Tristeza de fundo geracional

Desde os acontecimentos envolvendo Lula nas investigações da Lava-Jato surgiu uma porção de pessoas tristes, “de ressaca”. Pessoas que faziam parte da juventude na década de 1980, que perceberam ares de mudança e de novas possibilidades, com a abertura política, a campanha das Diretas Já, a fundação do Partido dos Trabalhadores. Eu, particularmente, estava com um tipo de vida diferente da maioria da minha geração: casei cedo e tive que fazer repouso na gravidez… enquanto que minhas melhores amigas eram militantes do novo partido e da nova possibilidade que surgia. Então, participei com concomitantes distância e entusiasmo.

Na semana em que o Lula foi eleito presidente pela primeira vez, fui na sessão de psicanálise de vestido roxo – lembro de todos os detalhes – e com um quadro de meu ex-marido, artista importante, de presente para a psicanalista: me dei alta! Parecia algo tão novo e inusitado que de fato teríamos um novo Brasil: para viver, desbravar, criar nossos filhos noutra sintonia, mais justa, menos “falso self” (em São Paulo, a lógica “falso self” costumo definir, não sem ironia, com o dito: “Nova Iorque é aqui”).

Agora a tristeza nos invade.

É bem impressionante um tipo de energia histérica que leva todos os que são “contra a corrupção” colocarem no mesmo saco tudo e todos – o que inclui toda a história pregressa do PT; e saem gritando pelas janelas de seus carros “Lula preso!”, buzinando em Belo Horizonte como se Atlético ou Cruzeiro tivessem vencido… Também o xingamento “petrálias” é recorrente, odiento a tal ponto que, em quem possa ter votado no PT, gera um temor, tenso e paralisante…

O projeto do Partido dos Trabalhadores ruiu, e o contraste entre a jovem militância dos anos de 1980 e os políticos governantes de fato no século XXI é coisa de cinema: parece filme. Um comentarista e professor da PUC-Rio, Rodrigo Nunes, lembrou que ouviu dizerem que Lula poderia ter se tornado “um Nelson Mandela”… mas escolheu tornar-se “lobbyista das empreiteiras”. Seria um bom “resumo da ópera” inicial do filme que está passando.

Um tipo de noticiário confirma e sataniza a corrupção na pessoa de Lula e na organização partidária do PT, e esquece de contar os caminhos da gestão pública do Brasil, ou de convidar o espectador, como “sociedade civil”, a recriar um Brasil melhor. Vejo ao meu redor inúmeras mulheres da minha idade com “ódio do bolsa família”, por exemplo. Para elas qualquer ideia política de distribuição de renda é “bolivarização” do Brasil…

As coisas sentidas e os argumentos pensados e ditos convidam à briga de rua; gritar e bater panela, para elas, é “ação política”. Nessa tribo, mostrar-se “ultraconservador” pega bem (!?). Dizeres atualizados desse modo de ser: o jovem pipa crack porque quer…  O pobre é pobre porque não soube aproveitar as oportunidades… As cotas nas universidades são injustas com os bons alunos… e muitas outras. A ideia é “atacar” para fazer sua catarse própria, sem nenhuma intenção de participação em algum projeto de futuro coletivo…

É essa a “tristeza de fundo geracional” que estou sentindo, nos anos de 2015-2016.

 

1 comment for “Tristeza de fundo geracional

  1. Raysner de Paula
    18 de abril de 2016 at 23:20

    Minha vida paralisou na semana passada. fiquei estatelado com o que vi ontem na votação deste processo descabido. Mas “meu coração não se cansa de ter esperança”. Haja lágrima! A luta só começou.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


4 − um =