E.T. desembarca em Escola Pública de São Paulo

Crianças acolhem ET em uma atividade de teatro

o E.T. sou eu

Desde o final de maio, me propus um “voluntariado”: dar sete aulas de teatro para crianças do primeiro ano do Ensino Fundamental de nove anos, em uma escola estadual.

Trabalhei como professora de teatro por quase vinte anos, e de certo modo me especializei na faixa etária dos 5 e 6 anos – idade dessas crianças. Minha iniciativa tinha inicialmente foco na continuidade do brincar, coisa que já era sabida por mim que não estava acontecendo entre aquelas crianças, recém-chegadas no Ensino Fundamental.

Transcrevo aqui dois parágrafos do meu projeto:

Sinopse: Esta oficina relaciona o brincar de faz de conta e as primeiras práticas teatrais da criança. A partir da valorização da importância do brincar na infância, com base teórica nas idéias de D. W. Winnicott, vamos  introduzir práticas teatrais simples na rotina escolar, por meio do uso de objetos lúdicos, materiais não-estruturados, da consciência corporal e da palavra falada.

Metodologia: Jogos corporais, brincadeiras tradicionais, contação de histórias, construções com sucata, brincadeiras de faz de conta transformadas em teatro de bonecos.

Eis que quando chego no primeiro dia, as crianças eram tão “imaturas”, quero dizer, imersas em suas subjetividades – medos e fantasias e tudo o mais (saudade da creche ou da EMEI, saudade de casa e da situação de “ser pequeno”…), que passei a aula inteira para fazer uma roda com cadeiras (50 minutos, aproximadamente). Isso se deu também porque eu mesma, para eles, era uma novidade ali… e eu estava permitindo levar a própria cadeira para o outro lado da sala, as cadeiras no topo da cabeça – e compreendi depois que aquilo, por si só, era um acontecimento! Nesse dia meu “ganho” foi um garoto dizer, depois de todos mais ou menos sentados, numa roda ovalada: Parece uma reunião.

(Se “teatro é encontro”, como quer Grotowski, então um garoto na sua primeira aula de teatro considerar aquilo uma re-união poderia ser considerado um ganho)

Mas também ganhei em mim a percepção de que meu desejo de “ensinar teatro” estava de certa maneira equivocado. Meu mote inicial, vejo agora, precisava ser: estar com crianças que encontram-se em transição da organização pré-escolar para um mundo no qual, segundo o próprio aluno contou para o colega novato: Aqui, os grandes batem nos pequenos depois do almoço.

Se por cerca de uma hora por semana as crianças serão relativamente livres para brincar com seus corpos, imaginativamente, criar a seu modo narrativas e personagens, e se conseguir que isso seja um momento prazeiroso e significativo, não importa se “isso” se chama aula de teatro!

Na quinta semana fiz um jogo de estátua onde, quando a música parava, todos deviam fazer “um colo quentinho” para ver se o E.T. escolhia deitar nele… Foi emocionante ver as crianças, elas mesmas em grande número um tanto quanto largadas no mundo, corporificando a função de maternagem.

E percebo, relendo meu projeto: o E.T. sou eu, a “professora doutora com pós-doutorado em pedagogia do teatro” querendo ensinar teatro para um grupo de crianças cujas necessidades prementes são acolhimento e aceitação de quem são: simples assim.

 

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