Mapear-se, mapear-me

MAPEAR-SE, MAPEAR-ME

Marina me convida a descrever a experiência de mapear-me.

Mas, antes, Marina me convidou a estar a bordo com um Diário de Bordo; apresentou-me gente que guardava “água de lua” para, posteriormente, sorvê-la; convidou-me a estar sobre o chão “vazio”, e depois a riscar o chão, criar relevos e habitá-los. Convidou-me a estar longe-perto, dentro-fora das coisas mesmas. Marina me convidou a entrar, sentar, a abrir e a fechar janelas, a ficar à vontade. Misturou-se comigo, permitiu que eu me revelasse e, ainda, a viajar junto, a estar junto. Porque não, um viver-junto? Um viver que vai além da intimidade e da privacidade. Um viver em que  se afirma a vida pela escrita, em que nos ajudamos a olhar e a depor. Por fim, Marina me mostrou os mundos-mapas e neles me fui. Um mapa: uma gira. Uma gira é um estado de trabalho!

Mapear-se é uma das formas de afirmar a Poética Própria. O mapa, então, se torna uma extensão de minha poética ou, talvez, ela mesma. Sabe quando se desenha sobre o corpo? Então…: o mapa é o desvelamento de um corpo desenhado: corpo-próprio, corpo trans-criado no papel. Ali, no papel: ato revelador de caminhos achados, trilhas nebulosas, fronteiras para o desaparecimento, limites do acontecimento. Geografia do corpo incerto à procura de ilhas por se descobrir.  O mapa me permitia borrar, ramificar, liberar fluxos, abrir compotas, aproximar-me do cerne, criar desvios, deixar escorrer, inventar territórios, inventar um vir-a-ser, desembarcar. Permitia-me um não-saber. Mapear-se é um rascunho para uma “cena” aberta, móvel, cena-pesquisa a transformar-se. Mapa-árvore, mapa-flor, mapa-rio-mar, mapa das experiências, das frestas. Mapa de percursos inacabados, sempre. Mapa-corpo, mapa que mostra, embora, “nem tudo se mostra”. Será?

Tarcísio Ramos

Fim de maio/2016

Tarcísio estará no Terceiro Agacho do AGACHO, nesta sexta-feira, dia 3 de junho, para contar mais de suas experiências de pesquisador em artes da cena e performar seu mapa. Não percam! Das 10 ao meio-dia no Espaço Vinho do Prédio de Teatro da UFMG.

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