Postagem a convite: uma carta de Luênia para mim / parte 1

No final de agosto recebi um presente; um presente inusitado: o relatório final de uma aluna da UnB em Iniciação Científica, no campo das Artes Cênicas, era uma carta para mim! Fiquei muito feliz! E convidei sua autora, Luênia Guedes, orientanda da Luciana Hartmann, para publicar a carta aqui no Agachamento. Depois das postagens, divididas em três partes, vou publicar a resposta…

parte 1

Cara Marina,

Preciso te contar uma coisa que aconteceu comigo, foi numa terça-feira nublada de maio, num desses dias que você pensa que nada diferente pode acontecer, era para ser mais um dia normal, mas aconteceu que nesse dia eu encontrei 29 desejos. Eu me sentia um pouco diferente naquele dia, era como se eu estivesse do avesso, sensível ao universo ao meu redor. Meus ouvidos pareciam mais atentos e minha pele funcionava como sensores de um polvo estranho, era como se todo meu corpo fosse olhos, ouvidos e boca. Corpo coberto por papilas gustativas-auditivas, sentindo sabores nos sons e nas vozes escutadas. Uma espécie de massa sensível me cobria e fazia de mim um ser estranhamente diferente. Um dos sintomas dessa minha nova não-forma eram algumas questões na minha cabeça falante, perguntas soltas sobre crianças, histórias e desejos: o que acontece com as histórias que não são contadas? O que acontece com corpo que não fala suas histórias? pensei – será que a história que não é contada sai vagando por aí procurando uma boca que possa contar, uma perna pra levar, um corpo pra acontecer…. será que cada corpo que não diz se endurece um pouquinho como quem vai se transformando em estátua?

 

Marina, antes de te dizer o que aconteceu comigo, é necessário esclarecer que para tentar  transpor essa experiência em palavras táteis, precisei inventar algumas outras, em outros momentos tive que buscar palavras grandes e rebuscadas que já existem. Não poderia deixar de fora dessa partilha, também, as histórias contadas por outras pessoas. Talvez você nunca tenha lido uma carta assim, pode ser diferente do que você costuma ouvir e ler, espero que você entenda, nem considero que entender seja meu objetivo, eu realmente espero que você sinta. Que você possa se transportar para essa história fabulosa que aconteceu comigo, que seja uma experiência de sensorialidade, assim como foi pra mim, uma vivência de ouvir e de contar histórias. Estarei atenta na escolha de minhas palavras para que elas atuem como formas, desenhos, sons, numa expectativa que durante esse momento de leitura elas escapem da tela ou papel e toquem sutilmente o seu corpo. Que meus pensamentos loucos ou poéticos cheguem até você transfigurados em poesia tátil.

Minha cabeça pensava, falava, perguntava.

Comecei a busca pelas respostas. O primeiro lugar que eu procurei foi em outras pessoas, em cada um que eu percebia o interesse pelas histórias eu tentava descobrir, e essa troca de conversas e escuta de histórias alimentava pouco a pouco a fome da cabeça pensante. A cabeça que também era corpo corria inquieta e buscava respostas em outros lugares como, livrarias, salas, escolas, e foi aí que eu te encontrei, em um não-lugar cibernético, na nuvem virtual do nosso mundo… sim, esse magnífico e perigoso lugar onde se pode ser onipresente, a internet.

Nessa mesma nuvem eu acabei topando com outras pessoas que pensavam parecido comigo, uma delas foi a Elyse. A primeira coisa que me impressionou na Elyse Pineau era a forma que ela falava, uma escrita performática, de forma bem livre e sensível ela revelava suas experiências com a educação libertadora com muita vivacidade, isso me deixava mais confortável em também falar (ou até mesmo te contar essa história) de forma livre e afetiva, e deixar a poesia das histórias permearem essa carta que te escrevo.

No dia que eu encontrei os 29 desejos eu sabia que era um dia diferente, eu os encontrei em um lugar muito diferente… eu não me lembro muito bem como fui parar lá, provavelmente uma dessas coisas velozes que vida inventou de um-que- fala-pra-outro-que-fala-pra-um… volta aqui pensamento que quer voar, eu amo essa coisa de voar e inventar …. o lugar era mesmo exótico, primeiro porque tinha muros, grades, eu não entendia porque um lugar com desejos tão interessantes precisava ter grades e ainda como aquelas – estreita, ângulos pequenos, enferrujada – uma grade daquela deixava qualquer um do outro lado realmente assustador. O lugar cercado também tinha outras coisas singulares, todos os desejos que entravam lá precisavam ficar bem quietinhos, sim!

Era de manhã bem cedinho e os desejos já estavam acordados – logo os desejos que precisam dormir muito que é pra crescerem mais – todos em fila, e uma pessoa falava no microfone, provavelmente a diretora, dizia que os desejos deviam ouvir mais e falar menos, as pessoas daquele lugar também tinham outros comportamentos bem intrigantes… eles queriam que os desejos ficassem divididos por sua semelhança – talvez esse seja o interesse do lugar cercado: fazer com que os desejos sejam semelhantes, mas desejo que é desejo é sempre diferente – era muito importante manter e fazer filas. Depois desse momento os desejos se encaminhavam comedidamente guiados por uma professora até um pequeno espaço dentro do lugar cercado, esse lugar é comumente chamado de sala de aula.

Quando eu cheguei lá eu queria manter meus olhos e ouvidos muito atentos na tentativa de descobrir o que o corpo deles queriam dizer, mas eu podia notar um certo enrijecimento em seus corpos, contidos pelas regras, padrões, mais até do que pelas cercas e muros. Eu estava à procura de desejos silenciados, de histórias não compartilhadas. Procurava naqueles pavilhões de concreto pequenas expressões perdidas, dizeres presos sob tetos de zinco. Olho com cuidado, tento ouvir e ver a voz dos que passam de uma aula para outra. Assim que entramos na sala a professora direcionou cada um para seus devidos lugares, elegidos por ela. Depois que todos se sentaram ela os saudou com um booom diaaaa! Eles responderam em um uníssono hipotônico booom diaaaa! Logo a professora falou: – depois do bom dia a gente faz?? a turma completou falando todos juntos mais uma vez:  silênciooo. Para  mim  era  quase  inacreditável  ouvir  essa  saudação,  eu procurando histórias e o lugar cercado almejando sempre o silêncio. Eu olhava para aqueles desejos e enxerava poesias saltitantes, cores, texturas, histórias em pleno movimento. Logo quando eles perceberam minha presença – os desejos que normalmente são muito curiosos – começaram a investigar minha história, minha cara, minha família. Adoro encontrar desejos curiosos! Logo entre nós pairavam uma energia amistosa, a sensação boa da surpresa do primeiro encontro. Se estabelecia uma relação de troca e partilha, antes de eu começar a propor nossa vivência um desejo se aproxima de mim e me pergunta baixinho: a gente vai fazer uma leitura? Eu respondi que não e perguntei porque. Ele me responde com outra pergunta: – Mas a gente vai poder falar? É porque a gente nunca fala alto. Naquele momento eu percebi que independente do espaço concreto que estivesse ao nosso redor nós já tínhamos nossos corpos como foco principal dessa experiência, tínhamos o “quem” como espaço cênico. Como você faz a reflexão sobre Merleau-Ponty quando aponta que a criança experiencia o corpo não a partir da espacialidade de posição (sem partir de um “onde”), mas antes concebe a corporalidade como “uma espacialidade de situação” – partindo, então, de um “quem” e seu contorno/entorno desenhado em gesto e palavra.

FIM DA PARTE 1 / A SER CONTINUADO

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