Ativismo não se ensina, se pratica

Ativismo como modo de ser e estar no mundo

Com o desenrolar dos fatos do impeachment da presidenta Dilma em diante, especialmente a partir da ocupação, em Belo Horizonte, da sede da Funarte na rua Januária, e a reverberação disso tudo nos meus alunos, percebi que é meu ponto de vista que o ativismo não se ensina – se pratica.

Digo isso porque os alunos mais jovens do curso de Teatro da UFMG ficaram “ávidos de liderança”; talvez necessitando de um “aval do adulto professor” para que aderissem ao movimento, para que pudessem pensar mais à esquerda, para que seus corpos, corações & mentes pudessem sair da tal zona de conforto…

… Fizeram alguns apelos para mim inclusive, mas fiquei reticente.

Ontem, visitando a ocupação da Funarte, percebi que minha intuição tinha razão de ser: quem quisesse estar ali podia estar ali; quem quisesse ajudar, filiar-se, expressar-se com indignidade e/ou com engajamento pela arte – qualquer arte, “a sua arte” – seria bem-vindo. Era esse o clima e a atmosfera.

Haviam inclusive diversas crianças. Crianças mais ou menos “soltas”, experienciando o que parecia ser um grande quintal, em um dia de sol de outono, com seus jovens pais procurando por um belo horizonte…

Penso que o ativismo está, em sua origem, nessa disponibilidade dos pais para deixar as crianças no grande quintal da vida. Aqueles que não puderam ir, que foram impedidos por adultos temerosos demais, higienistas ou autoritários, agora carecem de um adulto condutor… mas passou o tempo, pois a corporalidade do jovem adulto é livre e tem arbítrio. Na lei, somos adultos a partir dos dezoito anos. Sei que existencialmente a coisa se passa de outra forma. Mas cada um de nós precisa, “por amor e por força”, ser protagonista de si; habitar o corpo próprio; traçar trajetos e percursos na direção daquilo que percebemos como algo verdadeiro e significativo em nós, com o outro e no mundo. Rumo às possibilidades de independência.

Meu ativismo tem sido veicular as possibilidades dos atos performativos desde muito cedo, na infância e juventude, para que o aluno da Licenciatura se torne um adulto que proporcionará sim o grande quintal da vida na docência em Teatro. Aquém e além, cada um deveria rever sua biografia, para perceber-se livre ou amarrado, com desejo de sair às ruas ou permanecer em casa… Sem precisar de lideranças para tal. Depois da escolha, ir de encontro a alguma coletividade, que lhe diga respeito. Simples assim.

plaquinha na ocupação Funarte BH

 

2 comments for “Ativismo não se ensina, se pratica

  1. Raysner de Paula
    22 de maio de 2016 at 20:16

    Sempre bom inspirar o ar daqui.

  2. Bruna Chaves Chiaradia
    31 de janeiro de 2017 at 12:14

    Indo ali, rever minha biografia pra entender se muitas das angústias tem a ver com esse amarrar-se a coisas que nem são minhas. O mundo pra respirar.

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