Postagem a convite: uma carta de Luênia para mim / parte 2

No final de agosto recebi um presente; um presente inusitado: o relatório final de uma aluna da UnB em Iniciação Científica, no campo das Artes Cênicas, era uma carta para mim! Fiquei muito feliz! E convidei sua autora, Luênia Guedes, orientanda da Luciana Hartmann, para publicar a carta aqui no Agachamento. Depois das postagens, divididas em três partes, vou publicar a resposta…

parte 2

Eram 29 desejos e o conflito: silêncio x “barulho”, corpo quieto x corpo atento. Eu podia me reencontrar naquela sala enquanto desejo, eu podia revisitar meu passado e lembrar que eu também já estive num lugar parecido como aquele, me lembro bem da tal necessidade imposta de permanecer calado e sentado-sedado, quieto em uma cadeira. Agora quando entro nessa sala numa outra condição, quero fazer diferente, por mim e por eles, quero ouvir, quero que se movimentem, quero acolher a inquietude e quero questionar isso enquanto docente também. – Oi meu nome é Luênia, sou estudante de artes cênicas e vim aqui pra gente fazer algumas experiências cênicas, contar e ouvir histórias. Mas antes de começar quero saber se alguém tem alguma pergunta pra me fazer? Algum comentário? Eu não queria empurrar nada guela abaixo, todo desejo merece ser ouvido. Eles tinham perguntas: – você é brasileira? Você é desse planeta? Quem é sua mãe? Quanto tempo você vai ficar aqui?

Começo por estabelecer um código de atenção com a turma, esse código eu aprendi com uma amiga-professora que se chama Wanuza, consiste em levantar a mão e quem estiver atento também levanta a mão, e assim vai se tornando um contágio de atenção. O silêncio é uma consequência. Eu apresentei o código de forma brincante, como um jogo fui criando a relação, uma linguagem para que eles pudessem entender por outros sentidos, sem que eu precisasse somente falar. Depois que eles entraram no jogo eu firmei esse primeiro código e enfatizei que esse código seria uma oportunidade de guiar a nossa atenção, um ouvir com o corpo todo.

Eu os convidei para um círculo, automaticamente eles se sentam no chão. Sentar parece ser uma prerrogativa de silencio e bom comportamento. Regras que o lugar cercado reforçam a todo momento. Eu peço para que fiquem de pé e explico o jogo “poema do eu”: cada um fala sua cor preferida, numa segunda rodada sua comida preferida, na terceira rodada um objeto imaginário – antes da  terceira rodada percebo seus corpinhos inquietos, ansiosos. Poderia ser a tentadora posição de se estar de pé e ter um mundo de possibilidades sem que se possa explorá-las. Diante da situação eu proponho uma imagem para eles, a imagem de um ninja. Pergunto se eles conhecem a figura do ninja, eles me descrevem em detalhes, vejo o desejo deles em compartilhar o que sabem sobre o assunto… – Nossa! parece que o tempo não será suficiente. Não deixo essa preocupação me afetar pois o mais importante desse encontro era que nos conhecêssemos e criássemos esse vínculo. Apresentado o ninja, peço que eles tentem agir como um ninja durante esse exercício e solicito que na rodada seguinte cada um fale seu nome e faça uma pose/gesto de ninja. Eles se sentem muito estimulados com a imagem do ninja.

Aproveito o ninja para o próximo momento do nosso encontro. Como eles tinham muita energia, propus uma caminhada pelo espaço, começamos lentamente (ou pelo menos tentamos) e depois evoluímos para uma caminha mais rápida. Ao final do exercício de caminhar pelo espaço peço para que eles fechem os olhos, para que percebam seu corpo, uso a figura do ninja novamente e faço uma analogia onde o ninja que quer fazer golpes e saltar estar dentro no corpinho deles e que naquele momento a gente ia segurar o ninja um pouco, não íamos deixá-lo fugir. Enquanto eu falava do ninja e do corpo eu ascendia uma luminária com uma vela e colocava um cocar no meu pescoço, como uma espécie de colar. E como se estivéssemos todos em volta de uma fogueira eu começo a historia de como se compartilham histórias nas aldeias mundurukus, naquele momento eu era uma menina indígena que compartilhava histórias de como ouvir e contar histórias, em volta de uma fogueira as crianças contam suas aventuras na floresta, os mais velhos escutam e aprendem com os menores, as mães catam piolhos na cabeça dos pequenos, ensinam e contam.

Durante a história todos conectados comigo, atentos. Queriam saber  se essas histórias eram todas minhas, ao final eu olhava para seus olhinhos, o corpo que se movia e reagia curioso. Olhava aquilo e queria acreditar que ali o corpo se tornava um “lugar” em potencial para expressão do sujeito. Sendo o corpo-estudante sua expressão enquanto sujeito no lugar cercado: poético, político e artístico. Era essa expressão do sujeito e a relação do corpo-estudante naquele contexto que me pungia os olhos, era sobre esses desejos de histórias latentes que eu queria observar, interferir e compartilhar. Uma experiência que partia dos desejos silenciados no lugar cercado, para uma investigação e um experimento que fomentava o corpo-estudante como território de expressão do sujeito.

FIM DA PARTE 2 / A SER CONTINUADO

1 comment for “Postagem a convite: uma carta de Luênia para mim / parte 2

  1. Raiane
    13 de setembro de 2016 at 04:06

    Que bom poder acompanhar a carta de Luênia!

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