Do que você se ocupa?

No momento em que o Brasil procura por seus rumos, jovens “ocupam” espaços públicos e adultos se pre-ocupam em como trabalhar com esses novos modos de habitar, em diferentes doses e âmbitos, decido escrever algo aqui no Agachamento sobre crianças refugiadas.

crianças em campo de refugiados (internet)

crianças em campo de refugiados (internet)

Crianças cujas vidas foram “desocupadas”, pelas mais diferentes razões – políticas, religiosas, econômicas, bélicas – crianças vivas experienciando cedo demais o limite fronteiriço com a morte, a miséria e a incerteza. Escrever sobre isso me move e me “ocupa” desde um dia, em setembro, no qual a ONU publicou um relatório com a cifra: 50 milhões de crianças refugiadas no planeta Terra.

Também me move, pois me comoveu demais, a visita que fiz ao Museu da Imigração em São Paulo, no mês de setembro.

Não falarei de sociologia ou de política. Escolho o viés existencial, e biográfico.

O Museu da Imigração é primoroso, e a meu ver foi montado de tal modo que… vamos ficando extremamente melancólicos. Contaminados. A curadoria supõe nossa capacidade de imaginar, de completar aqueles arquivos… e consegue mesmo! Ao menos foi assim comigo. Ver as fotografias dos desembarques no porto de Santos… Olhar com cuidado para os papéis, e vamos abrindo gavetas, lá estão as cartas pessoais, os acordos legais, percebemos como havia uma certa dignidade e receptividade na chegada; mas, quando  olhamos com lupa, enxergamos os subtextos, subterfúgios: subcontratação de mão de obra barata, para fazer crescer o Brasil brasileiro. Diante da guerra mundial e do preconceito, podemos ver com transparência que, especialmente os judeus, foram gratos ao refúgio “com papéis”.

Agora, tudo parece mais difícil, mais cruel, e muito mais banalizado – os migrantes bolivianos, os migrantes haitianos, e acompanhei pela mídia que há no momento, em Roraima, um fenômeno intenso [e quase absurdo] de migrantes venezuelanos.

Instaurou-se o “Dia internacional do refugiado” (20 de junho).

Há políticas, normas, regras, comitês, e organizações humanitárias.

Há conflito, guerra, pobreza, injustiça e desumanidade.

Há também muita “aparência” de boas políticas e boas recepções…

Papa Francisco disse recentemente que os refugiados são tratados como “um peso”… mas que de fato são “um dom”. Faz parte da política atual do Vaticano discutir esse tema, buscar por comiseração e acolhimento.

Pessoas de todas as idades estão morrendo afogadas por fugirem em embarcações precárias e pagando para mercenários as tirarem de suas zonas de risco! No século XXI.

O papa disse em sua visita à Grécia: “não podemos esquecer que os migrantes, antes de serem números, são pessoas, nomes, rostos, histórias”. Levou, no final dessa visita, doze refugiados no avião para o Vaticano.

Não sou católica, não vou tematizar o viés religioso e já disse que não tenho competência para tematizar o assunto no viés da sociologia ou da política.

Escolho o viés existencial, e biográfico. Isso sei fazer, um pouco; seria minha militância. O agachamento. Tenho estudado a infância faz algum tempo. Tenho defendido uma perspectiva poético-existencial para olhar para as crianças, conversar e conviver com elas.

Tive uma infância feliz! Mas me sentia bastante infeliz e insegura em alguns dias, em algumas circunstâncias; eu sentia, posso resumir assim, saudade da minha mãe. No entanto ela não tinha morrido, nem estava presa ou desaparecida… (estava muito muito perto, logo eu a veria de novo).

50 milhões de crianças “fora de casa”!

Muitas e muitas crianças e jovens sem adultos familiares por perto – pois morreram, estão presos, ficaram para trás.

Há um livro do psicanalista Winnicott cujo título é um verso poético de T. S. Eliot: Home is where we start from. Foi traduzido por aqui por: Tudo começa em casa. Hoje passados vinte anos da morte de minha mãe, quando a saudade (ainda) bate, pensar na obra do Winnicott é uma estratégia – uma escolha, como adulta que sou: intelectualizar a experiência de amor materno.

Winnicott observou, estudou e conceituou “a mãe comum”, bem como a maternagem, que é o cuidar de crianças pequenas – seja isso feito por quem for! Em seu paradigma todos precisamos, e devemos ter, o direito a um bom começo. Winnicott atuou com convicção e fez reflexão teórica sobre o fenômeno das crianças “evacuadas”, de Londres para o interior, colaborando com políticas públicas que as protegeram dos bombardeios na segunda guerra mundial. As ações as levavam para longe de casa.

