Breve comentário inspirado na leitura do documento BNCC (Base Nacional Comum Curricular)

Está acontecendo no Brasil um fórum de consulta pública acerca de um documento chamado Base Nacional Comum Curricular, que substituiria os famigerados PCNs e delinearia, grosso modo, ações para a Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio. A partir de uma primeira leitura do documento, escrevi este texto:

Os cognitivistas

Os adultos cognitivistas são ativistas, quase todos de boa vontade, com suas bandeiras próprias: no geral creem no desenvolvimento humano relativamente linear, acumulativo e passível de previsão, e no importante papel do adulto para “influenciar o desenvolvimento” dos mundos de vida das crianças e dos jovens.

O modo como lidam com o que somos, e como somos, é peculiar: “adultos e crianças são subjetivados desde o nascimento”. Consideram a corporeidade, a linguagem e a emoção como “recursos que as crianças utilizam”.

Esses adultos querem, desejam, planejam que as crianças “participem com protagonismo”. E no âmbito da educação de crianças pequenas desenham [com clareza que lhes é peculiar] campos do conhecimento. As artes estão no campo “Linguagem”.

Considerar a arte como “linguagem” é próprio de um tipo de visão adulta que vê o aprendizado com correlatos a como aprendemos a falar – no convívio, na imersão, na imitação, nos “estímulos precoces”, etc.

Os cognitivistas gostam de ter discernimento. Faz parte de seu modo operandi. Creem no desenvolvimento da “sensibilidade, criatividade, gosto pessoal e modo peculiar de expressão”. Desse modo, mostram-se objetivistas até mesmo com os “processos de subjetivação”.

Sobre outro modo de habitar o mundo

Os adultos que trabalham com arte talvez pudessem trabalhar a partir de uma visão própria dos mundos de vida na infância e juventude. Haveria outro modo de (des)organizar grades curriculares ou orientações voltadas para o “conhecimento”? Penso que sim.

Seria interessante habitar um jeito diferente de convívio/imersão/imitação, com foco “no conhecimento que não conhece a si mesmo” (a Arte, segundo Marion Milner). Seria precioso criar procedimentos e processos nos quais o caos, a dúvida e a incerteza fossem ingredientes essenciais para o… “aprendizado” [de tal e qual ‘campo do conhecimento’]. Seria um (des)aprendizado menos calcado na cognição, no conhecimento formal, e mais sintonizado com o que Haroldo de Campos brilhantemente nomeou de transcriação (conceito para a tradução).

As crianças transcriam o mundo, todo o tempo: no entanto os adultos querem ordenar suas “leituras de mundo”. As crianças inventam linguagem: em gesto e palavra, quando recebidas (por todos os seres viventes, o que inclui animais e plantas) com um bom grau de aceitação e de experimentação de si-com-o-outro-no-mundo.

As crianças poderiam ser consideradas como pessoas de pouca idade que performam o morar em seus corpos, corações & mentes. Nessa chave a corporeidade não é “recurso” a ser “utilizado”: a corporalidade é — envelope do si mesmo. Já é a criança mesma. Não é uma ‘massa polimorfa’ a ser modelada: é a experiência mesma do polimorfismo radicalizada (quanto menor for a criança, mais plasticidade, multiplicidade, onirismo, polimorfismo ela nos apresenta).

A transcriação como modo de viver poderia, então, modificar a visão adulta do que é “ensinar teatro” por exemplo. Dramaturgia, corpos encarnados, uso de objetos, vozes, pausas dramáticas, momentos performativos… tudo estaria já dado na maneira de viver da criança de zero a cinco anos. Quem precisa saber esta “linguagem” é o adulto cuidador/educador… Ler, interpretar, responder, ser “espectador emancipado” (Rancière) da vida infantil, seria o papel do adulto.

E não se trata de uma “nova cognição”!

Seria algo próprio da “mãe suficientemente boa” (good enough mother, nos dizeres de Winnicott): ler e interpretar seu bebê. E depois, criar idiomas em comum – que não são mandos nem comandos, são interações criativas e amorosas, são experiências totais (também expressão winnicottiana).

Mas como falar desta ‘abordagem’ em um documento curricular? Fica este desafio no ar.

 

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