Te chamo para brincar

Nunca é tarde para retomar o faz de conta

Em janeiro de 2017 todos os professores e alunos da UFMG enfrentaram a reposição das aulas que foram paralisadas por um mês, na greve por tempo determinado contra as medidas da PEC 55. Da minha parte decidi fazer um “bem bolado” – duas reposições via internet, e uma aula presencial. Na aula presencial, levei três imagens: fotografias que tirei de túmulos no Cemitério do Redemptor, em janeiro mesmo. Foi um modo de “levar” meus alunos a São Paulo, à minha infância e idade adulta, a um lugar de morte que para mim tem vida. Sim, o cenário do texto Um cemitério vivo.

Tinha como “missão”: trabalhar, em apenas uma aula, tudo sobre o teatro pós-dramático, como forma dramatúrgica em um curso, e como forma de ensinar teatro para crianças e jovens no outro.

Minha “estratégia”: compor devagar e paulatinamente, no chão da sala, um cenário, uma paisagem, uma possível dramaturgia do espaço… de modo a levar os alunos, no geral jovens de 20 ou 25 anos de idade, para suas infâncias.

Suas infâncias deveriam encontrar a minha infância.

Daí o recurso das três imagens do Cemitério Vivo. Meu gosto por paradoxos… cemitério vivo, roteiro de improviso, mulher de 55 anos brinca de faz de conta em uma aula na Universidade Federal…

Desde minha chegada na graduação em Teatro, em 2012, que percebo que os jovens alunos, futuros atores e/ou professores de teatro, brincaram pouco até então. Os alunos da graduação de teatro no geral parecem ter tido uma infância pouco estimulada na imaginação – na imaginação do brincar livre e criativo, do faz de conta, das propostas do agora eu era… muito tempo atrás, muito longe daqui… Isso se reflete também na dificuldade para ser narrador: narrar histórias, contar causos, usar a palavra falante – que é o modo de dizer que convida o outro à transformação e à ida para lugares fantásticos, terríveis, utópicos…

É como se a comunidade adulta, pais e professores dos primeiros anos, pensasse que está “trabalhando o brincar” fornecendo brinquedos.

O “trabalhar o brincar imaginativo” não está no objeto brinquedo; está na relação entre seres viventes. Está em algo naquele que me conta; que me canta. Está, portanto, no gosto do outro em contar histórias para aqueles que ainda não falam. Está na possibilidade de ouvir, de apurar a escuta de uma voz que cuida, provoca, propõe… que espacializa imaginações, em gesto e palavra. Está na permissão para mentir, pois há um pacto ficcional que leva a essa liberdade: sou o ladrão no brincar de mocinho-e-bandido – isso não é treino para roubar na idade adulta nem tampouco é tornar-se o que se combinou no faz de conta!

Tristemente fui vendo que os adultos acham que sim, que brincar de violência é sinônimo de gosto para a violência.

Quem tem alguma cultura em psicologia e psicanálise de crianças sabe que o brincar violentamente, desenhar, pintar coisas feias e terríveis, bater na argila, beliscar a massa de modelar, são ações de elaboração de um núcleo de vida-e-morte, amor-e-ódio, é expressão de começo, meio ou fim de ciclos de alegria e luto (modo de dizer da psicanalista Françoise Dolto). E Winnicott nos mostra que esse brincar ativo, corporeificado, é o cerne da vida cultural humana, pois desemboca em filosofar, praticar religião, ser artista, poeta, cientista… Na adultice amar a profissão, e encontrar um lugar imaginativo nela. Amor, vida compartilhada, e habitar o trabalho são metas de saúde psíquica… (Quem chegou lá, de fato?)

Por isso tudo trabalhei durante quase dezesseis anos ensinando teatro baseada no faz de conta; por essa e por outras criei a disciplina optativa “Brincar, criar, teatralizar, viver”. Em tese eu desejava que os alunos da graduação em teatro já tivessem repertório, trouxessem um bom repositório de bagagem imaginativa de faz de conta… mas, se isso não acontece, acredito que posso semear, ainda, nos corações e mentes, nos corpos próprios, esse dom: brincar. Pra que serve? Pra ser feliz.