Pode ser que ter aderido [de 1984 em diante (!)] a princípios winnicottianos – dentre uma porção de outras coisas, ideias e sentimentos humanos, éticos e estéticos – que o Museu da Imigração me levou a tal estado de grande melancolia. Alí há silêncio. Alí há registro do lado B da humanidade. Alí há busca por comiseração. E vemos e absorvemos a história dos homens, no século XX especialmente, muito além dos nossos pequenos territórios e fronteiras pessoais. Assim percebi como é grave e urgente pensar sobre os refugiados e os migrantes. E sobre a infância nessa circunstância.

Papa Francisco também disse recentemente que os refugiados são tratados como “um peso”… mas que de fato são “um dom” (ele disse: “refugiados são pontes que unem povos distantes”). Para ele essa é a pior crise humanitária desde a segunda guerra mundial. Dia após dia, pessoas estão morrendo afogadas por fugirem em embarcações precárias, pagando dinheiro para mercenários as tirarem de suas zonas de risco! No século XXI. Enquanto isso outros fazem festas de aniversário e de casamento para cachorros. No século XXI.

Pensar a infância nessas circunstâncias é muito duro, difícil, desafiador; é pensar por exemplo no famigerado “direito ao brincar”. Da década de 1980 em diante esse jargão pululou das creches para as propagandas de sabão em pó, de tal modo que dizer que uma escola de educação infantil faz “o dia do brinquedo” não causa estranheza – mas deveria. Posto que a infância haveria de ser recheada de brincares, é sua essencialidade!, e não pode resumir-se a um dia… de culto aos objetos chamados “brinquedos”, tão marcados pela indústria cultural, aliás feita por adultos para crianças.

Do que brincam as crianças em campos de refugiados? Como brincam, com quem brincam? Se não brincam, quem se importa? Brincam de guerra, de miséria, de luto, de vazio, de fome?

Eu ví em um documentário, certa vez, que mulheres africanas criaram biscoitos de barro. Sim, cookies feitos de terra eram assados e dados às crianças! Enquanto outros, noutros cantos, fazem festas de aniversário, noivado e casamento de cachorros.

O que eu vou fazer sobre isso, além de escrever no site-blog Agachamento?

Parece muito pouco o que minha vida profissional propõe e propaga: ensinar a ensinar teatro em uma universidade federal brasileira. O momento é tenso mas as coisas estão muito mais urgentes em outros pontos cardeais, me parece…

Vou aqui-agora ao site do programa “Médicos sem fronteiras”. Eu poderia ser psicóloga. (Não sei se na minha faixa etária, e pelo meu currículo, hoje tão academicizado…) Mas faz parte sonhar, e querer mudar o mundo.

Em 2012 quando migrei – sim, eu sou migrante – para Belo Horizonte, ouvi de uma aluna: “Nunca mais tinha ouvido falar de um professor querer mudar o mundo”! Foi bonito na época. Agora me aflige. O mundo está cinza e feio. É sábado e estou diante de um computador de ponta (Macintosh). E então? Não quero o caminho do autoelogio ou do autoperdão. Eu quero pensar que a universidade pública brasileira vai continuar existindo e nela mesmo eu poderia fazer alguma diferença. Um trabalho extensionista com as crianças sírias que vieram morar em Belo Horizonte. Troca de cartas e desenhos entre estudantes de arte e mães presidiárias. Mexer com bebês parados em uma pracinha de classe média alta, de modo que as crianças fossem de fato ativas e protagonistas de si, para que, aos 7, 9 ou 13 anos, elas mesmas conversassem abertamente com as crianças e adolescentes sírios sobre a vida em Minas Gerais.

Saio.

Vou ao supermercado.

Escoteiros estão ali coletando alimentos.

Me movo, compro algo e doo.

Ainda é pouco, muito pouco.

E agora?

O que fazer diante da concretude de morar em uma cidade que será governada por Alexandre Kalil? Diante da concretude de ser de um país hoje disfarçado de democrático e que em três meses armou misogenia, retrocesso simplificador da construção árdua de direitos sociais e abertura de futuras parcerias com privadas?

Percebo assim que minha ocupação (mental, psíquica, simbólica) com as crianças refugiadas tem direta relação com os jovens da minha escola, pois lá estão eles mesmos refugiados dentro do prédio, ocupados de seu futuro ameaçado. Nosso futuro ameaçado.

De nada adiantaria sonhar com um possível trabalho extensionista humano e agregador neste horizonte sombrio.

