“A gente não quer só comida”

“A gente quer comida, diversão e arte”

Pode ser que os leitores do Agachamento estranhem que, neste momento tão confuso, de fato triste e melancólico que estamos vivendo no Brasil (e não estou falando do time de futebol inteiro que morreu no acidente – triste também – mas antes, da tragédia anunciada: a votação da PEC e consequente destruição de políticas construídas a longo prazo que poderiam fazer a diferença, em termos de saúde e educação públicas) que eu vá falar aqui de cinema. E de cinema mainstream.

Mas é que o filme Arrival / A Chegada (Denis Villeneuve, 2016) foi uma experiência estética tão interessante que vivi, em uma sala de cinema de shopping center, ou seja em um espaço dito “comercial”, no final de semana que passou, que considerei que merecia a escrita de uma espécie de crônica. A narrativa do filme conversou comigo de modo poético e intenso, e o filme termina com uma mensagem de paz, e de superioridade… dos povos alienígenas!

Doze naves simplesmente aparecem em doze lugares do planeta Terra. Sim, começa aí a diferença desse filme de ficção científica que, como outros, vai tematizar o encontro humano com E.T.s: não há invasão, aterrisagem, ou linearidade temporal; as naves surgem. E flutuam:

naveUm dos grandes temas do filme é nos trazer um outro conceito de tempo; na minha compreensão, seria o modo de viver o tempo dos E.T.s, como uma inteligência superior à nossa. Achei isso muito diferente, filosófico, existencial, e rico. Uma grande sacada de roteiro e de modo de contar uma história: um modo contemporâneo; se diria em teatro: não-aristotélico.

manchasO filme é baseado inicialmente em um conto de Ted Chiang, “Story of your life”; o nome para as criaturas é mantido como no conto: heptapods. Os aliens são aparentados a polvos, e o criador da arte (Peter Konig) os desenha evitando que tenham costas ou frente. Eles soltam uma espécie de tinta. Em comunicação intermediada pela personagem linguista, eles falam conosco (o espectador do filme!). A tinta que soltam se dissolve como mancha, mas, a partir da interação com os humanos, vai ganhando forma-conteúdo, ao longo dos encontros entre dois heptapods e dois pesquisadores.

Finalmente agora os E.T.s falam!

E falam por meio de mandalas (assim vi, percebi, compreendi).

Possuem uma linguagem visual que vai ganhando forma, e força, durante o filme. E são “interpretados”. Nos doze pontos, nos doze países, nos doze modos de tradução/traição (arma ou ferramenta?).

mandala1O filme tem seus mistérios, que não quero revelar aqui, para que os leitores tenham curiosidade de assisti-lo, e façam sua interpretação própria – mais um aspecto extremamente contemporâneo do filme: as lacunas que ele deixa para o espectador completar. Exige um espectador ativo, atento, o que penso ser também um desafio inovador para o “cinema comercial”.

Um filme bonito, plástico, cheio de uma atmosfera – sem necessidade de muita trilha sonora ou barulho… – trazendo também vazios oníricos, no modo de filmar, na narrativa fragmentada da biografia da personagem linguista.

Estreou no Festival de Veneza em 1º de setembro deste ano e entrou para o ranking dos dez melhores filmes.

Gosto de uma espécie de simplicidade (que no entanto custou à produção 47 milhões de dólares, rs). Gosto especialmente de como o filme mostra o “mundo interno” (memórias, emoções, sentimentos) da personagem linguista.

(Gosto de brincar de crítica de cinema! A meu modo.)

Costumo chamar de “rede de remetimentos” a capacidade que temos de interpretar o mundo compartilhado, seus fenômenos, e os outros. Tentarei armar essa rede agora neste texto. Ela também é biográfica; fui casada por dez anos com o artista Valdir Sarubbi, fui sua aluna em ateliê, e ele propunha aos alunos iniciantes o uso de manchas de nanquim em papel molhado… Era uma forma de des-racionalizar o aluno que pensa que “não sabe desenhar”. As manchas depois de secas podiam ser completadas por nós, com lápis de cor ou colagem, para ganhar nossa forma própria, para além do acaso. No filme, as manchas de tinta esfumaçadas em um grande vidro que separa os E.T.s dos humanos, tal como uma vitrine, ganham formas sofisticadas ao longo de encontros entre os heptapods e os pesquisadores, que depois se debruçam em programas de computador que buscam semelhanças e diferenças entre as mandalas, entre outras grafias, entre outras linguagens possíveis, que não a do alfabeto convencional.

mandala2Aos poucos, provavelmente na tentativa de eu mesma “interpretar” tudo que o filme propõe ao espectador, vieram para mim as palavras chave da fenomenologia de Merleau-Ponty ao definir a experiência da criança pequena: polimorfismo / onirismo / não-representacionalidade. Em meus escritos e aulas tenho associado essas características à cena teatral contemporânea. Vou comentar aqui essas características tal como surgiram, para mim, nesse filme incrível – nesse filme onírico. Nessa linguagem fílmica que considerei inovadora, por ser introspectiva e misteriosa, e ao mesmo tempo “para todas as idades”.

 

Polimorfismo

Nos ensinamentos de Merleau-Ponty sobre a criança pequena, ele nos diz que ela é aparentemente dispersa ou inconstante, do ponto de vista do adulto; porém, ela possui um outro modo de ser e estar no mundo, uma espécie de pensamento cheio de plasticidade e passível de mudança, e de uma concentração plural – ela é polimorfa. Ela é aberta, flexível, daí mudar de ideia e de posição o tempo todo.

 

Onirismo

A criança pequena habita uma zona intermediária, entre sonho e vigília, entre devaneio e realidade compartilhada – é próprio da sua apreensão de si, do outro e do mundo, este modo que o adulto só percebe no sonho e no pesadelo… Ela está muito mais próxima dos processos inconscientes do que imaginamos; ela está além e aquém da facticidade jornalística, por assim dizer.

 

Não-representacionalidade

A criança pequena não necessita de representacionalidades: ela é. Ela habita o mundo, ela mora em seu território onírico bem como em sua casa e rua e cotidiano compartilhado. Ela vive de tal modo mergulhada em suas experiências que não haveria como distanciar-se do mundo para “representa-lo”.

 

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Enfim, o filme, em meu ponto de vista, trabalha as possibilidades do fazer cinema naquelas três chaves, enriquecendo a experiência do espectador, levando-o para um grande campo onírico. A fotografia; as mudanças de cor e de ritmo; o uso e o não uso do silêncio… O fato das naves terem “surgido” (e depois o modo como se dá o desfecho, para onde vão, como vão) tudo isso é muito diferente do usual dos filmes que tematizaram a chegada de extra-terrestres até então.  O filme também é polimorfo, no sentido de se completar (ou não!) no final da narrativa, nos trazendo outra compreensão do ponto de vista da protagonista, a personagem linguista, e sua experiência do “contato imediato do terceiro grau”. E o modo dos hectapods se comunicarem, pelas imagens das mandalas, é para mim um ícone do que seria uma linguagem que não representa, que é (o que a visualidade propõe). A sofisticação da emissão das manchas, e a necessidade de outro modo de pensar (e portanto outro modo de ser e estar no mundo) leva ao estudo das imagens para outro paradigma, “nunca dantes experienciado”. E ao final do filme.

Assim, espero que o leitor do Agachamento compartilhe meu encantamento por esta pequena obra prima, porque… certamente você também quer comida, diversão e arte. Ou não?

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