Alguns ex-alunos meus que estão no “mercado de trabalho” já sabem explicar para as crianças e para o jovens: fazer teatro serve para ser feliz. Simples assim. E é uma profissão.

Ser feliz é ser pleno, na dor e na delícia de ser o que se é. Não é entreter – é entretecer: os fios da meada, da conversa, das relações, num tear de faz de conta, que não necessita de materialidade realista. Faça seu tear numa caixa de papelão. Ou nem isso: brinque com os fios invisíveis que tecem um cachecol no ar…

Vou agora propor três roteiros de improviso a partir das três fotografias que tirei no Cemitério do Redemptor. Será como se eu estivesse postando, aqui, o “gabarito” das avaliações finais dos meus cursos!

tu?mulo-a?rvore de natal

 

 

Imagine os presentes que estiveram nesta árvore de Natal. Procure ser um dos entes que recebeu um dos presente: Espírito? Fantasma? Coveiro? Formiga? Minhoca? Flor? Quem é você? Como e por que você passou o Natal no Cemitério do Redemptor? Sem pressa, crie um modo de dançar no seu corpo que mostre isso tudo.

 

 

    tu?mulo-crianc?a

 

 

Seja a menina deitada de barriga para baixo no túmulo. Perceba se isso é lúgubre ou não. Leia o livro. Imagine a história, e entre, e saia dela, por diversas vezes, de diferentes formas. Ao fechar o livro faça um som que te leve de volta para a sua vida do dia a dia.

 

 

 

 

tu?mulo-cavalinho

 

 

 

Uma criança de dois anos morreu e ganhou um túmulo de cavalinho. Quem era ela? O que você é dela? Brinque com o cavalinho e conte para a menina de dois anos um segredo. Depois vá embora, sem fazer barulho nem alarde.

 

 

 

Percebam que meus roteiros são uma espécie de meditação. Eu gosto de um teatro da quietude. Penso que a não-ação tal como proposta por alguns encenadores contemporâneos é rica em imaginações… Winnicott advogou por uma solidão compartilhada. Gosto de ir ao teatro e sentir isso, nalgum momento, quando sou plateia. Gostava de propor coisas introspectivas para meus alunos da EMIA, que aos poucos de fato se silenciavam. Um silêncio cheio de significatividade. Sinônimo de pertença. Alguns, em dias que as aulas usavam objetos, faziam partituras vocais-corporais que eu nomeei “o som do faz de conta”. Winnicott chama a isso “fenômeno transicional” – um momento no qual a criança, mesmo um bebê, se transporta para a terceira margem do rio. Entre realidade e fantasia, entre o mundo compartilhado e o devaneio. Alí habita o faz de conta. Ali mora uma coisa, a qual eu quero revisitar, cotidianamente. Eu escolhi ser professora de teatro.

Estarei oferecendo a disciplina “Brincar, criar, teatralizar, viver” no primeiro semestre letivo de 2017.

 

 

 

3 comments for “Te chamo para brincar

  1. Charles Valadares
    30 de janeiro de 2017 at 15:23

    Ler você cultiva em mim o desejo de “ser o que sou”, com toda dor e delícia que tem sido habitar a vida no agora.

  2. Lucas Fabrício
    11 de fevereiro de 2017 at 22:33

    Que maravilha retornar ao blog e ver esta nova roupagem e as partilhas e diálogos incessantes! Muitos presentes por aqui! Obrigado por manter este rico espaço de trocas. Obrigado por todo aprendizado e por este olhar sensível sobre o ensino do teatro que sempre me inspira muito!
    Abraço!

    • agachamento
      12 de fevereiro de 2017 at 10:34

      Olá Lucas! Que bom que passeou por aqui…venha mais — deixe o passeio se tornar hábito
      Um abraço
      da Marina

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


9 + seis =