Quando o publicitário se agacha…

Onde querem chegar os publicitários, e como

Todo brasileiro que assiste TV aberta saberá do que vou falar: das duas últimas campanhas publicitárias do Banco Itaú.

A penúltima é longuíssima e finge que não se importa com tecnologia… nem com dinheiro. Uma peça publicitária “humanista”. Tenho quase certeza que a locução ao fundo é gravação com a voz/interpretação de Fernanda Montenegro. Foi uma “homenagem” aos valores… do Natal humanizado e do Ano Novo esperançoso. Fechando o ano de 2015, cá entre nós.

A última campanha tem uma cançãozinha infantil e smartphones ‘babies’ que nos apresentam as facilidades do Itaú Digital. “Digitau”, num trocadilho já avaliado na internet por usuários (rs) como algo que, “apesar de fofo, estimula as crianças a escrever errado”.

Parece que quanto maior “a crise”, maior tendência “humanista” dos publicitários; rolou no Natal de 2015, também nas propagandas de carro. Se não me engano, eram os carros Ford que queriam “ganhar humanos” de presente!… (viram essa?)

Que os publicitários querem conquistar mais e mais pessoas na carteira de seus clientes, ninguém duvida; mas as táticas… sobre convencer-nos da existência de um consumo lúdico e espirituoso!?

Talvez seja eu que me ofenda, ingenuamente, por ter sido, por algum tempo, considerada “especialista no brincar”. O “especialista no brincar” teria princípios e valores longe da indústria de brinquedos. Mas isso foi no começo da década de 1980… Depois, mais e mais foi-se vendo uma indústria da compra e venda diretamente conectada com a linguagem do brincar. É só relembrar a campanha da OLX, por exemplo: Eu só quero é ser feliz…

Como e por que os produtos não são vendáveis ‘por si só’, pelo que eles nos apresentam como ‘vantagem’, ‘facilidade’ ou ‘prazer’? Tenho a impressão de que não são mais simplesmente vendáveis porque estamos muito sem dinheiro (rs rs), bem como inventou-se uma indústria do supérfluo muuuito grande!… (Enquanto isso, todos os conselhos de saúde financeira gritam no nosso ouvido: “você realmente necessita disso que está comprando?”…).

Quem necessita de um banco lúdico (que não é o Banco Imobiliário, mas que certamente é o brinquedo associado ao “público-alvo” do Itaú, eterno retorno da infância, que nos faria ingênuos)?

Quem quer fingir que não se importa com dinheiro?

Dou um google e descubro: a conta do Banco Itaú como cliente de agência de publicidade é a mais cobiçada do Brasil!

#isso muda o mundo

A brilhanteza estaria no fato de que os publicitários criadores das campanhas nos levam a dissociar o produto mesmo (um Banco) e o que veiculam junto a ele, com ele/nele e por ele — músicas, imagens, apelos; humanismo (sic), afetividade, otimismo, familiaridade, criancinhas cantantes, vovozinhas saudáveis.

A agência que faz a campanha do Banco Itaú é uma empresa das mais admiradas por publicitários do mundo. E se chama Africa. Brasileira com escritório em NY.

Joselito sabe brincar

 

#isso muda o mundo:

Colocar uma menininha brincando de casinha com seu papai, servindo chá em xicrinhas de plástico, na propaganda de Banco

#isso muda o mundo [de quem?]

 

1 comment for “Quando o publicitário se agacha…

  1. Luciana Cezario
    26 de janeiro de 2016 at 13:17

    Pois é! Aqui em BH, no carnaval, vai ter ônibus da Skol circulado pela cidade gratuitamente…! Detalhe: o movimento Tarifa Zero já faz isso há um ou dois anos durante o carná… E o carnaval que se reacendeu como um movimento das ruas, coladinho com a luta pelo direito à cidade, vem lutando para não ser “privatizado”, mercantilizado, “camarotizado”…

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