Dez anos atrás…

No ano de 2006, vivi uma experiência de fracasso… Enviei um texto para uma revista “científica”, da área da Educação, artigo que se intitulava: Contar para crianças ‘histórias comestíveis’: ato criador e linguagem falante. Achei hoje o parecer, dobrado, guardado dentro do volume da minha tese de doutoramento (o texto acabou morando lá, integrado ao que chamei a flor da vida…). Diz o parecerista: o artigo em questão parece contribuir pouco para a compreensão do teatro infantil e literatura. Diz também: o resumo deveria ser redigido em 3å pessoa do singular (impessoal). E aponta que houve “quebra de anonimato” quando citei Machado, na página 5. (x) Parecer Contrário à Publicação

Nesta semana que passou, dez anos depois do meu fracasso anunciado por parecer da revista “científica”, vivi experiências de sucesso, como plateia de dois TCCs da Licenciatura em Teatro da UFMG, escritos por jovens pesquisadoras negras. Nada delas, nada nelas, era impessoal, ou teria sido redigido em terceira… Tudo de primeira!

Fico contente em perceber como os rumos da Universidade pública brasileira podem ser mudados, e como podemos sim ser pessoais – ao menos no ano de 2016 em diante, pleno século XXI!

Diz o final do parecer, em 2006 – rs rs, impessoal como deve ser! : Considerando as observações do consultor, agradecemos seu interesse e esperamos poder contar novamente com sua participação.

Digo eu, ao final da semana que mostrou o protagonismo das alunas negras: estejam sempre implicadas! Tornem públicas suas histórias de vida, pessoais e intransferíveis! Falem da cor, e também do cheiro da infância e da juventude… Pois  Carl Rogers estava certo quando disse:

aquilo que é mais pessoal é o que é de mais geral.

fotografia de José Medeiros (Acervo IMS)

 

A impessoalidade morreu. Viva o gesto autobiográfico! Que viva a quebra do anonimato, façamos no nome e do sobrenome nossos gesto e palavra!

Laroiê, Exu

(saudação e evocação ao orixá que abre caminhos; aprendi isso porque estava escrito na primeira linha do trabalho de uma aluna, entregue para mim na quarta-feira)

 

3 comments for “Dez anos atrás…

  1. Luciana Cezario
    11 de julho de 2016 at 13:42

    “A impessoalidade morreu. Viva o gesto autobiográfico!”

    Viva!

  2. 31 de maio de 2017 at 12:10

    Olá Marina! Eu gostaria de saber um pouco mais sobre as histórias comestíveis, além do que está na sua tese…acabei vindo procurar aqui outras referências e o que eu achei foi este texto de recusa do artigo…talvez vc tenha ainda alguma coisa dobrada em alguma gaveta que gostaria de compartilhar…eu ficaria feliz em ver outras histórias propostas e a reação das crianças e da contadora…se tiver algo mais e tiver vontade de compartilhar certamente você irá contribuir muito para o teatro e literatura infantis que habitam o lado de cá…

    • agachamento
      1 de junho de 2017 at 09:19

      Bom dia Munyke! Sim, meu texto completo sobre as histórias comestíveis deve estar guardado por aqui… Vou mudar de casa e vou rever muitos e muitos papéis… quando encontrá-lo, posso criar uma nova postagem. Fico feliz com seu interesse! Um abraço
      Marina

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


um + 9 =