Postagem à convite: Bya Braga homenageia Josette Braga de Mendonça / parte 1

Este texto foi escrito por Maria Beatriz Braga Mendonça (Bya Braga), em homenagem a sua tia-mãe Josette Braga de Mendonça. Convidei-a a postá-lo no Agachamento, para divulgarmos o trabalho pioneiro com a pequena infância realizado por Josette.

Bya foi aluna e professora no Externato São Francisco e hoje é atriz e diretora teatral, professora e pesquisadora na área de Artes Cênicas no Curso de Graduação em Teatro e no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da EBA-UFMG. Bya é também a atual diretora da Escola de Belas Artes da UFMG.

parte 1

Quando uma pessoa muito amada finaliza sua trajetória neste mundo, nos deparamos com um vazio afetivo enorme. Constatamos o quanto ainda nos falta preparo emocional para dizer adeus. Ficamos imensamente tristes e buscamos entendimentos nas diversas narrativas culturais sobre a criação do mundo e o sentido de nossa presença nele. Ao lado disso, nos deparamos também com a existência de um dia-a-dia cada vez mais bruto, injusto, pleno de desejos de poder em todas as instituições, de manipulações de fatos para servir à conveniências particulares, de vontades de lucros financeiros sem fim, de comportamentos obsessivos extremados e de vaidades diversas. Isso nos decepciona profundamente e nos assusta. Para onde vamos?… Devemos silenciar diante de erros vistos?

Aqueles que realmente conheceram Josette Braga de Mendonça, e conviveram com ela, testemunharam sua opção por um modo de existência completamente avesso à brutalidade, à injustiça e contra a inabilidade nas relações humanas; a viram com uma vida contrária, de fato, à busca de poder e riqueza material. Sua existência era afeita à defesa de condutas e projetos que promovessem o comunitarismo, o convívio solidário e colaborativo entre os seres, buscando promover o crescimento de todos e o conhecimento para todos. Sua vida era afetuosa, cumprindo brilhantemente o franciscanismo, opção filosófica religiosa que possuía e que mereceu dela variados estudos, até em outras línguas (alemão, por exemplo), além de uma prática de ações que transcendiam o assistencialismo básico ou ainda a colaboração somente entre os “irmãos”. Além disso, acreditava e compreendia com profundidade isso: “vinde a mim os pequeninos…”.

Era admirável a capacidade de trabalho de Josette, com uma competência invejável na área da Educação Infantil, aliada a uma sensibilidade especial como Professora num tempo em que ensinar não incluía a escuta dos alunos que, em seu ofício, eram crianças. Josette defendia um tipo de aprendizagem que valorizasse a liberdade para se descobrir o conhecimento, para criar a cooperação mútua e, ainda, para reconhecer a criança em sua própria sabedoria, objetivando, sobretudo, com o Ensino, a felicidade. Josette tinha profunda alegria e respeito com o ato de conhecer. Talvez, sua excelência como Professora começasse daí, na humildade de sempre querer aprender algo, fosse com o Sr. Quinzinho, gari na praça da igreja Matriz, com um intelectual da educação ou da teologia, ou por meios não ortodoxos como a apreender o mundo pela experiência prática, sensorial, vivida. Josette também não se furtava de corrigir erros vistos.

Josette realizou, paralelo à sua ação educacional, muitas e muitas vezes um trabalho voluntário incansável dedicado à Igreja Católica e à entidade Ordem Franciscana Secular-OFS, que pertencia, mesmo possuindo em seu contexto pessoal dificuldades extremas, continuadas, tendo que se responsabilizar diretamente, e diariamente, pelo cuidado de familiares com doenças graves. Mas, isso nunca foi obstáculo para seu exercício amoroso na vida. Sua dedicação ao outro era demonstrada de modo constante em preocupações com todos (e todos os seres), viabilizando ajudas concretas ou ainda fazendo trabalhos de arte para que participantes de encontros da “Ordem Terceira” tivessem outro modo de lembrança dos convívios tidos. Os cartões, marcadores de livros, entre outras tantas artes visuais e cênicas que ela criava, e realizava, para as atividades religiosas da Igreja Católica da cidade e desta Ordem, além das que fazia como profissional da Educação, mostravam sua artesania sofisticada, inseparável da ideia de arte, que era parte bastante expressiva de sua existência sensível e generosa.

Mas, seu grande amor pela vida talvez possa ser lembrado, de fato, na concretização de um Projeto Pedagógico específico de Educação Infantil, criado e desenvolvido por ela na cidade de São Lourenço-MG, com o incentivo direto do visionário Frei Osmar Dirks, ex-Vigário dessa cidade (entre os anos 60 e 70): o Externato São Francisco – Pré-escolar. A história geral dessa Escola tem origem em outubro de 1956 na cidade, quando Frei João Bosco-OFM a fundou. A Paróquia local, posteriormente, incentivou a comunidade de São Lourenço a doar a construção de uma edificação a ser localizada ao lado da Igreja Matriz, no centro de São Lourenço, e com objetivo único educacional. As doações foram feitas, especialmente por pais de alunos, objetivando o funcionamento, exclusivo, naquele local ao lado da Matriz, de uma Escola aberta ao povo da cidade e que não visasse fins lucrativos. O programa Pré-Escolar do Externato foi iniciado em 1980 neste local, já sob direção pedagógica de Josette, experiente Professora, e que já atuava também na Educação Infantil nos anos 70, permanecendo ativo por quase duas décadas. E tudo isso foi feito muito antes da Administração Municipal de São Lourenço reconhecer e institucionalizar sua Educação infantil.

 

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