Vou me preparar para performar na semana em possíveis lugares de expressão: um evento organizado por alunos da pós-graduação; uma reunião de câmara com o pro-reitor da graduação; a sessão de psicanálise; a paralisação nacional no dia 11 de novembro. Ainda é pouco, muito pouco, mas pretendo somar a outros poucos, a outras doações: de saberes, de sabores, de convívio, em busca da possibilidade mais possível de construção e imaginação de antiestruturas suficientemente boas. É agora.

o sol está chorando (por aqui também)

o sol está chorando (por aqui também)

5 comments for “Do que você se ocupa?

  1. Raysner
    10 de novembro de 2016 at 19:26

    Oi Marina

    conforme a barrinha “descia” a página os meus olhos ensaiaram um temporal.
    Cai um temporal lá fora, em Belo Horizonte.
    Cai um temporal no mundo.
    Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos da América. Ontem. Recebi essa notícia pela manhã. A Marina de sábado podia até desconfiar, mas ainda não sabia de mais esse golpe. Agora, é fato: há algo de muito podre e de muito perverso no poder.

    Ai, ai.

    Ontem saí para dar aulas de Teatro em uma escola. Para crianças de 09 e 10 anos. Lá, durante a tarde, brincamos de inventar vidas, reinventando as nossas. Ontem um aluno me perguntou o porquê da minha cara estar tão triste.
    “Pela sua cara, parece que você gostaria de estar em qualquer lugar, menos aqui…” ele disse. E arrematou: “você é feliz sendo professor?”

    Respondi que sim, é claro.
    Mas depois fiquei pensando…
    sobre a minha cara, sobre ser professor.
    Professor de Teatro neste mundo de hoje.

    Sabe?
    Ser professor e artista de teatro me faz demais. Porque a medida que essas más notícias todas chegam o teatro sempre me lembra que é possível outra forma, outro convívio, um mundo novo! É a minha forma de lutar e caminhar nessa marcha silenciosa que vai na contracorrente… que resiste…

    Eu, durante a graduação, te ouvi e convivi muito com você. Ufa! Ainda bem. É graças a aquele tempo (também) que hoje consigo enxergar essas luzes no fim do túnel. Tempo dilatado (que se alarga até agora, graças ao agachamento, este blog-site casa de “mãe” [ainda bem que ainda podemos brincar, imaginar, ficcionalizar…] ao qual eu sempre torno). E diminuo a distância. Me alimento de saberes. Tenho notícias da sua forma de luta. E que bom tê-la na luta. Desse lado. Que bom é marchar ao seu lado!

    Bom ver o AGACHAMENTO envelhecer mais forte, mais bonito, mais amplo. Belo jardim esse cultivado por você. Verdinho… Muito vivo. Parecendo até que pegou essa chuvarada que agora cai lá fora para a vida pulsar mais viva nessa primavera tão estranha…

    Sorte a nossa.

    • agachamento
      11 de novembro de 2016 at 09:43

      Olá Raysner
      Que bonito seu “retorno”, e que bonita a imagem do Agachamento como “casa materna”…
      No momento penso que uma das saídas para a crise e a crise da nossa profissão será politizar nossa prática, mesmo com as crianças bem pequenas… por politizar quero dizer: liberdade de expressão; compreensão do outro; aproximação, mesmo que em pequenas doses, ao mundo compartilhado — no qual estão as merdas todas dos adultos…
      um abraço materno
      da Marina

  2. Patrícia R.
    23 de novembro de 2016 at 16:05

    Oi Marina,
    tudo bem?
    Por aqui ando lidando com meus dilemas e tentando compreender os externos.
    Atualmente sou mãe de uma menina de 1 ano e 8 meses e te confesso, é desconstrução da infância que tive para a possibilidade de construir uma realidade mais harmônica, afetuosa e de fantasia para a minha menina.
    Ela tem eu e eu tenho ela… E as demais crianças? vou fazendo tb o que posso, mas sei que é pouco.
    Chorei muito ao longo do seu texto.
    Sentir deveria ser algo libertário…
    Cuidemos de nossas crianças.
    Grande abraço

    • agachamento
      25 de novembro de 2016 at 14:43

      Oi Patrícia! Que bom ver que vc passeia pelo Agachamento…!
      Sentir é sim libertário! Mas pode ser libertário e triste, ao mesmo tempo. É como eu vejo seus dizeres.
      Penso que precisamos reunir forças para reagir e trabalhar em prol das crianças menos favorecidas, sempre!!
      Um abraço e obrigada pelo comentário carinhoso
      Marina

  3. Luciana Cezário
    28 de novembro de 2016 at 12:49

    Entre “quem fui” e “quem serei”, desejo vida longa ao Agachamento. Marina falou de outro modo de habitar o blog e Raysner falou de casa de mãe. me lembrei de Arnaldo Antunes: “não me falta tapete/só falta o seu pé descalço pra pisar”:

    https://www.youtube.com/watch?v=82aj1Bg8FpA

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