Convite à escuta do mapeamento do Léo / parte 1

Apresento aqui, para os leitores do Agachamento, o trabalho final do aluno Leonardo de Castro Santos (ou simplesmente Léo). Percebo seu texto, uma espécie de carta-narrativa-de-si, como uma pequena obra-testemunho, que publicarei em duas partes. Tradução da experiência vivida no semestre por ele, objetivo e subjetivo ao mesmo tempo, ato criador em gesto e palavra, penso que levará meus alunos da Licenciatura em teatro da UFMG a uma grande identificação — e também, espero!, a uma admiração de sua sinceridade e capacidade de síntese daquilo que o curso veiculou e provocou por quinze semanas.

parte 1

Belo Horizonte, julho de 2016

Aproxima-se o fim do semestre e com ele o nosso personagem completa dois anos de universidade. Ainda se sente muito “baby”, como diz a professora Marina. A sua escolha pela Licenciatura não vem apenas do desejo de ensinar, de estar em contato direto com a educação, mas ela vem, também, acompanhada de um certo medo. Um medo que parece ser recorrente entre os alunos de graduação em teatro. Medo de ser apenas artista, de viver da arte, de não ter outro emprego fixo. Esse tal medo faz muitos alunos buscarem um caminho mais “seguro”, que seria a sala de aula, um plano B, talvez. Leonardo de Castro Santos, 31 anos, ator, aluno do quarto período do curso de graduação em teatro da Escola de Belas Artes da UFMG. Assim ele tem preenchido suas fichas, mas ainda tem dúvida de onde apostar as suas fichas.
A disciplina, “Seminários de Teatro e seu Ensino”, chega para deixar mais algumas dúvidas. Um modo diferente de ensinar teatro está sendo apresentado ao nosso personagem, que daqui para frente chamaremos de Léo, deixando claro que qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, ou não. Work-in-process, entretecer, antiestrutura, etnografia, são algumas das palavras e termos que, antes desconhecidos, passaram a fazer parte do processo de aprendizado de Léo.
Ensinar teatro parece fácil aos olhos nus dos que são ignorantes no assunto. Aulas divertidas, professor engraçado, peça de fim de ano… Não é isso! O professor que pensa, que quer contribuir, que quer fazer algo pelos alunos e pela arte, tem que sair do comum, fugir da via curta. Teatro é convívio, é a construção de uma nova realidade. Léo, agora, começa a entender que o professor não pode apenas deixar um exercício, pedir para que façam e depois ir olhar o resultado, ele precisa estar presente, trabalhar em conjunto, mostrar as potencialidades de cada aluno, tentar entende-los individualmente. O professor de teatro é como outro qualquer, mas é o mais diferente de todos. O teatro não é exato, não existe a formula perfeita, nem o artista modelo. Então como ensinar teatro? E como avaliar os alunos?
Pensando em avaliações, Léo não pode deixar de avaliar o semestre que passou. Ele entende que não se dedicou o tanto que gostaria e que deveria. Fato é que, no momento, Léo se enquadra em um grupo citado pela professora: o dos alunos cansados, cheios de tarefas e com pouco tempo para se encontrar.  O nosso personagem gostaria de ter aproveitado melhor o semestre, os textos propostos, ter tirado mais dúvidas, mas ele aceita e entende que o seu momento é para resolver outras questões e pensa que não pode esquecer o que aprendeu. A faísca de interesse do que viu na disciplina “Seminários de Teatro e seu Ensino” não pode se apagar, ele entende que o momento não foi agora, mas quer se preparar e se organizar para buscar novamente esses conhecimentos, experimentar o que foi aprendido, utilizar diários de bordo na sua vida pessoal e profissional. Léo entende que se ele fosse seu professor neste semestre, não estaria satisfeito com o seu desempenho, mas ele acredita no seu potencial e no que tem aprendido na universidade.
Nosso personagem, Léo, termina o semestre ainda com muitas questões. Ele entende que ainda está no inicio da caminhada, mas tem certeza que o olhar para aulas teatro nunca mais será o mesmo. Cada aula precisa ser pensada, planejada. O professor precisa ser um pesquisador, começando a pesquisa dentro da sala de aula. Conhecer os seus alunos, entender onde ele se encontra, a estrutura física e emocional que está ao seu redor e assim elaborar o seu plano de aulas, levando em conta as peculiaridades de cada caso. O resultado é processual e o professor é mais uma parte do processo.
A profissão de professor de teatro não pode ser um plano B de um artista, ela precisa de muito mais que isso, ela precisa ser o plano central, feito com amor e dedicação. O bom professor precisa se dedicar além da sala de aula, estar focado e ter o ensino como sua principal pesquisa. A disciplina fez com que Léo entendesse isso de forma clara, se ele não quiser ser apenas mais um, precisa ser único e isso só se dá com muito trabalho e pesquisa.
Léo leva muitas coisas da disciplina para a sua vida. O que ele pensa que pode utilizar em qualquer trabalho ou pesquisa, são os relatos. Etnografar, observar, perceber o outro. Tirar o foco de si é essencial para perceber as necessidades e os interesses dos alunos. Por fim, a disciplina se encerra e deixa em Léo a sensação de que um novo olhar reflexivo foi provocado. Mas é apenas o início, é preciso compreender que a leitura e a pesquisa é fundamental para o aprendizado e o ensino. É necessário ter disciplina.

fim da parte 1/ a ser continuado

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


+ nove = 18