Publicação de um texto escrito a seis mãos / revista Estudos da Presença

Sobre uma escrita a seis mãos

Por algumas semanas durante o ano de 2016, escrevemos um texto a seis mãos: Taís Ferreira, Luciana Hartmann e eu. Respondíamos ao chamamento da Revista Estudos da Presença, cuja temática foi “Dramaturgias do Corpo”. Lembro de que quem lançou o desafio foi a Luciana; logo me entusiasmei porque em 2015 tinha ganho o prêmio com o texto que registrava o trabalho desenvolvido na UFMG por três semestres, na disciplina de dramaturgia para a Licenciatura em teatro.

Foi interessante e bonito nosso processo coletivo… Partimos de apontamentos muito soltos e individuais… O texto começou a ganhar maior densidade quando pensamos em desenvolver a noção de

dramaturgia encarnada.

 Veja como discutimos o que é isso no texto a seis mãos:

Vamos nos referir a dramaturgias como um modo de trabalhar com crianças e jovens heterodoxo, híbrido, fenomênico e indiviso, cujo cerne é a não dicotomia entre textualidade e corporalidade, ou seja, conectamos em narrativas experienciadas por meio dos fazeres mesmo: das experiências corporais, jogos e brincadeiras, inventividade no uso dos objetos do cotidiano e extracotidanos. Enfim, trata-se de uma dramaturgia que surge a partir de um verdadeiro work-in-progress (Cohen, 1998) no qual a experiência vivida em jogos e convivialidade materializa o que Machado (2004; 2015) nomeou como roteiros de improviso, revelados por possíveis textos, partituras corporais, storyboards e imagens.

Luciana mora em Brasília e trabalha na UnB, eu moro em Belo Horizonte e trabalho na UFMG e Taís mora em Pelotas e trabalha na UfPEL, mas em 2016 estava na Itália, fazendo seu doutoramento na Universidade de Bologna; então, trabalhamos a maior parte do tempo pelo e-mail e poucos encontros pelo skype. Para mim a felicidade foi ter parceiras, encontrar interlocução, e tornar concreto um pequeno projeto de escrita coletiva. Parecia difícil ou complicado, por sermos diferentes, em termos de idade, cultura universitária e formação. Mas depois de dado o passo zero – o convite da Luciana – e em seguida o primeiro passo, pequenos bilhetes por e-mail, a coisa tomou forma e nossos conteúdos se mixaram, de um jeito fácil e harmonioso.

Nosso texto questiona a formação dos professores de teatro na universidade – somos três docentes em três diferentes licenciaturas brasileiras – e aponta nossa percepção de que a “aula teórica” para pensar o ensino do teatro para crianças e jovens pode ser entediante e falha: especialmente se for para ler os clássicos, muitos deles americanos e europeus, cuja discursividade está longe da realidade das crianças e dos jovens daqui, bem como da realidade dos alunos dos nossos cursos. Eu amo, por exemplo, o livro do Ryngaert, editado no Brasil pela Cosac Naify, intitulado Jogar, Representar (Corram e comprem, é um livro esgotado, tem bem poucos exemplares disponíveis por aí!). Mas vejo como parece difícil para o estudante, professor em formação, transpor o livro para sua realidade cotidiana, para seus planejamentos e propostas em estágios, ou mesmo em avaliações que faço, propondo reflexão sobre “estudos de caso”.

Trabalhar a partir de “estudos de caso” imaginários revelou-se um bom jeito de provocar no aluno da licenciatura em teatro para a “transposição” da teoria para a prática cotidiana; os casos fazem pensar,  para criar soluções para a questão posta por mim no enunciado. Transcrevo uma dessas avaliações:

Ana Maria está criando um projeto para um curso de teatro para crianças em um Centro Cultural de Belo Horizonte, com duração de um ano, e quer muito trabalhar de acordo com a noção de infância que concebe a criança ator social protagonista. Com base neste princípio, por meio de suas leituras e partindo das reflexões que fizemos em aula, responda:

  1. Como Ana Maria pode organizar o planejamento de suas aulas, do aquecimento aos exercícios teatrais, terminando com uma roda de avaliação dos acontecimentos do dia? Noutras palavras, no que influenciará sua prática como professora de teatro trabalhar cada aula e diferentes sequências de aulas, ao sintonizar com a noção “ator social protagonista”?
  2. Um dos grupos com os quais Ana Maria vai trabalhar é de crianças entre 4 e 5 anos de idade. Como você sugere que ela organize a “apresentação final”, tendo por base tudo que foi estudado e discutido em sala de aula até o momento? Como Ana Maria poderia trabalhar a ansiedade dos pais diante da expectativa de assistir a uma “apresentação final” como espetáculo estruturado na situação palco-plateia?

