Fica comigo

Para pessoas em crise

2016 não nos mereceu.

Um ano das maiores dificuldades; um ano de tanta coisa impensável sendo pensada; um ano de “paródias”: eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, golpes e mais golpes nos brasileiros depois da entrada de Michel Temer no poder, violência e destruição pelo Estado Islâmico, crianças refugiadas morrendo afogadas, ou de fome, um avião inteiro caindo com atletas do bem enquanto os do mal estão conquistando prisão-domiciliar-com-tornozeleira, e tantas outras notícias na beirada do inverossímil acontecendo, encarnando, encorporando diante dos nossos olhos.

Minha “defesa” tem sido sonhar.

Alguns sonhos:

Escrevi um texto, o mesmo texto [chamado “Guerra de Maçãs”] durante mais que um ano; reformei o site-blog Agachamento; decidi voltar a dirigir teatro e escrever um novo livro que tematizará meu pos-doc Territórios do Brincar; vou aos poucos lapidando o projeto de segundo pos-doutoramento, para o qual retomarei meus estudos e propostas para a pequena infância, no campo da arte.

Para esse projeto estou retomando minha juventude, minha “raiz” no Teatro Ventoforte, os anos vividos no início da década de 1980.

(Possuo outra “defesa”: assinei o Netflix… mas isso mereceria uma postagem à parte; penso ser uma defesa ambígua, um tipo de sonho de bebê parado agora já adulto rs) (Também comprei uma cama nova, jogando fora tempos e corporalidades passadas, rs)

O livro A poética do brincar escrevi durante o tempo difícil e doloroso de tratamento do câncer de minha mãe. Metodologia: levava livros de poesia para ler nas salas de espera e no quarto do hospital quando era meu plantão de acompanhante.

Durante a escrita do mestrado [que tornou-se o livro Cacos de Infância] meu ex-marido faleceu e tive que cuidar, em nome de meu filho, de uma porção de coisas na combinação de luto e tristeza demoradas…

E na escrita do livro Merleau-Ponty & a Educação, transformação da tese de doutorado em um texto mais leve e palatável, penso que estava também lidando com defesas psíquicas: em nome de uma discursividade menos pontiaguda, em nome de publicar algo que fizesse diferença na vida cotidiana das crianças…

… Ou seja, essa tem sido a minha militância: a escrita.

 

*

2017 precisa nos merecer!

Estou gestando uma segunda pesquisa de pos-doutoramento na qual vou retomar minha biografia artística, para falar sobre ações numa (anti)metodologia de educação estética para pequenos. A retomada nasce bebendo de novo na fonte de Ilo Krugli: diretor do grupo Ventoforte de teatro, Casa na qual me formei, para dentro da qual fugi da universidade, de modo a habitar um tipo de fazer teatral. Quero fazer juz a esses dois anos e meio de formação, entre 1980 e 1983. Por vezes penso onde estive na década de 1980? Tenho memórias fortes e enraizadas desses anos – dos dezenove aos vinte e um, quando a maioridade ainda era 21 anos – entrada na vida adulta de pés descalços experienciando algo único no curso para atores de teatro infantil que Ilo criou com três atores-artistas de seu grupo (Paulo César Brito, Sônia Piccinin e Márcia Correia).

Quero muito conseguir unir peças, cacos, nacos, pedaços de mim entre 1980 e 2020… pois de quarenta em quarenta anos é que todas as ideias se repetem! (disse Zé Rodrix, quem se lembra?)

A dica para pessoas em crise se traduz na retomada de quem somos.

Para onde vamos?

*

 

Havia um exercício no curso de teatro do Ventoforte que consistia em fazer a pergunta, repetidas vezes e em duplas, um para o outro:

O que fazem suas mãos, por onde andam seus pés?

 Devíamos ir perguntando isso mais ou menos rápido e em looping, de modo que acontecesse um fluxo entre as duas pessoas, entre dois imaginários.. Hoje entendo como um “procedimento surrealista”.

.. Fluxo que estou propondo aqui ao leitor do Agachamento. Venha comigo, ande nesse caminho: de um tipo de simplicidade – nada menos que tudo – e de habitar o lugar mais possível de nossas biografias. Algo que para ser atingido, ou até exercido, precisa sim pautar-se na ilusão de que

o melhor lugar do mundo é aqui / e agora

 Para chegar nisso: esvaziar-se de expectativas e de qualquer dizer do tipo “e se…” (só os humanos pensam nesses termos: se eu tivesse dito isso, se eu tivesse agido de tal modo… e se John Lennon estivesse vivo (rs)… enfim, pensamos rotas do passado e imaginamos outras vidas possíveis…) Convido a todos a pensar como os hectapods (veja a postagem anterior, sobre o filme A Chegada) – deixar misturar os tempos passado, presente e futuro, em nome de uma conexão diferente, não-linear; mais plasticidade e menos racionalidade, mais organicidade e menos parcialidade, mais entrega e menos encomenda.

É mais ou menos assim que estou, que me sinto nesse dia 24 de dezembro de 2016. É mais ou menos por essa estrada que vou, de agora em diante. Quem vem?

 

*

6 comments for “Fica comigo

  1. Raiane
    3 de janeiro de 2017 at 15:33

    Encorajador

    Em cor aja dor

    • agachamento
      3 de janeiro de 2017 at 18:23

      Raiane, gosto
      da sua
      companhia
      bjs da Marina

  2. Raysner
    15 de janeiro de 2017 at 21:36

    Estamos juntissímos!
    Vamos?!

    Coragem!

    • agachamento
      16 de janeiro de 2017 at 14:19

      Sim! demorô! rs

  3. Raysner
    15 de janeiro de 2017 at 21:37

    estou relendo o “Grande Sertão: veredas” há um tempo. Achei esse trecho lá. Dividi com meu irmão e gostaria de deixá-lo aqui também para você

    “Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores, diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz ventos. Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Deus é que me sabe”

  4. Fabíola Freire Saraiva Melo
    19 de fevereiro de 2017 at 18:02

    Esse texto é um acalanto para a alma, uma esperança pra vida, pros que lutam e sonham! O comentário da “Raiane” deixado aqui, que não conheço, mostrou-me o mesmo! Juntas, somos mais fortes! Precisamos de vocês, precisamos de sonhos! E deixo aqui as palavras de uma outra mulher maravilhosa e guerreira: “No meio das trevas, sorrio ´vida, como se conhecesse a fórmula mágica que transforma o mal e a tristeza em claridade e em felicidade. Então, procuro uma razão para esta alegria, não a acho e não posso deixar de rir de mim mesma. Creio que a própria vida é o único segredo” – Rosa Luxemburgo

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