Sobre o chão como lugar de brincar

Recebi visita de duas meninas, ainda crianças, mas não tão pequenas… A imagem é nossa “conversa” com e entre os objetos que coleciono e que fazem parte da minha casa. Vou comentar aqui o que eu quero dizer com “brincar sem brinquedos”.

“Brincar sem brinquedos” não é ser contra a indústria de brinquedos ou o artesanato; brincar sem brinquedos quer dizer “brincar por conta própria”, ou seja, fazer uso imaginativo das coisas do mundo. E os brinquedos – tradicionais, eletrônicos, artesanais, etc – fazem parte das coisas do mundo. Mas também fazem: as almofadas, as pedras, os restos de madeira de um marceneiro, os carretéis de linha, e assim por diante. Pedras, toquinhos, carretéis eu nomeei os “brinquedo-sucata”, e escrevi um livro sobre isso, na década de 1990.

Mas o que foi interessante na minha convivência com as duas meninas, irmãs entre si, foi que ir arrumando as coisas no chão “para brincar” [ou contar uma história, “depois”] foi um jeito de nos conhecermos. Uma delas me dizia: “Você é criativa!”. Da minha parte eu ouvia as ideias delas e buscava outra coisa, outra coisa, outra coisa, que eu ia tirando dos lugares da minha casa, para compor nossa instalação.

Sem pretensão ou arrogância, eu chamaria sim o que fizemos no chão de instalação. Uma ocupação criativa no espaço. A imaginação espacializada, ou  o espaço imaginado numa concretude, povoado por miniaturas.

quem quer brincar?

Em minha experiência com crianças, percebi que quanto menor a criança maior a potência para povoar um espaço vazio… aos poucos, a vida escolarizante e a capacidade de falar e organizar gera um tipo de racionalidade que dificulta, por exemplo, extrapolar as proporções. Exemplifico: um cesto de “gente” não poderia ser o cesto “do boneco”… ao que eu dizia, “por que não? a gente ta inventando!”, e elas topavam, mas quase que com comiseração por mim…

No geral, as crianças maiores (elas tinham 8 e 9 anos) arrumam, mas não habitam o lugar imaginativo que surgiu: fora de nós, no entanto, entre-nós, entre os nós imaginativos e brincantes, entre pessoas e objetos, corpos-no-mundo. Por habitar eu quero dizer: agachar, debruçar, corporeificar o personagem pelo jeito de segurar um boneco e fazer sua voz, crer naquela imagem-momento-convivência… crescer parece ser distanciar-se disso: uma infância (sim, momento sem fala) que cola nas possibilidades menos possíveis, entre o cesto da mãe e o cesto do boneco. Recuperar essa capacidade de debruçamento é o que venho propondo a meus alunos que serão professores de teatro para crianças e jovens futuramente. Será que consigo?

 

4 comments for “Sobre o chão como lugar de brincar

  1. Marina Kamei
    22 de fevereiro de 2016 at 17:33

    Olá Marina. Tive a grande oportunidade de assistir sua palestra e participar da oficina “Mapeie-se” que ministrou no Evento”Cartão-Postal” realizado na Universidade Federal do Tocantins. Pude descobrir seu blog e me encantei. Especialmente por esse artigo. Sou professora em uma escola no campo, onde ministro aulas de teatro e artes visuais. Na quinta-feira passada ao dar uma aula para o 4º ano escrevi a seguinte pergunta no meu “diário de vida”: “Como pode eles criarem jogos o tempo todo naturalmente e nós adultos não?” o que se perdeu?” Essa pergunta surgiu depois de termos trabalhado um jogo de coordenação motora e ao perceber que estavam “esgotados” pedi que deitassem de barriga para cima para conversarmos. Não houve conversa, mas, um jogo que eles mesmos instauraram utilizando objetos que tinham nas mão. Foi instantâneo. Todos pegaram a ideia e “bum” a aula se transformou em um momento de criação. AÍ… lendo o seu livro “A poética do brincar” (que consegui pegar vorazmente em um de seus lançamentos) leio uma frase de Black: “A passagem da infância para a vida adulta consiste na passagem da inocência para a experiência.”(p.19) Depois disso fica um olhar diferente sobre ver a vida da infância e a vida adulta. Abraço. Gratidão.

    • agachamento
      25 de fevereiro de 2016 at 21:07

      Obrigada, Marina, pela leitura e pela cumplicidade! Um abraço da sua xará… Marina
      p.s.: apenas para os leitores saberem de onde veio a frase que vc escolheu: é do William Blake, ok?

  2. Marina Kamei
    22 de fevereiro de 2016 at 17:33

    Olá Marina. Tive a grande oportunidade de assistir sua palestra e participar da oficina “Mapeie-se” que ministrou no Evento”Cartão-Postal” realizado na Universidade Federal do Tocantins. Pude descobrir seu blog e me encantei. Especialmente por esse artigo. Sou professora em uma escola no campo, onde ministro aulas de teatro e artes visuais. Na quinta-feira passada ao dar uma aula para o 4º ano escrevi a seguinte pergunta no meu “diário de vida”: “Como pode eles criarem jogos o tempo todo naturalmente e nós adultos não?” o que se perdeu?” Essa pergunta surgiu depois de termos trabalhado um jogo de coordenação motora e ao perceber que estavam “esgotados” pedi que deitassem de barriga para cima para conversarmos. Não houve conversa, mas, um jogo que eles mesmos instauraram utilizando objetos que tinham nas mão. Foi instantâneo. Todos pegaram a ideia e “bum” a aula se transformou em um momento de criação. AÍ… lendo o seu livro “A poética do brincar” (que consegui pegar vorazmente em um de seus lançamentos) leio uma frase de Black: “A passagem da infância para a vida adulta consiste na passagem da inocência para a experiência.”(p.19) Depois disso fica um olhar diferente sobre ver a vida da infância e a vida adulta. Abraço. Gratidão.

    • agachamento
      25 de fevereiro de 2016 at 21:07

      Obrigada, Marina, pela leitura e pela cumplicidade! Um abraço da sua xará… Marina
      p.s.: apenas para os leitores saberem de onde veio a frase que vc escolheu: é do William Blake, ok?

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