo há que se tornar… arte, pintura, desenho, modelagem, poesia, filosofia, religião… ciência criativa. Existe lugar para isso – o lugar que Winnicott nomeou “espaço potencial”. Um lugar entre. Um modo de funcionamento criativo que inventa o mundo – mas que compreende (finalmente, isso é tornar-se adulto!) que os outros e as coisas alí estavam, antes de por aqui chegarmos. Essa compreensão é o amadurecimento. Amor / Humor.

Um lugar plástico e polimorfo – outro nome para o espaço potencial é área de ilusão. Winnicott também o chamou de área de conforto. Lugar onde posso, novamente, fazer de dois, um. Mas isso feito eu sei voltar – pois agora eu era; já sei brincar.

O brincar imaginativo não é inato. Não se nasce sabendo. Preciso… de agachos! Preciso poder pirar na maionese. Na companhia do adulto, que me diz, que me conta, que barra / narra as mais possíveis possibilidades para meu corpo de bebê. É isso que significa deixar a criança ser o que ela é.bento onc?a

 

Não é cristal.

Nem plástico, nem argila.

É existência.

 

 

 

agradeço ao pais de Bento Goulart Mourão pela cessão de imagem do seu filho nesta postagem

4 comments for “A fenomenologia não é uma pedagogia

  1. Munyke
    19 de fevereiro de 2017 at 18:52

    Marina, enquanto alguns xigam Winnicott eu penso “quem dera que toda mãe tivesse um winnicott bem perto do coração ou na cabeceira da cama”… ler Winnicott é receber um carinho em palavras, um carinho que se sente quando ele diz (escreve) “Mãe, aprenda a conhecer o seu filhinho”, ou na tradução de good enough mother…ele já cria espaços para que a mãe, que se sente o tempo todo pressionada, consiga lidar com seus sentimentos e aspirações, de uma forma suficientemente boa para si e para o outro, já que o conceito de suficiência é variável, senão intermitente! Ser a mãe do seu filhinho já é bastante complexo e exige tantas escolhas e atitudes, imagine ser a mãe do seu filhinho inspirada na mãe do Caio, do Rodrigo, da Maria ou da Isabela!!!E é esta doçura que abraça e cuida da mãe que irá permitir que o filhinho consiga seus espaços e seus momentos, sem lentes piagetianas, montessorianas, steinerianas que tantas vezes levam as mães a enxergarem as crianças como crianças de um modo teórico e não como elas próprias, conceitos que induzem as mães a aspirarem um “modo de ser” de criança…se afastar um pouco de teorias permite que se observe a infância sem filtros! E muito acertadamente Winnicott faz esta proposta para as mães no seu primeiro ano de maternidade…Perceber quem a criança “É” consiste no maior desafios dos pais que buscam o espaço onde prevalece o brincar livre, não o brincar lúdico, palavra tão usada, quase que envenada nos dias atuais….Lendo seu texto, me veio uma frase de Françoise Dolto que me tocou bastante, em vários sentidos, em um dos seus mais belos artigos “Criança é corpo encarnado”: “Onde está isto que me dá condição de ser?”…O “onde” poderia ser também “o que é” ou “para onde leva” e o que mais? Não acredito em uma pedagogia desarticulada da fenomenologia…no entanto, o caminho para tal é construído lentamente, sem a pressa e ansiedade dos pais…fenomenologia é a mãe suficientemente boa que cria espaços para sua criança, a pedagogia, que vira sobre si, engatinha, anda e amadurece, e finalmente percebe que se tornou consciente de si e do mundo…

    • agachamento
      19 de fevereiro de 2017 at 20:00

      Olá Munyke! Vc já viu um texto meu que tem como título “O corpo cênico somos nós”? Tudo isso que vc disse aqui me remeteu a esse texto, que nos leva a um tipo de simplicidade — LISTA DE MATERIAL: eu e você! bjos da Marina

  2. 20 de fevereiro de 2017 at 13:04

    Olá Marina! Não li este artigo ainda! Vou ler! Assisti à um curta hoje que me lembrou muito a sua postagem! Na verdade, me levou a pensar que Winnicott conseguiu olhar tanto para esta relação mãe – filho, muito provavelmente por não ser mãe…Talvez isso tenha tornado mais fácil para ele suspender os juízos de valores, seus próprios sentimentos, o que seria bem mais difícil se fosse mãe (eu penso!)! O cuidado que Winnicott demonstra em seus livros com as mães é bastante diferente da psicanálise, que muitas vezes tem um olhar muito duro sobre as mesmas…o vídeo que assisti está disponível em:

    https://www.youtube.com/watch?v=HpoVwhSVI38

    Depois me diga o que achou… Abraço!

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