Sobre o não saber

O curso encarnado no corpo

atitude fenomenológica

Neste semestre estou novamente lecionando minha disciplina na pós-graduação da Escola de Belas Artes – na linha das “Artes da cena”. A disciplina tem um nome enorme, mas seu apelido é “Poéticas próprias”. Ela é feita de dez encontros de três horas, nos quais os alunos são convidados a olhar pela janela da Fenomenologia… a entrar pela porta da pesquisa autobiográfica, que se torna texto autoral, gesto e palavra, para habitar.

Aprendi com o professor John Dawsey, da Antropologia da USP, que podemos discutir textos teóricos noutra chave: na chave do performar, na chave do corpo encarnado, amassado, manchado pelas ideias, nexos e incertezas dos teóricos estudados.

No caso da disciplina, o modo do corpo encarnado apresenta / presentifica, em folhas de papel, a narrativa vivida pelo aluno durante as semanas: cada um será avaliado pelo seu diário de bordo das tardes das sextas-feiras.

permitir-se ser no escuro

Interessante ver como isso “afligiu” muitos dos alunos, e os fez ficar tal qual “bons alunos” na busca de cumprir corretamente a tarefa… No entanto o caminho mais próximo, e mais apropriado,  é sair tateando um caminho ainda incerto, talvez no escuro… Já disse por aqui, em postagem anterior, que a Fenomenologia é um jardim japonês. Reafirmo isso. O olhar fenomenológico é  simples, por buscar a volta às coisas mesmas, e, nessa busca, procurar pelo que Merleau-Ponty chama de “o mistério do mundo”. Para conectar nisso precisamos de um tipo de temporalidade que não faz muito parte da nossa vida cotidiana… um tempo dilatado, que nos permite escutar, observar, meditar sobre o fenômeno estudado. Novamente: seria simples, se não fosse complexo, quando implica numa atitude generosa e pacienciosa. Não vale sobrevoo: é mergulho na cotidianeidade, convívio e comiseração – palavra cujo oposto é a indiferença. Dá trabalho. É trabalho. Requer disponibilidade e abertura para o novo.

 

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