Resposta a Luênia ou “Eu já posso morrer”

Estive publicando no Agachamento, em três partes, um texto-carta que foi escrito como relatório final de Iniciação Científica de Luênia, bolsista de Luciana Hartmann, na graduação em teatro da UnB. Eu não poderia nunca deixar de responder a ela! Segue então a resposta:

soltar os desejos

Luênia,

Compreendo bem sua comparação das escolas com prisões; sabemos que diferentes teóricos já estudaram e falaram sobre isso, e também vejo suas aflições nos corpos & mentes dos meus próprios alunos: estamos formando vocês com base em princípios humanos e poéticos, que nem sempre são bem vindos nos lugares que prendem desejos…

Como fazer?

Como exercer nossa profissão, e levar o teatro para aqueles que se interessarem por ele – e não a todos “por obrigatoriedade da lei”!??

Como trabalhar de modo que cada ser habite a morada do corpo, que as crianças conheçam suas fadas e bruxas, seus ‘lados B’, e possam, com riqueza, falar disso por meio de depoimentos, testemunhos, criações, jogos, brincadeiras e teatralidades?

Percebo com clareza que meus alunos, mesmo os mais novinhos, acham, por vezes, que sou… “viajante”, criatura de outro planeta, idealista, enfim,  há muitos jeitos de reagir a meus dizeres; um dos principais desses dizeres é:

o objetivo central da aula de teatro é ser feliz.

Me olham de um jeito atravessado, ou então com comiseração; talvez porque não viveram, eles mesmos (como eu vivi, e muitos da minha geração) o fazer teatral como felicidade. Então, essa é a minha linha! Meu método! Minha possibilidade mais possível: ser docente na Licenciatura em Teatro de modo a formar professores felizes em sua profissão e que levem esse tipo de felicidade para crianças e jovens, Brasil afora.

Sei que temos problemas, lacunas, questões graves no ensino e na convivência escolar… mas acredito serem problemas da comunidade adulta, especialmente. E acredito também que o ensino do teatro pode dar conta de uma parte dos problemas, pois há falta de diálogo, e o teatro é dialógico, e também, é monólogo e é estética do absurdo (falar sem diálogos, sobre o nada, sobre o tédio, sobre a vontade de morrer). Outro problema grave são os salários para nosso campo de trabalho – e sobre isso, não podemos ficar parados, precisamos estar nos lugares das políticas públicas, lutando pela nossa dignidade, sempre.

Enfim, sua carta foi um dos presentes mais bonitos que recebi na minha vida adulta. É um presente por ser uma forma-conteúdo, um riquíssimo e original fichamento dos meus textos (rs) que tentam convidar, sempre, o leitor à sua “poética própria”. Foi o que você fez e exerceu. Quando coisas assim acontecem, eu penso, e penso feliz: Já posso morrer. Viverei de certo modo na Luênia. Obrigada!

 

2 comments for “Resposta a Luênia ou “Eu já posso morrer”

  1. 25 de setembro de 2016 at 19:15

    “o objetivo central da aula de teatro é ser feliz.”

    Oi Marina. Como gosto do seu site. Quando o leio sinto que estou caminhando por um caminho que pode fazer diferença na vida de cada aluno que eu passar. Destaco essa frase sua do texto porque vem de encontro com o projeto que fiz em 2013 em uma escola do campo para conclusão do meu curso de Teatro/Licenciatura na Universidade Federal do Tocantins. O projeto foi fruto de uma grande inquietação que eu tinha durante a graduação:

    “Como são chatas as aulas de jogos teatrais, técnicas teatrais, elementos teatrais.. etc. Será que darei aulas chatas assim que buscam resultados pré estabelecidos e não a experimentação genuína do aluno? Eu não quero isso. Penso eu que o teatro ocupa um lugar de satisfação.”

    Com essa inquietação que me afligia muito a ponto de até ir contra meus professores de graduação na época, optei colocar em prática se haveria uma metodologia de ensino de teatro que gerasse no aluno satisfação. Pois bem, foi isso que fiz. Apliquei meu projeto em uma escola no campo. Com alunos do 6º Ano. As perguntas antes de partir para uma prática com eles eram:

    “O que é teatro para você? Por que fazemos teatro na escola? Você gosta da aula de teatro?”

    O projeto resultou em um artigo de conclusão de curso orientado pelo Dr. Juliano Casimiro. O trabalho teve o título: “Teatro e ação simbólica: discussões a respeito da ideia de satisfação.”

    Teria muito a contar sobre as experiências que tive depois desse despertar com a conclusão do curso. Hoje sou professora da mesma escola que apliquei o projeto e todos os dias, como a Luênia, tenho aberto uma caixinha de desejos para todos os alunos que passam por mim. E sabe o que percebi? Que é isso que me dá prazer em ser professora/observadora/mediadora de teatro. Pela vida que cada aluno me traz.

    Abraço enorme de Marina para Marina.

    • agachamento
      27 de setembro de 2016 at 12:10

      Que bom, Marina, que o Agachamento faz sentido para vc! Um abraço, também “de Marina para Marina”

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