Mariana conta Bento

Eu tenho um sobrinho neto chamado Bento, que nasceu em Los Angeles. Sua mãe é pessoa de teatro, e seu pai, músico. Como forma de compartilhamento com a família no Brasil, Mariana tem feito diários, fotos, filminhos… e agora gravações de áudio, de modo que vem se tornando uma verdadeira fenomenóloga do próprio filho… rs.

agachadinho

quase agachadinho

A convite meu para ela, postaremos um trecho de seu diário aqui:

Diário de Bento, 23 de outubro 2016

São quase 6 meses!
Nossa! E passou rápido! Muito rápido!
Acho que passa rápido porque cada dia é algo novo que acontece, e você vê a transformação diária daquele serzinho que acabou de sair da sua barriga!

A semana que passou foi cheia de novidades! Bento começou a fazer “brbrbrbr” com a boca, ainda sem som e cheio de saliva! Se diverte. Também tá ficando mais estável se eu o coloco sentado, para por alguns segundos ou fica por minutos só segurando meus dedos, faz flexões com os braços e olha pra gente com aquela carinha “tá vendo o que eu to fazendo agora?”! Todo orgulhoso!
Nesses 6 primeiros meses ou 5 e poucos… o que mais surpreendeu e deu aquela confusão de sentimentos foi vê-lo tentar engatinhar pra primeira vez.
Começou com a flexão dos braços erguendo o corpinho do chão, depois a barriga saiu do chão e foi aquela conquista incrível, e o bumbunzinho, até chegar nos 4 apoios ontem: joelhos flexionados e o corpinho todo no ar. Tudo isso (que pra ele foi bastante) durou uns 2 dias.
Ele não consegue se arrastar pois temos carpete em casa, a superfície não facilita. Na terça fomos na casa de uma amiga e lá o carpete é de madeira e ele ensaiou bem pra começar a arrastar… Mas rolava de um lado pro outro ou girava no eixo da barriga!
Enfim, quando chegou nos 4 apoios, além de ficar super orgulhoso da nova conquista também ficou bem frustado, irritado e chateado. O Bento não é de chorar, mas isso tem feito com que chore esses dias (partindo o coração da mãe).
Via no olharzinho dele que algo muito legal estava acontecendo. Ele sabe que está prestes a conseguir algo bem importante, apesar de não saber exatamente o que… mas ele não consegue. Não adianta o tanto que ele mexa o corpo pra frente e pra trás, a cabeça de um lado pro outro, nada muda. E isso o frusta de um tanto. Cansa. Deita. Começa de novo. E assim passa horas, até que pede mamazinho, mama com uma sede de deserto e dorme. Acho que ele nunca dormiu tanto, exausto, nem cansou tanto. Acorda, começa tudo de novo e fica assim por horas.
Hoje ele começou nessas tentativas a tirar o joelho do lugar e a se mover pra trás. Levanta o tronco, olha forte — “agora vai, mamãe” –, sorri, fica nos 4 apoios, se mexe pra frente e trás, mexe as perninhas (que não saem do lugar), cansa, resmunga, desiste, chora irritado, para, levanta… e começa tudo de novo. O olhar e o sorriso de “agora vai” é o mesmo a cada tentativa.
Isso me enche de esperança e, ao mesmo tempo, de tristeza (dá aquela confusão de sentimentos).

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A gente perdeu esse olhar, a gente perde essa garra, essa gana, a gente perde pela vida essa confiança de que agora vai dar certo, mesmo depois de tentar a mesma coisa… exatamente do mesmo jeito o bebê tá seguro de que, em algum momento, ele vai conseguir: não importa quanto tempo vá demorar. Vai repetir esse mesmo exercício mil vezes, se for preciso para chegar no resultado que tá buscando (que ele nem sabe qual é), mas ele não desiste, ele não tem medo. Talvez porque do outro lado tem uma mãe e um pai (e toda a família mesmo de longe) torcendo e dizendo “vc consegue!”. Ou não.
Não sei o que se passa na cabecinha dele e muito menos o que nos fez deixar de acreditar, passamos a duvidar de nós mesmos, e a nos boicotar com o tempo.
Só sei que foi bonito demais ver o brilho nos olhinhos dele famintos por novidades. Bento, desejo que você nunca perca isso (mesmo sabendo que de uma forma ou de outra vai perder!), que sempre consiga olhar a vida com a curiosidade da primeira vez, e isso se transforme em sabedoria para enfrentar todos os obstáculos.

Na verdade eu desejo isso pra todos nós! Que voltemos a olhar a vida com os olhos sábios e curiosos da nossa criança interior. Ela é certamente muito mais sábia que o adulto cheio de máscaras que (impreterivelmente) nos tornamos!
Quem sabe assim a vida fica mais leve e colorida!

Beijos, e agachos
Mari

 

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