Sim, os textos de referência do curso em questão eram teóricos, especialmente o texto de minha autoria A criança é performer. Mas, se você ler o ensaio, as respostas para as perguntas “práticas”, da vida cotidiana de um professor de teatro, não estão lá… O que fazer?

É preciso pensar, criar, fazer correlações e entretecimentos entre vida e arte, entre cotidiano e teoria, entre biografia (como aluno de teatro, especialmente, e conversando com a criança e o jovem que você foi) e os mundos de vida das crianças e jovens hoje. Isso não se ensina – os entretecimentos – isso se pratica!, a longo prazo durante toda formação de um artista professor.

Por vezes imagino fazer um pequeno livro com essas avaliações e seus “gabaritos”, criando respostas eu mesma, contando também com a colaboração de alunos e ex-alunos; mas temo que, quando publicado, seja visto e usado como um livro de receitas!

Eis a questão: como conversar sobre o ensino do teatro com o jovem licenciando, sem manuais? Como estimular a criação, se o aluno não possui repertório anterior (pois ensinar se aprende ensinando, ou não?)?

O aluno no início da licenciatura inúmeras vezes só foi aluno, e não tem ideias sobre como trabalhar numa sintonia contemporânea com crianças e jovens.

Voltando ao texto escrito a seis mãos, ele foi pensado para ser de fato lido (rs), e lido pelos nossos alunos, pelos alunos uma das outras, pelos alunos das licenciaturas em geral, e por aí vai. O texto foi publicado também em inglês (norma da revista Estudos da Presença), significando um aumento do espectro de leitores: os de língua portuguesa e os de língua inglesa.

Gosto especialmente do roteiro sobre a pata de dinossauro – um roteiro de improviso que criei para nosso texto conjunto:

Todos ficaremos em meia lua de frente para o tapete. Cada um terá seu “momento dinossauro”. Procure roteirizar de antemão sua entrada no tapete: como vai vestir a pata e transformar-se em dinossauro; seja o dinossauro, a seu modo; após alguns minutos, tire a pata, de modo a tornar-se gente novamente – e saia do tapete. É a entrada no tapete que te levará, aos poucos, para o mundo dinossauro. Procure criar especialmente o resto do corpo do dinossauro em você, a partir da vestimenta da pata. Concentre-se na transformação: na ida / na permanência / e na volta; do estado humano ao estado dinossauro, retornando depois, com este segredo guardado em você.

Desde 2012 quando cheguei para ensinar o ensino do teatro na UFMG, fui praticando a escrita de enunciados que provocassem o professor jovem e inexperiente, para que ele visualize, de modo imaginativo, como trabalhar criativamente e com foco em seu gesto e palavra (privilegiar sua “poética própria” e não a teoria!) – a palavra falante, como propõe Merleau-Ponty: a palavra que surpreende, transforma, causa estranhamento.

Os comandos de experiências teatrais propostas para crianças e jovens precisam ser suficientemente abertos, por vezes divertidos, por outras racionalmente incompreensíveis de propósito… de modo a não intelectualizar a experiência do aluno, e levá-lo para um campo relacional e intersubjetivo: gesto-e-palavra, dramaturgia no corpo encarnado.

Fazia isso de certo modo intuitivamente com meus alunos da EMIA em São Paulo; passei a sistematizar minhas práticas, antes mais livres e caóticas, a partir da entrada no mestrado, em 1999,  sempre dedicada ao registro da criação das crianças mesmas, de lá e até hoje; a criação das crianças será a resposta ao roteiro de improviso proposto pelo adulto. Ou seja, há sempre pensamento-sentimento adulto como pano de fundo nas aulas de teatro. (A isso costumam chamar “planejamento”).

Convido então o leitor do Agachamento a se dinossaurizar comigo, com Taís e Luciana, e acessar o texto por aqui: http://seer.ufrgs.br/index.php/presenca/article/view/63579

E… boa leitura!

Aguardo comentários!

 

 

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