Postagem à convite: Bya Braga homenageia Josette Braga de Mendonça / parte 2

Este texto foi escrito por Maria Beatriz Braga Mendonça (Bya Braga), em homenagem a sua tia-mãe Josette Braga de Mendonça. Convidei-a a postá-lo no Agachamento, para divulgarmos o trabalho pioneiro com a pequena infância realizado por Josette.

Bya foi aluna e professora no Externato São Francisco e hoje é atriz e diretora teatral, professora e pesquisadora na área de Artes Cênicas no Curso de Graduação em Teatro e no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da EBA-UFMG. Bya é também a atual diretora da Escola de Belas Artes da UFMG.

parte 2

São muitos os depoimentos existentes sobre o Externato São Francisco – Pré-Escola como uma “Escola feliz”, “Escola amorosa”, “Escola para ricos e pobres”, “Escola construtivista”, um espaço de estímulo e criação a uma existência que divergia da conduta de ganância financeira, de competição desenfreada ou de ambição de poderes em todos os cantos. Josette falava com muita admiração do “Método Montessori” e também na “Pedagogia Waldorf”. Desenvolvia na Escola, e na especialização prática de seus professores, que ela ali também realizava diretamente, conteúdos educacionais construtivistas. Mas, ela tinha uma leitura própria dessas referências e, com sua extrema criatividade e competência, inventou para o Externato um programa pedagógico ousado e único, autoral, incluindo nele sua ética franciscana. Com isso, ela valorizou e engrandeceu a história da Educação na cidade de São Lourenço, bem como da própria Igreja Católica e OFS.

Infelizmente, Josette precisou obedecer à inábil e bruta ordem de despejo do Externato de seu local de origem, por parte da autoridade eclesiástica da época. Um ato avesso à própria história de destinação daquele espaço para fins educacionais?… Na ocasião (conforme manifesto público de pais da Escola contra tal despejo), parecia haver uma demanda para ocupação daquele espaço: abrigar ações de catequese, salões de festas para noivos e sanitários para os usuários em geral. E as salas já fechadas no local, pela autoridade competente, limitando paulatinamente as ações do Externato, pareciam não ser ainda suficientes para os desejos imediatos expressos. Parecia, assim, que uma Escola não era mais bem vinda ali. Ainda mais uma Escola Infantil sem fins lucrativos e cuja sua diretora possuía uma ação empreendedora diferente, ao modo franciscano. Josette disponibilizava para a manutenção do Externato inclusive o que poderia ser seus honorários pela direção pedagógica que realizava, e fazia isso de modo integral. Assim, ela cumpriu de modo exemplar e abnegado o que havia sido delegado a ela como missão franciscana pela OFS: uma direção pedagógica, e sob a manutenção política e administrativa dessa entidade. O Externato não possuía patrocínios financeiros externos, mas contava com o apoio da manutenção do compromisso ético, anteriormente feito, para sua localização naquele espaço. Contava também com o apoio de sua equipe, dedicada e competente, pais de alunos e de alguns irmãos franciscanos somente. Josette, infelizmente, ainda viu serem noticiadas, à época, inverdades sobre a gestão administrativa da Escola, como se dela fosse a responsabilidade pelo fechamento da mesma por razões administrativas. Não era. Josette repudiou publicamente quem se interessou em difundir erros crassos e maliciosos sobre a Escola e seu trabalho, visando sua saída daquele local. franciscanamente suportou a grave injustiça sofrida e seguiu adiante com sua missão educacional, com algum apoio. Por fim, viu-se obrigada a terminar este valioso projeto sob profunda tristeza. Pois, para ela, empreender algo era poder aliar também outros valores que já não pareciam mais importantes na sociedade. Josette lutou muito pela sobrevivência do Externato. Mas revelou adoecimento imediato, progressivo e grave depois disso tudo. Ela silenciou, mas seu corpo falou.

O shortinho e sainha vermelhos com a camisetinha branca, e o desenho de um “Francisquinho” nela, uniforme do Externato São Francisco criado por Josette, não será esquecido pela comunidade de São Lourenço. A bandinha “Frei Osmar Dirks”, com apresentações nos desfiles de 1º de abril e 7 de setembro da cidade, os corais “Os Francisquinhos” e “Cântico do sol”, participantes de encontros infanto juvenis de corais, sua biblioteca-brinquedoteca, as peças teatrais realizadas na cripta da Matriz e no pátio ao redor dessa igreja, as festas promovidas a partir da tradição popular brasileira e de histórias franciscanas escritas por intelectuais reconhecidos desta congregação, e até as visitas feitas às instituições locais variadas, incluindo conversas com prefeitos, não serão esquecidos também pelas pessoas sensíveis e justas desta cidade. Várias dessas atividades foram noticiadas na imprensa local dado o seu caráter de inovação e de valorização do patrimônio cultural educacional. Suas ações educacionais e culturais merecem, portanto, o conhecimento correto por parte da comunidade sãolourenciana e de suas novas autoridades (religiosas ou não), bem como o respeitoso e devido reconhecimento público, com difusão na história da Educação da cidade.

Muitos se emocionam imensamente com a notícia de partida de Josette, a “primeira professora”, “a professora que valorizava a ecologia e gostava dos passarinhos”, a “professora artista”, a irmã “que trabalhou muito e sem pensar em dinheiro”, como bem diz Martha Braga Mendonça, que partilha conosco uma grande saudade, o alto reconhecimento e o imenso amor por Josette. Que São Francisco a receba, então, com muito carinho no céu que ela acreditava, ao lado de muitas crianças, dos passarinhos e todos os seres vivos que amava! E, para um mundo no qual imperam a injustiça, o equívoco, a omissão, a falta de solidariedade e afeto, a covardia com os pequeninos, “onde houver erro, que eu leve a verdade” e “onde houver tristeza, que eu leve [ao menos] a alegria” …

Josette Braga de Mendonça

•Brasópolis, em 23/03/1932     +São Lourenço, em 15/01/2016

Professora graduada em Pedagogia, especializada em Educação Infantil. Fundadora e Diretora do Externato São Francisco, na cidade de São Lourenço-Minas Gerais. Autora, junto com sua irmã Joanita Mendonça, do Hino da Paróquia de São Lourenço. Artista e Artesã. Premiada como “Destaque na área sócio-educacional”, em 2004, pelo Conselho da Mulher Empreendedora e pelo Conselho Municipal dos Direitos da Mulher.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


quatro + 6 =