Viajem comigo!

Sobre a necessidade de “viver um processo no corpo”

Tenho percebido alguns alunos um pouco ressabiados comigo; talvez não seja comigo, mas com “o mundo” em geral, ou “o mundo acadêmico” em particular – nosso curso de graduação em Teatro na UFMG.

Esse ressabiamento, quando sentido no meu microcosmo, tem a ver com meus princípios, pressupostos e convites aos alunos da graduação nas disciplinas que ministro: convite às antitestruturas (conceito sociológico discutido por Victor Turner); convite a “fazer diferente”, especialmente na Licenciatura em teatro, o que significaria propor a crianças e jovens processos criativos abertos, na metodologia “work in process” – privilegiando resultados processuais, antes que “cenas”, “encenações” ou “espetáculos”.

Os alunos ressabiados parecem ressentir-se de não ter “vivido no corpo” processos semelhantes, e consideram que não estão aptos a propor aulas nesta outra chave, posto que não experienciaram algo semelhante, eles mesmos… em seus corpos.

Tenho refletido esses dias sobre esse dizer, e penso: somos nosso corpo. “Viver o processo no corpo” pode ser lido como uma frase datada: algo próprio das décadas de 1960 e 1970, quando ainda víamos muito a cisão “corpo” e “voz”, “palavra” e “trabalho corporal”, “ensaio de mesa”, “ensaio corrido”, etc, nas rotinas das pessoas de teatro.

ta lá em Inhotim: instalação de Chris Burden

Talvez o que falta de fato aos alunos que se sentem pouco à vontade com algumas propositivas minhas seja abertura para o que é arte contemporânea, performance no cotidiano, teatro fora do teatro, aproximações entre arte e vida… Como docente, gostaria que os alunos usufruissem mais desses âmbitos, seja por meio de leitura teórica, seja “dando um google”, e indo a exposições, instalações, eventos menos tradicionais… para encontrar arte e contemporaneidade na vida, não em “laboratório do corpo”; criar, em pequenas atitudes, mudança e novos modos de ser e estar no mundo.

Fazer diferente, encontrar diante de si processos menos racionalmente organizados, tolerar algum caos advindo da convivência com crianças e jovens, para que deles venham os dizeres, os roteiros, as primeiras impressões, pode ser algo não “ensinável” de modo linear ou didaticamente apostilado, por assim dizer. Então, assumo aqui que por vezes em minhas aulas eu pareço um ser delirante… quero propor imaginações… quero que os alunos, junto comigo, espacializem imaginações…

… Como e por que nem sempre isso é possível?

Talvez a resposta esteja não no desejo [que reconheço aqui como autêntico!] de “viver isso no corpo”, mas na biografia escolar de cada um.

Os professores dos anos iniciais, e seus modelos educativos, nos marcam demais. Se fomos ensinados – ou talvez doutrinados –para uma atitude passiva de recepção do conhecimento organizado, racional, evolutivo (do simples ao complexo),  sentados enfileirados para que o professor “passasse seu conhecimento” para nós, como ser protagonista de si e de seus projetos acadêmicos aos 18 ou 25 anos?

É esse tal “protagonismo” que precisa ser rabiscado, garatujado, semeado em cada corpo, coração e mente do futuro professor de teatro. Como fazê-lo penso ser o enigma mais atual dos docentes das Licenciaturas em arte.

E agora, José?

"as coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender" disse Paulinho da Viola

 

1 comment for “Viajem comigo!

  1. 24 de abril de 2016 at 15:45

    Palavras de reflexão, rever a história e o que ela faz em nossos corpos… propor aos estudantes e a si, observar porque somos como somos… agimos como agimos… sem compreender de que modo somos constituídos, os fundamentalismos de nossa educação, não poderemos ver a linha abissal entre o nós-formatados e o nós imensurável… Lindas reflexões de uma educador que sabe porque está na docência…Marina Marcondes

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