Postagem a convite: carta da Luênia para mim / parte 3

No final de agosto recebi um presente; um presente inusitado: o relatório final de uma aluna da UnB em Iniciação Científica, no campo das Artes Cênicas, era uma carta para mim! Fiquei muito feliz! E convidei sua autora, Luênia Guedes, orientanda da Luciana Hartmann, para publicar a carta aqui no Agachamento. Depois das postagens, divididas em três partes, vou publicar a resposta…

parte 3

Eu resolvi conversar com a Elyse sobre essas pelotas inquietas que estavam saltando na minha cabeça, nessa conversa ela me falou de metodologia do coração, nossa eu estou muito feliz de ter conhecido a Elyse, é muito bom quando a gente encontra que pensa parecido com a gente… Olha Marina, eu acho ela até parecida com você. Bom, mas antes que eu me perca quero voltar para a terça-feira. Nesse dia uma coisa extraordinária aconteceu com o tempo… o relógio estava girando louco, como se quatro dias durassem um dia, uma sensação de pressa, como se nada que você quisesse fazer coubesse dentro do tempo. Mas eu tentava driblar o tempo, adaptando os meus planos, claro que sem deixar de prestar atenção nos desejos – seria difícil demais não ouvi-los. Na verdade esse era um dos meus desafios, eu queria ouvi-los, eu podia perceber neles a vontade de pular, andar pelo espaço, enxergava a inquietude dos desejos, mas por algum motivo que eu ainda não consegui encontrar uma resposta para meus questionamentos. O lugar cercado causava alguma coisa que deixava a maioria dos desejos um tanto silenciados, mas não era um silencio só de voz, era um silencio de corpo inteiro. Eu queria reconhecer neles as formas de expressão dentro desse contexto. Lançar um olhar para a forma como os desejos (se) entendem, reconhecem e expressam e, a partir dessa reflexão, criar uma metodologia sensível, uma vivência artística comprometida com a experiência, seja ela expressa em gestos, corporeidades e/ou visualidades. Sem limitar a experiência no corpo. Pois cada corpo é um universo. Meu desejo nessa experiência era dar voz ao corpo, era abrir espaço para a expressão do sujeito-estudante, incentivar uma postura autônoma e exploratória nos educandos. Queria estimulá-los a pensar sobre si mesmos, sobre suas histórias, a valorizar seus saberes, transformando essa experiência investigatória em narrativas cênicas, usando a história e o cotidiano do estudante como fonte de expressão artística para, dessa forma, valorizar sua identidade e seus símbolos. Oportunizando aos estudantes uma possibilidade de criar narrativas sobre sua história. Transformando seu cotidiano em produtos artísticos e incentivando a valorização da expressão do estudante como arte.

A pedagogia do teatro, tal qual eu havia me apropriado, uma pedagogia sensível e híbrida, viva e enxertada pelas minhas experiências de vida – como estudante, artista, professora e pessoa -, se apresentava, mais que nunca, uma possibilidade de expressão artística imbricada com as histórias dos sujeitos, uma oportunidade de ser e estar: corpo indivíduo que manifesta sua poética e, também, ser e estar corpo político que se identifica enquanto grupo, se vê nos conflitos do outro, se percebe um corpo maior que não vaga sozinho. Que na união do grupo pode produzir arte e expressão legítima de um desejo. Estou certa de que a contação de historias dentro desse contexto, abre caminho para uma experimentação cênica no corpo. As possibilidades cênicas propostas por  mim nesse processo se apresentaram como um caminho sensível para o “despertar” de um corpo acostumado com as cadeiras imóveis das pequenas e super lotadas salas de aula. Abrindo caminho para uma relação com o corpo como espaço cênico de expressão.

ESPERO QUE UM DIA O LUGAR CERCADO DEIXE DE SER A ESCOLA E QUE AS CRIANÇAS CONTINUEM SENDO DESEJOS

 

FIM

por Luênia Guedes

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